| Conto | Surfista Solitário

Surfista Solitário

Ele acordou no domingo (como pedia a música), tomou seu café (como pedia a música), pegou sua prancha (como pedia a música), tomou a benção a sua mãe (como pedia a música), rezou com fé (como pedia a música) e foi para o mar (como pedia a música). Aquele intercâmbio na Indonésia estava sendo difícil para ele: sem amigos, sem dinheiro, longe de casa. Solitário. Sem ter muito o que fazer no domingo — que era o dia de sua merecida folga dos estudos —, seguiu os conselhos da música e foi surfar. Para quem não sabe, a Indonésia é o paraíso dos surfistas e, para quem estranhou a parte de pedir a benção da mãe, ele não fez nada mais do que suspirar e o fazer em pensamento. Em seu celular, a caminho da praia — que ficava a dois quarteirões de sua quitinete — tocava uma música, a música, sua música favorita e que ele fez questão de acionar o repeat para ouvir só ela enquanto se deslocava para seu destino.

– Surfista Solitário (Gabriel O Pensador e Jorge Ben Jor)

Essa fora a música que o inspirou a fazer intercâmbio justamente na Indonésia. E essa música também o inspirara a fazer aquilo que estava fazendo naquele domingo de manhã. Ele havia se tornado o surfista solitário. O mar estava agitado na medida certa para uma boa surfada; as ondas faziam a parede que os surfistas chamam de tubo — aquele mesmo em que os caras ficam lá dentro de uma forma incrível que só eles conseguem.

Chegou na praia, olhou para o mar e entrou no mar (como dizia a música). Entrou no mar, olhou para a onda e entrou na onda (como dizia a música). Entrou na onda e fez a onda até a areia (como dizia a música). O tubo foi demorado, durou quase cinco segundos. Tempo necessário para que ele pudesse pensar nas coisas boas da vida e agradecer a Deus pelas bênçãos que ele vinha recebendo. Assim que saiu da água, rezou com fé novamente, mas não ficou muito tempo na areia por que uma onda o chamava.

Surfista Solitário 02

Assim que ele foi para a água, chegou uma garota. A garota. Uma sereia com pernas de mulher (como descrevia a música). E ela era mais perfeita do que a onda mais perfeita (como descrevia a música). E ela o filmava o filmava nas esquerdas e direitas (como descrevia a música). Aonde quer que ele fosse com sua prancha, lá estava o olhar dela voltado para ele. E ele só percebeu isso quando saiu da água e os olhares dos dois se cruzaram. A sereia sorriu, arrumou seu biquíni azul que estava amarrado na lateral com um lacinho e saiu desfilando seu corpo deixando-o desnorteado com tanta beleza. Ela sabia que ele estava olhando. Olhou para trás. Piscou.

O solitário surfista não estava mais só…

Autor Convidado

Rodolfo Andrade é leitor, escritor, formando em Letras, viciado em músicas, de onde tira a maioria de suas inspirações. Twitter | Facebook

10 comments

  1. Que bela estreia!!! Amei seu conto!
    Estava quase achando que o destino do surfista seria ser solitário quando ele finalmente encontrou o amor.
    Sua escolha de palavras foi maravilhosa!!
    Eu já sou frequentadora assídua do blog, agora tenho mais um motivo!
    Beijos

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    • Olá, minha amiga Soraya! Muitíssimo obrigado! Fico extremamente feliz em saber o quanto você gostou do texto. E fico mais feliz ainda por saber que ganhei uma leitora e uma amiga *-*
      Beijos do Rudolf

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    • Olá, Michelly! Obrigado por ler. Fico muuuito feliz que tenha gostado e espero te ver por aqui no meu próximo texto também, viu? *-*
      Vou agora lá no seu blog! Beijoos

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