A Cuidadosa Alice, de Lewis Carroll

capa

ERA UMA VEZ, uma garotinha chamada Alice: e ela teve um sonho muito curioso. Você gostaria de saber o que ela sonhou?
Lewis Carroll, A Cuidadosa Alice, pág. 12

Obras adaptadas, em geral, são vistas com desdém por alguns leitores. Talvez por certa maturidade de leitura, que lhes permite ler com entendimento o texto original. No entanto, as adaptações não surgem aleatoriamente, mas por um propósito próprio, na maioria das vezes, para levar uma história de um público a outro, seja por diferença de gênero (literário), de idioma ou faixa etária. E quando a adaptação é feita pelo mesmo autor do original? É dado mais crédito? Assim, A Cuidadosa Alice, de Lewis Carroll, é, segundo ele próprio, uma adaptação do seu clássico Alice no País das Maravilhas para crianças “de nenhum a cinco anos”.

Lewis Carroll

Você deve estar se perguntando, que livro é esse afinal? Então, Alice no País das Maravilhas já é vista, ainda que erroneamente, como uma obra destinada ao público infantil. Isso porque ela surgiu como uma história que Charles Lutwidge Dodgson – vulgo Lewis Carroll – contou para três garotinhas, entre elas uma chamada Alice Liddell. Mesmo que tenha surgido dessa forma, a história era contada para pessoas específicas em uma época específica. Com o tempo, foram feitos diversos estudos, muitos deles psicanalíticos, que conferiram à obra um ar menos ingênuo e inocente.

Alice protagoniza uma das obras mais marcantes do estilo nonsense. Isso porque a narrativa é uma sobreposição de fatos sem muita linearidade de sentido. Talvez isso tenha levado à suposição da existência de tantas alegorias, resultando em tantos estudos. O fato é que é praticamente impossível ler Alice com o encantamento comum a outras obras como O Mágico de Oz ou O Pequeno Príncipe. Como o estudioso Martin Gardner relata na introdução de uma das edições de Alice comentada por ele:

As crianças de hoje sentem-se aturdidas e às vezes apavoradas pela atmosfera de pesadelo dos sonhos de Alice. É apenas porque adultos […] continuam a apreciá-los que os livros de Alice têm sua imortalidade assegurada.
Martin Gardner, Introdução à 1ª Edição (The Annotated Alice) in: Lewis Carroll, Alice – Edição Comentada, Ed. Zahar, pág. 07.

Para Carroll, à época do lançamento de A Cuidadosa Alice, muitas crianças – entre 5 e 35 anos, e mais – já haviam lido as aventuras de sua personagem. Sua ambição era, portanto, chegar a uma faixa etária menor ainda. Nesse contexto, é essa a finalidade desse livro, até então inédito na nossa língua. Mas e então, se eu já li a versão original, porque ler esta que é para crianças? Há vários motivos.

The Nursery AlicePrimeiro, porque para que ela chegue ao público especificado, é preciso que alguém que “saiba” ler o faça. Segundo, porque é no mínimo curioso ver como Carroll gostaria que sua história fosse contada para os pequeninos, isso poderia, de certo modo, dispensar outras adaptações. Terceiro, para decidirmos se a história (ou essa adaptação) deve de fato ser lida para crianças com menos de cinco anos. Quarto, porque o livro traz vinte das ilustrações originais de John Tenniel, só que coloridas e ampliadas. E em quinto, mas não menos importante, pelo simples prazer de ter uma obra rara de Carroll na coleção.

Quando questiono a adequação da obra ao público, levo em consideração o tom subversivo que há em Alice, assim como a ironia e o humor presentes na narrativa de Carroll, que dificilmente teria efeito sobre a criança, mesmo que seja narrado pela mãe. Um adulto, provavelmente, vai rir das piadas, mas uma criança nessa faixa-etária talvez nem chegue a compreendê-las, mesmo com explicação.

O lançamento de A Cuidadosa Alice, previsto para o início de 2014 pela editora Chiado, é um esforço do paraense Maurício Coelho de trazer uma obra tão rara para o nosso idioma. A tradução de Maurício se configura como um grande êxito não só para os amantes da obra de Carroll, mas também como uma oportunidade de se ter acesso em nossa língua a mais uma bela versão da história. Como eu disse, embora seja destinado para um público infantil, é o adulto que de fato vai lê-lo, seja para seus filhos ou para si próprio.

Maurício Coelho, na exposição permanente Espace Dalí em Paris, França.
Maurício Coelho, na exposição permanente Espace Dalí em Paris, França.

Maurício é, além de um tradutor em estreia, um amante da obra de Carroll. O lançamento do livro, resenhado aqui em primeira mão, é acima de tudo um esforço independente e louvável de tornar a obra ainda mais acessível. Em relação à tradução, esta se mantém fiel à versão em inglês (a qual também pude ter acesso para comparar), mas há algumas mudanças, não tão significativas, em relação às traduções já conhecidas do Alice “original”, como a da Maria Luiza X. de A. Borges (editora Zahar). Há também poucos erros de revisão, que podem ser facilmente corrigidos em uma segunda edição.

Por fim, vale a pena conferir. Tanto pela importância da obra do autor, mas também como uma sugestão de leitura divertida, seja para crianças ou para você mesmo. O lançamento deve acontecer até fevereiro de 2014, simultaneamente aqui no Brasil e em Portugal, mas o livro já pode ser adicionado à sua lista de leituras para o ano novo, no Skoob.

Principais Obras do Autor:

  1. Aventuras Subterrâneas de Alice (Alice’s Adventures Under Ground, história original escrita a mão e ilustrada por Carroll como presente para Alice Liddell, 1864)
  2. Alice no País das Maravilhas (Alice’s Adventures in Wonderland, 1865)
  3. Alice Através do Espelho e o Que Ela Encontrou por Lá (Through the Looking-Glass, and What Alice Found There, 1871)
  4. Sílvia e Bruno (Sylvie and Bruno, 1889)
  5. A Cuidadosa Alice (The Nursery “Alice”, 1890)
  6. Conclusão de Sílvia e Bruno (Sylvie and Bruno Concluded, 1893)

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Ficha Técnica

capaTítulo: A Cuidadosa Alice
Título original: The Nursery “Alice”
Autor(a): Lewis Carroll
Editora: Chiado
Tradução: Maurício Coelho
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1890
Páginas: 50
Sinopse: “ERA UMA VEZ, uma garotinha chamada Alice: e ela teve um sonho muito curioso. Você gostaria de saber o que ela sonhou?” The Nursery “Alice” é uma adaptação de Alice que o próprio Lewis Carroll escreveu para crianças “de nenhum a cinco anos”, como ele mesmo descreve. Publicado pela primeira vez em 1890 com ilustrações coloridas de Sir John Tenniel.

Onde comprar:
Mercado Livre (Pré-venda)

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16 comentários

  1. Apesar de nunca ter “lido” Alice, conheço a história de cor, tanto pelas animações da Disney, o filme recente com o Depp, e histórias que ouvia na minha infância. Achei interessante a proposta da obra, e saber que o autor teve cuidado em recriar o mundo de Alice para um certo público bem mai jovem ” de nenhum a cinco anos” – inclusive, adorei essa frase, rs.
    Enfim, fiquei curioso quanto ao trabalho gráfico 😀

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    • Oi Joshua,
      Eu também conhecia a história de Alice mais pelas adaptações do que pelo próprio Carroll. Então foi bom poder ter acesso a essa versão. Confesso que também estou curioso pelo trabalho gráfico, já que li a tradução ainda no manuscrito digital.
      Em breve teremos outras resenhas, da versão original (Under Ground) e das mais conhecidas (País das Maravilhas e Através do Espelho).
      A frase “de nenhum a cinco anos” foi a definição que o próprio Carroll deu ao livro, hahaha…
      Abraços

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    • Oi Joshua,

      Vale à pena ler o livro ‘original’ de Lewis Carroll também.
      E também vale comparar a obra original com essa versão adaptada.
      Como por exemplo, o início da história adaptada que começa com “Era uma vez…”, o ‘original’ não tem isso. E também a interação que o Carroll faz com as imagens do livro (que não existia no ‘original’).
      Como o Jr., falou a frase dele é mesmo, “from nought to five”. Resolvi traduzir “de nenhum a cinco anos”, por achar que assim fica mais engraçado. Humor apresentado com bastante frequência nas obras de Carroll.

      Abraços.

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  2. Sempre achei a história de Alice meio macabra e fantasiosa demais, mas nem por isso deixei de gostar da maneira de como o escritor descrevia o cenário, o mundo de fantasia de Alice. É incrível e ao mesmo bizarro. Mais muito criativo. Já este livro que Maurício acabou traduzindo, desconhecia e estou agradavelmente surpresa por esta notícia. Por consideração a geniosidade deste autor e por ter sido um grande escritor, vou tentar ler este e ver se gosto. Beijos.

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    • Oi Elizabeth,
      Eu também penso um pouco assim sobre Alice, acho meio macabra, mas ao mesmo tempo eu gosto muito desse tipo de nonsense.
      Eu estou louco pra ver a edição final do livro que o Maurício traduziu.
      Tente ler sim.
      Beijão!

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  3. Particularmente, nunca li nada de Alice mas, conheço a história de cor e salteado, pelas histórias que minha mãe contava quando criança, mais tarde na escola e finalmente pelas animações da Disney. Achei interessante a proposta do autor e recriar a obra, para um público bem mais jovem ”de zero a cinco anos”. No entanto, fiquei bastante curioso quanto ao trabalho gráfico pois adoro ver imagens criadas para este público.

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  4. Nossa amo a história de Alice e suas interpretações tanto em resenhas, que alguns acham a história bem mais profundas quanto em adaptações como filmes e séries. Alice é uma história que dá um material muito bom a ser explorado, um universo onde tudo é possível. Esse novo livro, foi uma proposta interessante para crianças entenderem essa magnifica história e depois de grandes podem procurar a original e se fascinarem mais ainda.

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  5. Eu vi o autor na Feira do livro que aconteceu aqui em Belém do Pará, infelizmente não pude comprar o livro, mas fiquei impressionado com a qualidade do trabalho feito. Super indico para os fãs da obra e de livros em geral. Trabalho incrível.

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  6. Eu amo a história de Alice e procuro ler e assistir tudo relacionado a ea grande obra…Pelo que pude perceber é um livro adaptado pra criança, mas que todos o adultos quererão ler e ter. Gostei bastante de sua resenha.Parabéns.Com certeza quero esse livro. Parabéns a Maurício Coelho pelo trabalho.
    bjs

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