Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple

Cadê Você, Bernadette

Sempre que eu perdia um dente de leite, a fada do dente costumava me deixar um DVD. Meus três primeiros foram Os reis do iê, iê, iê, Cinderela em Paris e Era uma vez em Hollywood. Aí, pelo meu incisivo esquerdo a fada do dente me deixou Xanadu, que se transformou no meu filme favorito de todos os tempos.
Maria Semple, Cadê Você, Bernadette?, pág. 299.

Sabe quando você se arrisca a ler um livro (e/ou um autor) do qual você nunca ouviu falar? Isso é algo bem comum, principalmente quando se trata de leitores compulsivos. E quando o resultado disso é algo positivo, aí sim, não há nada melhor. Foi assim meu primeiro contato com a escritora norte-americana Maria Semple, através do seu segundo romance, Cadê Você, Bernadette? (Ed. Companhia das Letras), que se configurou para mim como uma bela surpresa.

A princípio – e especialmente por conta da capa –, eu imaginei se tratar de um chick-lit sem grandes adicionais, no entanto, o que encontrei foi totalmente o contrário. Cadê Você, Bernadette? traz uma divertida história sobre um drama da vida moderna. Bernadette Fox é uma arquiteta renomada – tanto que recebeu um prêmio dado a gênios –, mas cuja carreira desmoronou após um incidente envolvendo uma rixa com um artista de TV em Los Angeles. Tendo executado apenas dois projetos, Bernadette foi à ruína ao ver o principal deles, A Casa das Vinte Milhas, ser demolido da forma mais cruel possível. Sufocada pela vergonha pública ela se muda com seu marido, Elgin Branch, para Seatle, cidade pela qual ela desenvolve um ódio mortal.

Elgin é um programador da Microsoft muito famoso nos Estados Unidos, considerado o melhor da sua área, ele é responsável pelo projeto Samantha 2, desenvolvido no setor de robótica da empresa. Seu projeto é de longe o mais aguardado de todos os tempos, assim Elgin está constantemente assoberbado por seu trabalho, sob uma pressão que está para levá-lo à loucura. Assim, sua tarefa mais difícil é dividir sua atenção entre a Microsoft, sua esposa e sua filha, Bee, o ponto mais alto do livro.

Bee Branch é uma garotinha de 15 anos que cativa logo à primeira vista. Ela resultou de uma gravidez vitoriosa, após diversos abortos espontâneos de Bernadette. No entanto, nasceu com um problema de coração, motivo pelo qual ela foi submetida a 03 cirurgias. Mas apesar do problema de saúde, Bee foi agraciada com uma mente brilhante, tornando-a uma garotinha superdotada e muito esperta. Ela acaba de concluir o ensino fundamental com notas máximas em todas as disciplinas, condição esta que resultaria em grande presente, pois seus pais prometeram lhe dar qualquer coisa que ela quisesse caso isso acontecesse. E eis o pedido de Bee (e também o conflito inicial da trama): uma viagem em família à Antártida.

Todos os planos de Bee estavam indo bem até que poucos dias antes da viagem sua mãe, Bernadette, desaparece do nada sem deixar vestígios, ou pelo menos não explicitamente. Assim, boa parte do livro é uma compilação de documentos feita por Bee para tentar entender e descobrir o paradeiro de sua mãe. Ela reúne e-mails e bilhetes de sua mãe e de todos à sua volta, faturas de cartão de crédito, artigos de revista e da internet, relatórios, documentos do FBI entre outras coisas. Ela narra boa parte dos fatos e vai juntando com esses documentos, construindo assim toda uma história em torno do desaparecimento de sua mãe.

Maria Semple (Caricatura), by Jillian Tamaki
Maria Semple (Caricatura), by Jillian Tamaki

A escrita fluida e a técnica narrativa utilizada fazem com que você devore o livro rapidamente. A ideia de utilizar os documentos permite que tenhamos uma visão geral de todo o caso sob o ponto de vista de vários personagens, assim assumimos o papel de detetives ao lado de Bee. Essa forma de construção do romance é comumente utilizada em thrillers policiais, um exemplo é o livro Suicidas (Ed. Benvirá), de Raphael Montes, em que a trama é desenvolvida através de documentos, diários e transcrições de gravações da polícia. Só que diferentemente dos autores de thriller, Maria Semple usa essa técnica de reunir documentos para escrever uma comédia hilária, é impossível não rir.

Um ponto interessante do livro é que a história narrada é meio que autobiográfica. Bernadette Fox é uma espécie de alter ego de Maria Semple. Isso porque Semple também teve que sair de Los Angeles, onde deixou sua carreira de roteirista, para morar em Seatle, onde não se sentia nem um pouco confortável. Além disso, semelhantemente ao projeto fracassado de Bernadatte, a autora se sentiu frustradas com o fracasso nas vendas do seu primeiro romance publicado, This One is Mine (2008). No entanto, ela resolveu vencer esse obstáculo depressivo usando isso como base para construção de um novo romance, a velha técnica de superação que é fazer do drama uma comédia. E assim surgiu a história de Bernadette, que ao contrário do primeiro romance, foi muito bem recebida pela crítica e que já está cotada para uma adaptação em Hollywood.

Maria Semple
Maria Semple

Antes de se tornar uma escritora de romances, ela era roteirista de sitcoms em Los Angeles, entre seus trabalhos nesse meio estão as séries Mad About You, Ellen, Arrested Development e Barrados no Baile. Fazer as pessoas rirem já era um talento da autora, e ela só usou isso em seu favor. Uma das cenas mais engraçadas do livro é quando Bernadette, uma consumista da Apple, conversa com um funcionário da Microsoft, empresa sobre o qual ela não tem o menor interesse, a ponto de não saber nem o que é o Messenger. Por fim, vale muito a pena a leitura, principalmente para quem precisa dar umas boas risadas e quem gosta de se divertir lendo.

Postagens relacionadas:

– Resenha: Suicidas, de Raphael Montes

Ficha Técnica

Cadê Você, BernadetteTítulo: Cadê você, Bernadette?
Título original: Where’d You Go, Bernadette?
Autor(a): Maria Semple
Editora: Companhia das Letras
Tradução: André Czarnobai
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 376
Sinopse: Bernadette Fox é notável. Aos olhos de seu marido, guru tecnológico da Microsoft e rock star do mundo nerd, ela se torna mais maníaca a cada dia; para as demais mães da Galer Street, escola liberal frequentada pela elite de Seattle, ela só causa desgosto; os especialistas em design ainda a consideram uma gênia da arquitetura sustentável, e Bee, sua filha de quinze anos, acha que tem a melhor mãe do mundo. Até que Bernadette desaparece do mapa. Tudo começa quando Bee mostra seu boletim (impecável) e reivindica a prometida recompensa: uma viagem de família à Antártida. Mas Bernadette tem tal ojeriza a Seattle – e às pessoas em geral – que evita ao máximo sair de casa, e contratou uma assistente virtual na Índia para realizar suas tarefas mais básicas. Uma viagem ao extremo sul do planeta é uma perspectiva um tanto problemática. Para encontrar sua mãe, Bee compila e-mails, documentos oficiais e correspondências secretas, buscando entender quem é essa mulher que ela acreditava conhecer tão bem e o motivo de seu desaparecimento. Maria Semple revela, em seu segundo romance, a influência de grandes escritores contemporâneos como Jonathan Franzen e Jeffrey Eugenides, ao mesmo tempo que se afirma como uma voz original, marcada pelo melhor humor das séries de TV norte-americanas. Sem sentimentalismos, mas com muita empatia, Cadê você, Bernadette? trata do amor incondicional de uma filha por sua mãe imperfeita.

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

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6 comentários

  1. Acho que já falei um zilhão de vezes que a cada resenha que vocês postam minha conta bancária diminui, né?
    Fiquei muito interessada em conhecer Maria Semple! Adoro livros em que o protagonista é um alter-ego do escritor. Acho que sempre acabo lendo de outra forma, mais realista, talvez.
    A capa realmente chama a atenção. Eu compraria! Sou como você: compulsiva, adoro coisas novas rs
    Beijos

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    • Hahahahahaha, que bom saber que influenciamos nas suas compras!
      Como eu disse no texto, a Maria Semple foi uma bela surpresa, isso porque eu estava precisando dar boas risadas, assim o livro veio bem a calhar.
      Eu só soube que ele era um pouco autobiográfico quando li uma entrevista com a autora, depois que terminei de ler, mas o livro acabou ganhando novo significado mesmo assim.
      Beijos!

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  2. Que legal, Ademar!
    Acho uma delícia quando arrisco um autor novo, praticamente desconhecido, e a leitura é boa!! Por conta do blog, às vezes ficamos “presos” aos lançamentos mais badalados, mas é ótimo encontrar uma indicação como essa!
    beijos
    Camis

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    • Oi Camis,
      Eu também, adoro experimentar coisas novas, principalmente quando se trata de livros. Essa foi uma indicação e me agradou muito. E eu também adoro indicações, rs.
      Beijão!

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  3. Oi Ademar. Tudo bem? Como você já sabe, eu adorei o livro.Está meio dificil pra comentar aqui, mas vou tentar. Acho que sairá com erros. O livro é muito bem feito, eu simplesmente adorei a estrutura e o enredo. E pra mim a parte mais engraçada foi o e-mail da Soo-lIn na Lan House haha Enfim, eu adorei a resenha, como sempre muito bem escrita e instrutiva.
    Beijos
    Descobrindo Livros

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    • Oi Lucas, tudo bem sim e com você?
      Fico feliz que tenha gostado da minha resenha. Então, eu também adorei esse livro, como já te disse foi uma doce surpresa para mim.
      A parte da Soo-Lin na Lan House é hilária mesmo, a Bernadette é uma figura (adorável), rsrs… E a Bee, então?
      Amei!
      Beijos

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