Vida Após a Morte, de Damien Echols

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A prisão é um show de horrores. O circo não faz ideia do que está perdendo. Serei o mestre de cerimônias nesta vista guiada por esse cantinho do inferno. Prepare-se para ficar atordoado e perplexo. Se a mão é realmente mais rápida do que o olho, você nunca descobrirá o que o atingiu. Eu sei que nunca descobri.
Damien Echols, Vida Após a Morte, pág. 17.

Dificilmente encontramos um tema que cause tanta revolta nas pessoas quanto a injustiça. Ainda mais quando ela ocorre de maneira tão equívoca. Nos Estados Unidos, por exemplo, não são poucos os casos de pessoas condenadas à morte injustamente. O que não é de se espantar diante de uma nação onde 36 dos seus 50 Estados adotam a pena de morte. Alguns casos geram muitas dúvidas e repercussão, como o de Damien Echols, que relatou todos os absurdos de sua condenação no livro Vida Após a Morte.

Embora o foco da obra seja os relatos de Damien, que vão desde a sua infância até a sua estadia na prisão, também temos conhecimento de como seu amigo Jason Baldwin e sua amiga Jessie Misskelley foram presos. Os três passariam mais tarde a serem conhecidos como “os três de West Memphis” (WM3).

Trio de West Memphis
Trio de West Memphis

Na verdade, nunca gostei de autobiografias (muito menos biografias). O que tornou a leitura um desafio desde o início. Das leituras que fiz do gênero, Vida Após a Morte foi – não digo a pior – mas uma das mais incômodas. Isso porque o livro em sua maior parte narra a infância e adolescência de Damien. Quando o esperado, pelo menos diante do título, é uma ênfase maior na fase em que ele sai da cadeia.

Damien é o que podemos chamar de “garoto sofrido”. Teve que lidar com a pobreza desde cedo e com o divórcio de seus pais. Além do mais, era um adolescente impopular de várias particularidades. Gostava de bandas do naipe de Metallica, de revistas com skatistas estampados na capa, filmes e livros de terror de Stephen King. E acreditem se quiser, essas características, nem tão incomuns, serviram para que ele e seus amigos fossem presos.

A maior recordação que terei desse livro é a figura de Jerry Driver. Nunca criei tanto ódio de uma pessoa quanto deste policial. Imagine ser acordado às 3:00 horas da manhã só porque um guarda psicótico acha que você está envolvido em “atividades satânicas”. Sim, parece bobagem, mas essa é a acusação de Jerry até vê-lo preso.

O ponto crucial para que o trio fosse preso foram as mortes de três escoteiros. A sede de justiça da população e as falsas acusações de Jerry serviram como estopim para que os jovens fossem acusados de “ritual satânico”. Contando assim parece até absurdo, mas é narrado dessa maneira. Não existe sequer uma prova concreta contra eles.

Em sua estadia na prisão, Damien relata o ambiente hostil e animalesco no qual foi submetido por dezoito anos. Algumas situações me deixaram muito aflito, como a de um prisioneiro que foi capaz de beber urina em troca de um simples cigarro. Já outras situações são inconcebíveis. Não consigo entender como nem por que prisioneiros iriam ficar repassando uma ratazana de cela em cela. Claro que ficar isolado por anos deve ser extremamente entediante, mas não faz sentido algum criar uma ratazana de estimação sendo que você não tem disposição nem pra cuidar de si próprio.

Damien Echols até tem uma boa escrita, levando em conta que ele não é escritor e que a obra foi organizada a partir de alguns de seus escritos enquanto estava na cadeia. O “Diário”, que compõe uma das partes do livro, é talvez o ponto mais alto da narrativa. Nele constam suas aflições e angústias, seus desejos após sair da prisão e a saudade de suas datas favoritas – Natal e Halloween. A simples vontade de sair e tomar um sorvete, sentir a neve caindo sobre o corpo, caminhar livremente é escrita de maneira tão doída e nostálgica que é impossível não se emocionar.

Johnny Depp e Damien Echols
Johnny Depp e Damien Echols

O livro é eficiente no que diz respeito às denúncias do sistema judiciário e carcerário. Onde os prisioneiros são tratados como animais, apanham dos guardas sem motivo algum e levam castigo por dar comida a outro prisioneiro. Damien também consegue chocar com as descrições desses abusos, onde nem mesmo pessoas com problemas mentais escapam.

A luta de Damien Echols por justiça ocorreu em maior parte sob os holofotes da mídia. O que contribui efetivamente para que ele não fosse executado. Entre seus porta-vozes e defensores estavam o ator Johnny Depp, o músico Eddie Vedder e o cineasta Peter Jackson, além de sua esposa Lorri Davis.

Vida Após a Morte foi publicado pela Editora Intrínseca nesse ano. A história do primeiro homem a deixar o corredor da morte no Arkansas foi acompanhada de perto pela executiva da HBO, Sheila Nevins. Seu interesse pelo caso foi tanto que resultou numa trilogia de documentários dirigidos por Berlinger e Bruce Sinofsky. Os documentários são: Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills (1996), que apresenta a verdadeira história do trio de West Memphis; Paradise Lost 2: Revelations (2000), uma nova luz sobre o caso, e Paradise Lost 3: Purgatory (2011), indicado ao Oscar em 2012 e que mostra um panorama amplo da condenação dos três jovens e as manifestações de apoio da população.

Lost Paradise
Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills (1996), Paradise Lost 2: Revelations (2000) e Paradise Lost 3: Purgatory (2011)

Curiosidades:

  • Certa vez, durante seu longo tempo no corredor da morte, Damien Echols recebeu uma carta de uma jovem de Nova York, chamada Lorri Daves, que estava sensibilizada com sua situação. A resposta de Damien à carta deu início a meses de correspondências regulares entre os dois. Com o tempo eles desenvolveram um sentimento mútuo, e Lorri acabou se mudando para a cidade mais próxima de onde ele estava recluso, vindo a se casar com Damien pouco depois, em 1999, numa cerimônia ministrada na sala de visitas do presídio. Ao longo de mais de dez anos, ela ficou ao lado de Damien, enquanto o marido lutava por sua liberdade.
  • Em outubro de 2011, Johnny Depp e Damien Echols foram vistos na Sunset Strip. Eles visitaram o salão de tatuagem preferido de Depp – Shamrock Social Club, onde Damien fez uma tatuagem enorme, idêntica à uma que Johnny Depp possui em um tamanho menor. A imagem é um dos 64 hexagramas, símbolos constítuidos por seis linhas Yīn ou Yáng que estruturam o antigo livro chinês I Ching.

Ficha Técnica

1167923_618498174862330_221716030_nTítulo: Vida Após a Morte
Título original: Life After Death
Autor(a): Damien Echols
Editora: Intrínseca
Tradução: Marcello Linno
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 416
Sinopse: Aos dezoito anos, Damien Echols foi apontado como líder de um grupo satanista e principal responsável pelo assassinato de três garotos de oito anos em West Memphis, no Arkansas. Após um julgamento marcado por falsos testemunhos, provas manipuladas e histeria pública, em 1994 seus amigos Jason Baldwin e Jessie Misskelley foram condenados à prisão perpétua, e Damien foi enviado ao corredor da morte, onde aguardaria sua execução. As irregularidades gritantes no desenrolar do processo, bem como a apatia dos advogados de defesa, chegaram ao conhecimento do público dois anos depois, quando a história conquistou repercussão mundial através de uma trilogia de documentários.

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

2 comentários

  1. Também não costumo ler biografias (quanto mais auto). É um tipo de literatura que não me agrada muito. Já tinha ouvido falar desse livro, mas nunca tinha parado para saber mais sobre ele. Ok, a obra pode até ter seus pontos altos, mas não é o meu tipo de livro…

    Brunna Carolinne – My Favorite Book – @MFBook
    myfavoritebook-mfb.blogspot.com.br

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    • Geralmente eu passo longe de biografias, rs. Mas de vez em quando gosto de enfrentar essas “coisas”. Ainda vou continuar com a antipatia pelo gênero por um bom tempo.

      Beijos Brunna 😀

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