Cruéis, Vis e Ordinários, de Al Gomes

Cruéis, Vis e Ordinários

 Depois, constatei que pode não haver tanta diferença entre o bem e o mal. O que há, muito frequentemente, são diferenças de oportunidade e situações. Todos podemos ser cruéis, vis e ordinários, basta sermos tocados nos nossos limites ou nas nossas ambições.
Al Gomes, Cruéis, Vis e Ordinários, pág. 244.

É sempre interessante quando temos a oportunidade de conhecer o trabalho de novos escritores. Quando ele é nacional e escreve sobre o seu gênero favorito, esse interesse aumenta mais ainda. O título é outro fator capaz de aumentar a curiosidade no leitor, já que ele une três adjetivos que descrevem características ditas imorais e inaceitáveis de um ser humano.

No seu livro de estreia, o carioca Al Gomes resolveu apostar no romance policial noir, fazendo uma crítica à sociedade dominada pelo dinheiro e pela fama. Ambientado no Rio de Janeiro, o autor descreve todo o ambiente glamouroso e festivo envolvendo as celebridades. No entanto, não é só de luxo que vivem essas pessoas. Esta é apenas a forma de mascarar um estado anárquico, governado exclusivamente de acordo com o interesse de alguns.

A narrativa tem como protagonista Marcelo Braga, um cineasta independente em ascensão, que recebe de Tide, um empresário cujo patrimônio vem de fonte misteriosa, a proposta de ter seu novo filme financiado. No entanto, o empresário impõe uma condição: a modelo-manequim Monique Rimel deverá ser a protagonista – papel antes reservado para sua mulher e famosa atriz, Clara, que atualmente sofre de depressão após perder a filha (Clarissa). Com a influência de Tide, o filme começa a rodar rapidamente.

Monique teve sua carreira iniciada a partir do seu envolvimento com homens muito poderosos. Com sua beleza e “carisma”, a modelo sempre conseguiu tudo que quis, até que, após um dia de gravação numa favela, toda a equipe sai para um happy hour. Com a intenção de tomarem mais um drink, Marcelo acompanha Monique até seu apartamento e acabam vivendo uma noite intensa e alucinada, regada a muito álcool, drogas e sexo. Momentos mais tarde, após recobrar os sentidos, Marcelo se sente angustiado e arrependido por trair Clara e acaba indo embora sorrateiramente, aproveitando que Monique dorme pesadamente. Logo em seguida, ele é informado de que a modelo foi assassinada e ele é o principal suspeito.

[…] Lá bebemos ainda mais e… cheiramos. Também transamos, o que, aliás, não é mais segredo para ninguém. Eu passei muito mal. Lembro-me somente disto e, depois, de acordar. Mas eu não a matei, disso eu tenho também certeza. (pág. 125)

Com uma escrita muito boa, o que é um dos pontos positivos do livro, o autor consegue descrever situações de extrema complexidade social e política, principalmente nos diálogos entre empresários e políticos influentes (governadores, senadores). São nesses momentos em que percebemos, mesmo que de forma irrisória, a maneira como essas pessoas veem as classes inferiores, ou ainda, as outras pessoas do seu mesmo patamar social, mas que não lhes interessam para determinado “fim”. O autor traz isso de forma crua, fazendo-nos questionar se tais fatos poderiam algum dia, existir.

Algumas coisas me desagradaram na obra, e prefiro associá-las ao fato do autor ser estreante. A primeira delas é o ritmo da narrativa, que oscila bastante. Por ser um suspense, esperava que isso acontecesse pouco. Outro ponto, é que ficaram algumas lacunas na história, mas não é aquele tipo de “ponta solta” que lhe faz refletir até chegar a uma conclusão, apenas fatos que acontecem durante a história que são esquecidos, embora pudessem ser mais aproveitados para um possível final. E falando em final, a proposta do livro pediria um mais elaborado e eletrizante.

Quanto a construção dos personagens, alguns são muito superficiais e pouco se conhece deles. Se o objetivo era criar personagens misteriosos, não funcionou. Até os personagens misteriosos possuem uma história. O personagem mais bem escrito é Monique, o que está relacionado à investigação de sua morte. A escolha dos nomes também confunde bastante: Clara, Clarissa, Citra, Cristina… Pode ser apenas um detalhe, mas eu me pegava sempre voltando para tentar entender sobre quem eu estava lendo.

Por fim, gostaria de dizer que, embora eu tenha achado o livro regular, ainda assim recomendo. Gostaria até de usar uma citação que, de certa forma, também descreve o livro.

Enfim, tudo se arranjara. Talvez o processo seguisse moroso na procura de um culpado conduzido com o desinteresse de uma justiça moribunda. Muita ação em meio a tão pouca reação, contrariando de forma categórica a terceira lei de Newton. (pág. 181)

O que acharam do livro? Já conheciam o autor? Comentem!

Ficha Técnica

Cruéis, Vis e OrdináriosTítulo: Cruéis, Vis e Ordinários
Autor(a): Al Gomes
Editora: Record
Edição: 2009 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2009
Páginas: 256
Sinopse: CRUÉIS, VIS E ORDINÁRIOS traz um Rio de Janeiro festivo e glamouroso encobrindo um estado anárquico, governado exclusivamente de acordo com o interesse de alguns. No meio do caos, está o cineasta independente Marcelo Braga, que recebe de Tide, um misterioso empresário, a proposta de ter seu filme financiado. Uma concessão terá que ser feita. O papel da protagonista, antes reservado para sua mulher e famosa atriz, será de Monique Rimel, uma bela modelo envolvida com homens que ocupam altos cargos de poder. Para um homem como Tide, os negócios não podem parar e o filme começa a rodar antes mesmo de Marcelo se dar conta das consequências e intenções dessa proposta inesperada. Após um tumultuado dia de gravação numa favela carioca, ele acompanha Monique em casa e os dois vivem uma noite intensa e alucinada. Ao voltar a si, angustiado e arrependido, ele aproveita o sono pesado que ela dormia para ir embora, numa frágil tentativa de fugir do que aconteceu. Tarde demais, no entanto. Não demora até que ele seja informado de que Monique foi assassinada e ele é o principal suspeito.

Onde comprar:
Estante Virtual | Cultura

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