E Então Paulette…, de Barbara Constantine

E Então Paulette...

 […] Dividir seu espaço obrigaria a se vestir para ir ao banheiro, andar na ponta dos pés para ver se sobrara alguma coisa na geladeira, evitar acender à luz a noite, ou se conter para não peidar quando estivesse com vontade. Tinha se habituado a vida solitária, provavelmente iria se arrepender. Mas logo mudou de opinião. […]
Barbara Constantine, E Então Paulette…, pág. 180.

Assim que a Editora Intrínseca lançou E Então Paulette…, de Barbara Constantine, eu já fiquei apreensivo pela leitura. Pela sinopse pude perceber que a história girava em torno de uma fazenda onde várias gerações de pessoas se encontrariam, e isso me passou uma ideia de uma leitura bem divertida. E realmente é! No seu quarto romance, a autora nos mostra a arte de conviver com as diferenças.

O protagonista dessa história é Ferdinand, que vive sozinho desde que sua esposa faleceu e seu filho mais novo deixou a fazenda, levando consigo a mulher e os filhos. Mesmo assim, Ferdinand tenta seguir com sua rotina e “pequenas travessuras”, embora ele ainda não consiga ser feliz vivendo num lugar deserto. Durante uma tempestade, ele encontra a cadela de sua vizinha, Marcelina, e decide fazer uma visita para devolvê-la. Ao passar pela casa da vizinha, percebe que o teto está prestes a desabar sob a força da tempestade e, chama-a para morar com ele, enquanto ela promove uma reforma. Essa mudança é apenas o primeiro passo para o desenrolar dessa trama.

Barbara Constantine
Barbara Constantine, na companhia de um de seus felinos.

Com o passar do tempo e novos acontecimentos, outras pessoas se juntam a Ferdinand e Marceline e passam a dividir aquele lugar. Tudo acontece tão rápido e, quando se percebe, uma comunidade foi formada. E é nesse ponto que percebemos uma oportunidade para que, talvez, todos sejam mais felizes. Todos os personagens acabaram de sofrer uma perda importante em suas vidas e aprendem, compartilhando o “pouco que resta”, a seguir em frente. Um dos personagens que mais mexeu comigo foi Guy, amigo de Ferdinand, que, após a morte da Gaby, sua amiga e esposa, sente-se muito mal e perdido. Esse tipo de perda e depressão faz parte da vida de muitas pessoas, e há sempre uma história semelhante próxima a gente.

Considerando o meu gosto literário, este não seria um livro que me agradaria de cara. Primeiro porque ele não possui um clímax ou uma tensão que lhe force a ler mais uma parte. Pelo contrário, a leitura é breve, comovente e sem rodeios, com uma história que acaba por ser, no essencial, tão simples como a forma como está escrita. A leitura é rápida e um dos fatores que propicia isso é a grande quantidade de capítulos, que eu acabei por considerar “episódios”. E edição e diagramação, bem como a escrita da Barbara Constantine, me lembraram do livro Recordações de um Olho Torto, de Plínio Cabral.

Outro ponto que me agradou bastante foi que, embora o livro seja bem divertido, ele possui um contraponto às emoções vividas pelos personagens. Na idade em que eles estão, é sempre complicado executar algumas ações, o que os deixam, de certa forma, em condição de vulnerabilidade, e isso possibilitou a autora criar um retrato incrível da nostalgia em que eles viviam, mas isso é apresentado de forma terna. Os personagens são uns fofos, simpatizar com eles é inevitável.

Como eu disse no início, a autora junta várias gerações vivendo juntas numa mesma fazenda. Isso nos faz refletir nos distanciamentos dos jovens dos seus avós ou tios mais velhos. Isso nos leva a questões relevantes, nos mostrando que os fatos que atualmente afastam os jovens dos idosos são exatamente o ponto que os unem. Estas são questões que surgem aos poucos, de forma discreta, mas que ao fim da leitura possuem um impacto incrível.

A evolução dos acontecimentos e a criação dos personagens são pontos favoráveis à obra. Apenas uma coisa me desagradou, embora tenha sido um dos fatores que me levou a esta leitura: o título. Acredito que ele, de certa forma, é um grande spoiller, mas ainda assim, não prejudica em nada. Alguns pontos do livro ficam sem discussão, mas para quem gosta de refletir após a leitura, esta é uma excelente oportunidade. Recomendo!

Barbara Constantine
Autora autografando Et Puis, Paulette…

Postagens relacionadas:

– Resenha: Recordações de um Olho Torto, de Plínio Cabral

Ficha Técnica

E Então Paulette...Título: E Então Paulette…
Título original: Et puis, Paulette…
Autor(a): Barbara Constantine
Editora: Intrínseca
Tradução: Mauro Pinheiro
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 224
Sinopse: Ferdinand está sozinho. Após ficar viúvo e depois de seu filho mais novo se mudar com a mulher e os dois filhos para a cidade, a fazenda em que vive produz apenas saudade e memórias. Sua vida pacata e solitária, no entanto, está prestes a ser transformada. Após uma grande tempestade, Ferdinand descobre que a casa de sua vizinha está condenada e praticamente inabitável. Incentivado pelos netos, Ludo e Luzinho, convida Marceline – e sua cadela, seu burro e seu gato – para morar com ele. Pouco tempo depois, seu amigo Guy perde a companheira tão amada, Gaby, e dá a impressão de estar, aos poucos, desistindo de viver. A solução parece ser a vida partilhada na fazenda, que,assim, ganha mais um morador, com novos hábitos e habilidades. Então chegam as irmãs Lumière, com suas manias e histórias, e também os jovens Muriel e Kim. A fazenda volta a se encher de possibilidades e expectativas. E, enfim, chega Paulette… Um delicioso e comovente romance sobre como a solidariedade, o amor e a amizade podem transformar histórias, salvar vidas e fazer ressurgir esperanças.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Submarino | Cultura

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4 comentários

  1. Que bacana, José!
    Não conhecia esse livro, mas parece ser o tipo de leitura que me agrada!
    Gosto de livros bem humorados, mas que ao mesmo tempo tenham uma mensagem boa sobre as pessoas!
    Vou incluí-lo na minha lista de desejado!
    beijos
    Camis – Leitora Compulsiva

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    • Que bom que curtiu, Camila. :3
      O livro é bem divertido e fofo, sim… E trazem uma lição maravilhosa.
      Vale a pena incluí-la na sua lista.
      Beijos!

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    • Soraya, querida, também acredito que você vai amar.
      O livro é muito fofo e com certeza fará com que seus *devaneios* aumentem. rsrs
      Isso aconteceu comigo, me fez refletir bastante. Incrível!
      Beijos

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