A Casa dos Amores Impossíveis, de Cristina López Barrio

A Casa dos Amores Impossiveis

– Ao amanhecer dos últimos dias de outubro, ninguém deve se aventurar na praça até que toquem os sinos. As almas dos cavaleiros enterrados na igreja deixam suas sepulturas e atravessam os portões, amalgamados em névoa e vento. As almas estão condenadas a lutar entre si, com suas armaduras e espadas sobrenaturais até que purguem todas as suas culpas. Mas depois do toque dos sinos, retornam às sepulturas e o povoado reza para que descansem em paz. O senhor está me entendendo? Enquanto os sinos não tocarem, a praça pertence aos cavaleiros mortos. Isso foi bem explicado aos caçadores. Foram avisados de que, se não respeitassem nossas tradições, teriam que se haver com as consequências.
– Mas e você, menina? Você seguiu praça adentro, em meio à neblina…
– Neste povoado, prefiro os mortos aos vivos.
Cristina López Barrio, A Casa dos Amores Impossíveis, pág. 11

Num longínquo povoado castelhano, habitava uma família de mulheres que herdavam no sangue e no sobrenome Laguna uma terrível maldição, seriam condenadas a sofrer por amor e engendrar no ventre outras mulheres que perpetuariam essa mísera sina. Esta é a premissa do romance A Casa dos Amores Impossíveis, de Cristina López Barrio, que prenuncia uma história marcada pela tragédia e pelo maravilhoso, nos moldes das grandes sagas familiares de escritores consagrados, como Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Federico García Lorca.

Cristina López Barrio

A autora madrilena Cristina López Barrio faz questão de homenagear seus autores preferidos nesse romance. Já no prefácio, Cristina López introduz sua história com dois trechos de poemas de Antonio Machado e Luis Cernuda, o primeiro, exaltando a paisagem de Castilha (Poema CXXC Campos de Castilha), o segundo, afirmando a tragédia do amor (Poema XII Donde habite el olvido). Além desses, A Casa dos Amores Impossíveis dialoga com obras clássicas do realismo mágico da América Latina, como Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez) e A Casa dos Espíritos (Isabel Allende). Essas duas últimas foram as obras que mais inspiraram o romance de Cristina López, tanto pela estrutura da narrativa, uma vez que as mesmas narram a saga de uma família vítima de uma grande maldição ou de acontecimentos sobrenaturais, quanto pelos temas abordados: amor, ódio, vingança, guerra e morte, que são temas fundamentais da existência humana.

Além disso, até o nome de alguns personagens coincidem em tais livros (como Clara e Esteban). Outra obra que possivelmente serviu como referência ao romance de Cristina López foi a peça teatral A Casa de Bernarda Alba, do andaluz Federico García Lorca, que narra a história de uma família composta apenas por mulheres que vivem enclausuradas numa casa durante anos, na época da Guerra Civil Espanhola, num eterno luto pelo falecimento de seu pai, enfrentando suas dores e seus dramas familiares sob as ordens de uma mãe controladora e inflexível. A autora também revela que recebeu influência de Umberto Eco (O Nome da Rosa), cuja obra suscita uma discussão necessária do essencial e do particular, do espiritual e da realidade material, dos conceitos e dos nomes, que geram grandes conflitos entre as relações humanas.

Com tais referências, Cristina López Barrio parece ser uma autora bastante promissora, pois bebeu na fonte de grandes mestres da literatura moderna e absorveu algumas importantes características estéticas e temáticas que favorecem o desenvolvimento de um bom romance. Quanto ao enredo da obra, A Casa dos Amores Impossíveis apresenta uma história mágica e fascinante, narrando a trajetória de cada nova geração de mulheres abandonadas pela sorte e amaldiçoadas pelo destino.

– Permita-me, senhor, que eu lhe dê um conselho. Não me considere intrometida e sim alguém que só deseja preveni-lo do perigo. Parece que o senhor foi visto diversas vezes na companhia da filha da bruxa. O senhor sabe a quem me refiro, à garota dos olhos de trigo. […] Saiba que Clara carrega uma maldição, por mais bela que seja. Ela é muito amaldiçoada, como todas as mulheres de sua família, posso jurar. […] O ventre de uma Laguna jamais gerou um varão e nenhuma delas nunca se casou. Estão condenadas a viver em desonra e a parir apenas meninas, que permanecerão solteiras e terão a mesma sorte que as outras mulheres da família. (pág. 18)

Na Espanha dos séculos XIX e XX, num povoado remoto, vivia Clara Laguna, uma jovem de beleza extraordinária, com olhos da cor de ouro, filha de uma feiticeira de um olho só, que lia o futuro das pessoas em ossos de gato. Apesar de saber da maldição que pesa sobre sua estirpe, e após resistir às conquistas de vários cavalheiros, Clara acaba se apaixonando perdidamente por um fazendeiro e caçador andaluz. Este a engravida e a abandona em seguida, deixando-lhe apenas um casarão, no qual se amaram secretamente, e alguma quantia em dinheiro. Movida pela vingança, Clara transforma o casarão vermelho num bordel e torna-se a prostituta mais requisitada do vilarejo.

Sua filha, Manuela Laguna, outra descendente daquela linhagem maldita, não tão bela quanto a mãe, nasceu naquele prostíbulo e cresceu sob os cuidados da cozinheira do casarão, Bernarda, uma mulher barbuda que possuía um distúrbio mental e não conseguia comunicar-se direito com as pessoas. Quando adulta, Manuela decidiu que iria limpar o nome de sua família e quebrar a maldição, no entanto, ela também cumpriu o destino das Laguna e pariu mais uma menina sem pai, Olvido. Esta era ainda mais bela do que a avó Clara, e foi criada com uma rigidez irracional pela mãe, pois Manuela tentava destruir ou esconder a beleza da filha a qualquer custo.

Logo começou a Guerra Civil Espanhola, e Olvido, interessada em aprender a ler, passou a tomar classes particulares com Esteban, filho do professor morto na guerra. Os dois cresceram juntos e o amor surgiu entre eles, porém, a maldição cumpriu-se novamente e uma nova Laguna destinada a sofrer nasceu, Margarita. Foram gerações de mulheres infelizes condenadas à mesma sorte, contudo, Olvido estava disposta a não permitir que acontecesse o mesmo com sua filha e a enviou para estudar longe dos julgamentos maldosos das beatas do povoado. Anos depois, Margarita retorna grávida, dessa vez, entretanto, uma Laguna dá à luz um menino. Seria possível que esse menino, chamado Santiago, quebrasse a maldição da família Laguna? Deixo a resposta para os leitores descobrirem durante a leitura do romance.

Capas pelo mundo: versões portuguesa, inglesa, italiana e polonesa.
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Com uma escrita poética e bem trabalhada, Cristina López dá esse presente aos fãs do real maravilhoso e aos leitores em geral, criando belas imagens por meio de metáforas eficazes, que provocam reações em todos os sentidos. Por exemplo, em determinada passagem, podemos sentir o cheiro das azinheiras trazido pelo vento, ou o fedor da cozinha impregnada pelo sangue e pelas tripas de galinhas mortas. Ademais, com personagens fortes, complexas, apaixonadas, imperfeitas e, sobretudo, humanas, Cristina López Barrio construiu um romance memorável, que já conquistou e vem conquistando um grande público em todo o mundo.

Dessa forma, A Casa dos Amores Impossíveis, romance de estreia da autora para o público adulto, já se tornou um sucesso absoluto de vendas na Espanha e teve sua publicação em mais de dez países. Sendo, portanto, um romance que, ouso dizer, já nasceu com um ar de clássico, pois além das qualidades estilísticas que apresenta, tem como principal tema um sentimento basilar da espécie humana, que pode trazer as maiores felicidades e bênçãos à vida de uma pessoa e que pode ser também sua mais cruel maldição, o amor.

Curiosidades:

  • Confiram este vídeo promocional de A Casa dos Amores Impossíveis, em espanhol: AQUI
  • Para quem quiser ver a autora falando um pouco mais sobre seu romance e a importância de contar histórias, pode conferir esta curta entrevista de Cristina López Barrio para o programa lusitano Câmara Clara: AQUI
  • Assista também à seguinte entrefala de Cristina López concedida ao canal SIC Notícias, de Portugal, na qual a autora madrilenha conversa um pouco sobre sua influência do realismo mágico, principalmente do autor Gabriel García Márquez, afirmando que seu livro A Casa dos Amores Impossíveis é uma espécie de homenagem a ele, demonstrando sua admiração pelo autor colombiano: AQUI

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Ficha Técnica

A Casa dos Amores ImpossiveisTítulo: A casa dos amores impossíveis
Título original: La casa de los amores imposibles
Autor(a): Cristina López Barrio
Editora: Prumo
Tradução: Fal Azevedo
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2010
Páginas: 312
Sinopse: Isabel Allende encontra Gabriel García Márquez no aclamado romance da espanhola Cristina López Barrio. Best-seller internacional, traduzido em mais de uma dezena de idiomas, A casa dos amores impossíveis é ambientado na Espanha, às vésperas do século XX, e narra a saga de uma família que carrega uma estranha maldição. Geração após geração, as Laguna estão fadadas a viverem trágicas histórias de amor, parindo apenas mulheres incapazes de escapar ao fado cruel de suas mães. Introduzindo um elenco de personagens memoráveis e excêntricos – de uma cozinheira barbada e muda a um padre idealista, cheio de boas (e milagrosas) intenções –, encabeçado pelas inesquecíveis mulheres da família Laguna, A casa dos amores impossíveis é um banquete para os sentidos.

Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura | Estante Virtual

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4 comentários

    • Oi, Soraya! 🙂
      Na minha opinião, você fez uma ótima escolha, pois esse romance apresenta uma história bela e envolvente, além de ser muito rica em detalhes. Há muitas nuances na história que só podem ser descobertas durante a leitura da obra. Você mesma vai poder confirmar após ler o livro. Não deixe de vir aqui nos contar suas impressões!

      Boa leitura!
      Beijos

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  1. Que história linda e triste ao mesmo tempo. Que sina dessas mulheres. Quanta dor e sofrimentos guardados. Espero que esta sina acabe e anos de felicidades venham a acontecer. Fiquei curiosa com esta linda obra. Beijos.

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    • Olá, Elizabeth! 😀
      Acredito que a beleza da obra deve-se justamente à grande tragicidade que rege o destino das personagens, pois é isso que as torna fortes e, acima de tudo, humanas, permitindo, dessa maneira, uma grande identificação do leitor com as protagonistas do romance. Tudo o que posso dizer sobre o desfecho é que ele está à altura de toda a história, comovente e mágico.
      Esse é um livro que tenho prazer em recomendar.
      Beijos!

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