O Dom, de James Patterson e Ned Rust

O Dom

– Se tem uma coisa que preciso lhe ensinar, é nunca subestimar o poder do que você ou outras pessoas criam. Música, arte, filmes, escrita, tudo isso – ela aponta para o apartamento entupido de coisas – tem uma energia tremenda. Isso é a força da vida. Muito importante.
James Patterson e Ned Rust, O Dom, pág. 106

Desde que a editora Arqueiro passou a publicar os livros do James Patterson aqui no Brasil, fiquei curioso para ler algo dele. Principalmente porque ele foi lançado como um escritor de thrillers, que já estou cansado de dizer, é um dos meus (três) gêneros favoritos. No primeiro semestre desse ano, a editora Novo Conceito lançou uma mega campanha para divulgar uma série infanto-juvenil do mesmo autor, que eles começariam a publicar. Como não conhecia, nem sabia que ele também escrevia outros gêneros, fiquei mais curioso ainda, e eis que li o primeiro volume da série Bruxos e Bruxas – cuja resenha eu recomendo que leiam, antes ou depois dessa.

Witch & Wizard The Manga, Vol. 2Mesmo não curtindo o primeiro volume tanto quanto eu esperava, resolvi continuar a ler a série – e pretendo concluí-la. E eis-me aqui para falar um pouco sobre o segundo volume, O Dom. Depois de todos os acontecimentos de Bruxos e Bruxas, os irmãos Allgood, Wisty e Whit, estão separados e mais uma vez sob as garras do vilão, O Único que É o Único. Sim, é assim mesmo que ele é chamado, dá um pouco de vergonha alheia no início, mas aos poucos nos acostumamos. Wisty está para ser executada (de novo), mas numa reviravolta consegue escapar (de novo) e assim mais aventuras e fugas se iniciam (de novo).

Em O Dom, pouco é acrescentado em relação ao primeiro volume. O ritmo é o mesmo e o conflito não avança muito, o que temos são apenas novas aventuras, reviravoltas e muitas cenas de ação. Os personagens tampouco evoluem em sua essência, isso porque tudo acontece muito rápido e ao mesmo tempo. Entre os personagens, quem ganha destaque é o complexo Byron Swain, talvez o ponto mais positivo nos livros. Byron tem uma personalidade muito dividida, pois é filho de um dos líderes do novo governo, mas acaba se apaixonando por Wisty. Isso faz com que ora ele esteja de um lado, ora do outro, numa espécie de conflito interno perturbador e difícil de compreender em determinados momentos.

James Patterson

A mudança de colaborador na escrita também não apresenta mudanças significativas na narrativa. Ned Rust segue o mesmo ritmo (acelerado) de Gabrielle Charbonnet, que colaborou com Bruxos e Bruxas. Os dois volumes seguintes, por sua vez, trarão Jill Dembowski. Ned já colaborou com outra série de Patterson, Daniel X. Como todos já sabem, Patterson escreve a maioria dos seus livros em parceria, com exceção dos livros da série Alex Cross – seu detetive mais famoso –, que ele faz questão de levar adiante sozinho. Ainda assim, nas demais ele geralmente escreve um esboço de suas ideias e as repassa para sua equipe escrever. Isso permite que ele lance dezenas de livros por ano, prática que já o tornou um dos escritores mais bem pagos da atualidade.

Não vou revelar muito sobre a trama desse livro, para não soltar possíveis spoilers para quem ainda não leu o primeiro volume. Mas há outro ponto que gostaria de mencionar, as referências. Assim como no primeiro, Patterson faz várias referências às distopias clássicas, confiram nestas citações:

– Você falhou ao tentar capturar Wisteria Allgood, e falhar não é opção neste Admirável Mundo Novo. (pág. 28)

– Livros que serão queimados… – Suponho. A Nova Ordem está em processo de destruir quase todo livro conhecido na Superfície ocupada que foi escrito antes da tomada de poder. (pág. 30-1)

– Sabe aqueles telões que vemos nas ruas na parte deles da Superfície? Eles funcionam como câmeras também. Se você está assistindo a um desses programas de notícias, é bem capaz que ele esteja vendo você também. (pág. 50)

Na primeira, a referência à obra de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, está bem clara. Inclusive um dos locais onde se passa parte da trama é batizado com o nome dessa obra. A segunda citação remete à fogueira de livros de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, onde os livros também são proibidos pelo regime totalitário. E por fim, a terceira é uma nítida referência ao Big Brother e às teletelas de 1984, de George Orwell, onde o governo vigia a população enquanto elas assistem televisão, ou melhor, teletela. Além dessas, há várias obras proibidas pela Nova Ordem, que constam nos apêndices, com nomes modificados, mas facilmente identificáveis.

Em suma, não há muito que comentar sobre esse sem mencionar o volume anterior. O desfecho é semelhante e também cheio de suspense, que deixa até aqueles não simpatizantes querendo saber o que acontece depois. Se você leu o primeiro e gostou, vai adorar esse; se você leu o primeiro e não gostou, provavelmente não gostará desse; e se você ainda não leu nem o primeiro nem esse, é preciso ler para tirar suas próprias conclusões. Afinal, gosto é gosto, e cada um tem o seu. Se leu ou quer ler, comente e deixe sua opinião aqui no post.

Curiosidades:

  • A série foi adaptada para mangá, pela artista Svetlana Chmakova, originando três volumes. Além do mangá, há também uma Graphic Novel em dois volumes: Battle for Shadowland (2010) e Operation Zero (2011). Sem falar que os direitos da franquia foram adquiridos para adaptação cinematográfica, ainda sem previsão de lançamento.
  • Em breve sairá uma matéria minha sobre a série na nossa coluna sobre literatura na Revista Neo Tokyo.
  • Em entrevista, James Patterson explicou seu processo de produção em parceria como sendo: “Normalmente, escrevo um esboço detalhado, algo em torno de 50 páginas, da ideia que tenho em mente e entrego a um coautor para desenvolver a sinopse. A cada duas semanas, dou uma olhada no material que ele está escrevendo. Quando isso acontece, posso dizer: ‘Puxa, que legal! Vamos em frente’ ou, então, ‘Ei, peraí, precisamos conversar’. Às vezes, um livro pode passar por 8 ou 9 rascunhos até que eu fique inteiramente satisfeito com ele”.
  • O autor já apareceu na série de TV Os Simpsons e na série policial Castle, como ele mesmo.

Sequência de publicação/Cronologia da série:

  1. Bruxos e Bruxas (Witch & Wizard, 2009)
  2. O Dom (The Gift, 2010)
  3. The Fire (2011)
  4. The Kiss (2013)
  5. The Lost (Março 2014)

Postagens relacionadas:

Ficha Técnica

O DomTítulo: O Dom
Título original: The Gift
Série: Bruxos e Bruxas
Autor(a): James Patterson e Ned Rust
Editora: Novo Conceito
Tradução: Ana Paula Corradini
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2010
Páginas: 288
Sinopse: Os irmãos Allgood nunca desistem de lutar contra os poderes autoritários e desumanos d’O Único Que É O Único, mas, agora, eles estão sem Margô — a jovem e atrevida revolucionária; sem Célia — o grande amor de Whit; e sem seus pais — que provavelmente estão mortos… Então, em uma tentativa de esquecer suas tristes lembranças e, ao mesmo tempo, continuar seu trabalho revolucionário, os irmãos vão parar em um concerto de rock organizado pela Resistência onde os caminhos de Wisty e de um jovem roqueiro vão se cruzar. Afinal, Wisty poderá encontrar algo que lhe ofereça alguma alegria em meio a tanta aflição, quem sabe o seu verdadeiro amor… Mas, quando se trata destes irmãos, nada costuma ser muito simples e tudo pode sofrer uma reviravolta grave, do tipo que pode comprometer suas vidas. Enquanto passam por perdas e ganhos, O Único Que É O Único continua fazendo uso de todos os seus poderes, inclusive do poder do gelo e da neve, para conquistar o dom de Wisty… Ou para, finalmente, matá-la.

Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura | Estante Virtual

Anúncios

2 comentários

  1. Sabe, estou ansiosa pra ler esta continuação. Muitos falavam que o primeiro livro não era lá grande coisa, mais eu adorei. A história é cheia de aventuras e fantasia, do jeito que mais gosto. Os personagens podem ser novos e sem muita prática, mas prometem. E espero que nesse eles venham com tudo e façam por merecer meu entusiasmo em querer continuar a ler. Beijos.

    Curtir

    • Oi Elizabeth,
      Que legal que você gostou do primeiro. Eu vi muita gente que não curtiu, então é bom ver alguém com opinião diferente.
      Espero que goste tanto do segundo quanto do primeiro. Para mim não funcionou muito bem, mas vou tentar concluir a série.
      Beijos

      Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s