O Projeto Rosie, de Graeme Simsion

O Projeto Rosie

Os seres humanos muitas vezes deixam de enxergar o que está perto deles e que parece óbvio para os demais.
Graeme Simsion, O Projeto Rosie, pág. 96.

Julgar um livro pela capa é algo muito comum entre leitores. Ainda que se perca esse hábito ao longo do tempo, vez ou outra isso é inevitável. Acontece que meu primeiro contato com O Projeto Rosie, do até então desconhecido Graeme Simsion, me causou a impressão de que eu estava diante de mais um chick-lit. Não posso dizer que o livro fuja completamente dessa definição, mas de forma alguma se restringe a ela. Como não sou bom entendedor do chick-lit e seus subgêneros, atribuo as definições que vi algumas leitoras – fãs e entendedoras do gênero – utilizando, que são dude-lit e lad-lit, que caracterizam livros narrados por homens, escritos por homens e algumas vezes destinados ao público masculino, embora essa última não seja uma regra.

Saindo um pouco dessa discussão que tenta enquadrar o livro num determinado gênero, vamos falar sobre a trama. O livro é narrado por Don Tillman, um geneticista e professor universitário que não tem grandes aptidões para construir relacionamentos com o sexo oposto. Na verdade, ele tem dificuldade para se relacionar com qualquer pessoa, caso isso exija alguma situação de convívio social. O único setor cujas inter-relações funcionam de forma satisfatória – até certo ponto – é o profissional.

Jim Parsons como Sheldon Cooper no piloto de The Big Bang Theory, 2007.
Jim Parsons como Sheldon Cooper no piloto de The Big Bang Theory, 2007.

Don está com 39 anos e nunca teve um relacionamento digno de nota com uma mulher, com exceção das relações fraternas com sua irmã (falecida) e sua vizinha Daphne (internada em um asilo). Mas essa excentricidade em relação ao seu convívio social é resultado do seu comportamento sistematizado e sua falta de empatia em relação às pessoas. Quem já assistiu ao seriado de TV The Big Bang Theory facilmente identificará Don como uma versão romantizada do icônico Sheldon Cooper. Isso porque Don cronometra seu tempo para TODAS as suas atividades diárias, padroniza suas refeições semanais categorizando-as de acordo com o dia em questão, sente-se completamente desconfortável com qualquer tipo de contato físico com outras pessoas e ainda possui um lugar específico onde só ele pode sentar. Isso só para citar algumas semelhanças.

Todavia, há uma grande diferença entre Sheldon e Donald – e não é o fato de “don” está no final do nome do primeiro e início do segundo. A diferença real é que Sheldon não tem como prioridade procurar uma mulher para se relacionar (ainda que uma candidata surja na vida deste), enquanto Don está ansioso para ter seu primeiro relacionamento de verdade. A ideia é tão empolgante para ele, que o leva a criar o chamado Projeto Esposa, que consiste na aplicação de um questionário científico estruturado de 16 páginas, contendo perguntas sobre todos os aspectos de sua vida. O tal formulário é distribuindo entre mulheres com o intuito de selecionar aquelas que possivelmente possam ser a representação da esposa perfeita para Don.

E no meio dessa “pesquisa”, Don conhece Rosie, que não é candidata ao Projeto Esposa. Rosie é uma mulher cercada de problemas e traumas familiares – sua mãe morreu antes de lhe revelar quem era seu pai biológico e seu padrasto parece incapaz de lhe demonstrar amor – que possivelmente a levaram a cursar Psicologia. Em meio a uma conversa animada eles criam o Projeto Pai, em que Don como geneticista se compromete em ajudar Rosie a encontrar seu pai biológico.

Dividindo o cenário com eles estão os amigos de Don, o casal Gene e Claudia, dois psicólogos que vivem um casamento aberto. Enquanto Claudia sofre calada o remorso de ter aceitado esse tipo de relação, Gene esbanja seu passe livre de culpa para colecionar relações rápidas com mulheres de todas as nacionalidades possíveis. Ao mesmo tempo em que vivem um relacionamento nada convencional, o casal faz de tudo para aconselhar Don em sua tentativa de se relacionar convencionalmente com alguém. E para quem acredita que aconselhar é uma forma de ser aconselhado também, devo dizer que essa máxima se aplica muito bem a Gene e Claudia.

O fato é que Don aos poucos aprende que nem tudo pode ser esquematizado e pré-programado. Que o universo nem sempre conspira a favor da organização, e é aqui que entra o que conhecemos como imprevistos e improvisos. Além disso, Don aprende que nem tudo pode ser resolvido de forma racional, às vezes as emoções – nossas e dos outros – falam mais alto e de forma mais coerente. Assim, O Projeto Rosie se configura como um romance de formação tardio. Don, um garoto que sofreu bullying na sua adolescência por ser diferente, só vive sua etapa de aprendizado sobre os relacionamentos na sua vida adulta. Não que ser precoce seja uma regra, mas a vida de Don se faz notadamente uma exceção, ainda mais pelo fato dele ser a descrição de um galã e não de um nerd comumente estereotipado como feio.

Longe de ser uma análise sobre o comportamento generalizado, o crescimento de Don é mais do que uma aprendizagem no âmbito sexual. Ele não apenas aprende a se relacionar com mulheres, ele amadurece e aprende a lidar com pessoas – seus amigos, sua chefe, sua carreira e tudo o mais. E mesmo sendo retratada na forma de comédia, a vida de Don é uma lição para todo mundo. É impossível não se identificar com algumas das inseguranças do personagem, seja em relação a amizades, namoro, carreira ou família. É por isso que nós leitores costumamos dizer que a literatura é também uma forma de aprender a lidar com as situações hipotéticas da vida real.

Graeme Simsion
Graeme Simsion

O australiano Graeme Simsion estreia na literatura com uma obra muito empolgante. Tão cativante que já foi publicada em mais de 40 países – a publicação aqui no Brasil se deu após disputa em leilão entre várias editoras – e os direitos para adaptação cinematográfica foram vendidos para a Sony Pictures, antes mesmo de o livro ser publicado nos EUA. A escrita do autor é fluida e bem construída. É quase impossível não rir de Don, e vez ou outra se emocionar com o amadurecimento do personagem.

Graeme está trabalhando atualmente em dois romances, Walk to the Stars (Caminhar para as Estrelas, em tradução literal), que se situa no já comum Caminho de Santiago, e The Candle (A Vela, em tradução literal) que narra a história de um relacionamento de 20 anos que precisa ser reacendido. Além de escritor, Graeme é também roteirista e já conta com vários curtas em sua carreira, e inclusive colabora com o roteiro da adaptação de O Projeto Rosie.

Outras capas.
Outras capas.

Dito tudo isso, só posso afirmar que este livro foi uma das maiores (e melhores) surpresas que tive este ano, um dos livros mais divertidos que li até então, tornou-se um dos meus queridinhos. Vale a pena conferir!

Curiosidades:

  • Na busca pela esposa perfeita, Don Tillman elaborou um rigoroso questionário de 16 páginas. Para que a busca resultasse em sucesso, Don listou minuciosamente 10 questões fundamentais. A editora Record disponibilizou em sua página no Facebook um questionário para testar sua compatibilidade com o professor Don Tillman. Suas respostas são confidenciais, faça seu teste AQUI.
  • Leia um trecho do livro (disponibilizado pela editora) AQUI.

Ficha Técnica

O Projeto RosieTítulo: O Projeto Rosie
Título original: The Rosie Project
Autor(a): Graeme Simsion
Editora: Record
Tradução: Ana Carolina Mesquita
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 320
Sinopse: Perto de completar 40 anos, o peculiar professor de genética Don Tillman havia desistido do amor. Para acompanhar sua rotina severamente cronometrada, com esquema de refeições padronizadas, um cronograma para a execução de cada compromisso (inclusive para a prática de exercícios físicos antes de dormir) e lidar com sua falta de habilidade social, só mesmo a mulher perfeita. E ele já sabe como encontra-la. Ou pelo menos acha que sabe. Ele desenvolve o projeto Esposa Perfeita, um questionário meticuloso que irá ajudá-lo a selecionar candidatas adequadas a seu estilo de vida. Mas quando Don conhece a jovem Rosie ele descobre que nem tudo na vida pode ser programado… e que o amor pode, de repente, vir a seu encontro.

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

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4 comentários

    • Oi Soraya,
      A história além de inusitada é muito divertida. Uma delícia de ler.
      Ver as coisas pela perspectiva de Don é bem legal mesmo, dificilmente a gente ver isso, mas vale a pena.
      No fim das contas o Don se torna um personagem memorável.
      Beijos!

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  1. Oi, Ademar.
    Não acredito que não tinha comentado nessa resenha! Acabei de ver nos meus e-mails!! Eu tinha lido pela news e deixei para comentar depois… E acho que me esqueci! rs…
    Mas enfim…
    Fiquei apaixonada por esse livro. Apesar do Don não ter a menor habilidade social, ele me ganhou! Fiquei encantada com ele! rs… Eu ri, mas também me emocionei muito!
    beijos
    Camis

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    • Oi Camis,
      Nem eu acredito, rum… Brincadeira. hahahaha
      Como você deve ter percebido eu também adorei. Um dos livros mais divertidos que eu li esse ano, uma bela surpresa, assim como o “Cadê Você, Bernadette?”.
      Beijos

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