Paralelos, de Leonardo Alkmim

Paralelos

A inteligência pode ser medida pela quantidade de incertezas que alguém é capaz de suportar.
Leonardo Alkmim, Paralelos, pág. 82.

Sabem aqueles livros que mexem tanto com a gente a ponto de nos deixar inquietos? Ou até mesmo sem saber ao certo o que dizer sobre eles? Ou ainda aqueles que te dão uma ressaca literária das boas? Então, Paralelos, de Leonardo Alkmim, talvez seja capaz de fazer isso com você. E foi exatamente isso que aconteceu comigo. Até então, eu nunca tinha ouvido falar a respeito do autor, não é de se estranhar que seja porque essa é sua estreia como romancista. Anteriormente, Alkmim trabalhou como ator e dramaturgo, tendo vários textos publicados e encenados, inclusive na televisão e no cinema.

A princípio, Paralelos tem vários chamativos, entre eles: a capa, que nos remete a um filme ou seriado de ficção-científica; a sinopse, que logo de cara afirma que a morte não existe; e atrelado a isso, o fato de ser um livro de um escritor brasileiro. Todos esses fatores, em maior ou menor grau, me impeliram a uma leitura repleta de expectativas, dada a ousadia e audácia do autor para a ideia proposta. Depois de ter vencido, rapidamente, as quase 500 páginas do livro, posso afirmar que não me decepcionei com nada, ou quase nada. Mas antes de explicar, vamos à trama.

Fonte da imagem: shutterstock
Fonte da imagem: shutterstock

Resumidamente, a trama gira em torno de um acidente com um ônibus escolar que transportava um grupo de adolescentes. Entre os passageiros estavam os gêmeos Alexandre e Vítor, o primeiro morre e o segundo milagrosamente sobrevive. Ao contrário do que se poderia imaginar, boa parte da trama é narrada por Alexandre, o que morreu. O fato é que no universo criado por Alkmim a morte não é o fim. Dessa forma, Alexandre se vê numa dimensão diferente, regida por normas e poderes elementares. Ele simplesmente deixou de ser matéria e passou a ser antimatéria. E aqui entramos nos elementos que compõe a narrativa.

Após sua morte, Alexandre descobre que houve um erro no mundo paralelo, e que ele morreu por engano, já que era previsto que Vítor morresse no acidente e não ele. Isso gera um grande conflito entre as forças do mundo paralelo, pois este equívoco pode minar todo o equilíbrio do universo e até mesmo os princípios da existência. Assim começa uma aventura protagonizada pelos irmãos e uma legião de amigos em planos diferentes, para tentar restaurar o equilíbrio do cosmos.

Eu tinha perdido tudo, tudo, pra sempre, entende? Não sei se alguém que você gosta já morreu; mas se alguém morre você perde esse alguém pra sempre. Agora se é você que morre… Cara, você perde todos pra sempre! (pág. 126)

Alkmim escreveu um romance de ficção-científica, sem ao menos ter afinidade com o gênero. Uma atitude arriscada? Talvez, mas não equivocada. Afinal ele quis falar sobre ciência e espiritualidade, uma dicotomia polêmica que precisou de centenas de páginas e seis anos de pesquisa para ser amarrada, e bem amarrada, como uma obra ficcional. Segundo o autor, seu impulso maior para a finalização desse livro foi uma experiência de quase morte em que ele se viu fora do espaço-tempo. Talvez você não acredite nesse tipo de coisa, mas Alkmim mesmo não tendo afinidade com o campo da sci-fi, não está alheio a ele. Afinal, foi numa experiência muito parecida que o grande mestre Philip K. Dick concebeu uma de suas melhores obras, VALIS (Ed. Aleph). Ainda que a obra de Philip enverede mais para o gnosticismo e a de Alkmim para o idealismo monista quântico. Não obstante, recomendo que Alkmim confira esta obra em especial, mesmo que a título de curiosidade.

Você é um dos que acreditava em anjos da guarda quando criança? Pois bem, eles são reais em Paralelos, inclusive é a denominação que eles recebem na trama que dá título ao livro. Assim como a ciência dita que toda partícula de matéria tem uma correspondente de antimatéria, todo – ou quase todo – ser humano possui um anjo da guarda, ou paralelo. Consequente e hierarquicamente, essa outra dimensão não é habitada apenas pelos paralelos, mas por outras castas inspiradas no imaginário mitológico de algumas religiões, como Deus, por exemplo.

Leonardo Alkmim
Leonardo Alkmim

E eis aqui o primeiro ponto positivo da obra. O autor não se atém aos conceitos religiosos, mas utiliza seus elementos ideológicos para construir uma história eletrizante. Em outras palavras, ele dissocia espiritualidade de mitologia. E embora trate de temas teológicos e filosóficos, o autor não é prosélito em nenhum momento, embora possa ruir certas ideias incrustadas na mente de algumas pessoas por conta de determinada crença.

E não, Paralelos não é um livro religioso, embora trate de temas afins do espiritismo, cristianismo, taoismo, cientificismo e outros “ismos” no que se refere a ideologias e crenças. Vez por outra, o romance flerta ainda com o thriller, dada sua narrativa ágil e eletrizante, com capítulos curtos e alternantes entre primeira e terceira pessoa. Além disso, o autor conclui os capítulos com um gancho de suspense e mistério que nos impulsiona a ler o capítulo seguinte imediatamente, algo que agrada à maioria dos leitores.

Embora não seja um conhecedor dos grandes autores da ficção-científica enquanto gênero literário, o autor se embasou em obras de grandes nomes da ciência e do conhecimento. Entre eles estão Carl Sagan, Stephen Hawking, Albert Einstein, Immanuel Kant, Amit Goswami e até mesmo o astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser, entre outros. As referências são muitas, mas uma das principais bases da obra de Alkmim são as teorias da física quântica, utilizadas aqui de forma bem acessível, até mesmo para leigos.

Eu poderia escrever horas sobre todas as nuances da obra de Alkmim, mas quero me ater a algumas coisas em específico. Uma delas é a habilidade que o autor tem de mesclar trechos da ficção-científica com o drama e com um teor de “romance policial”, que envolve a investigação e cobertura da imprensa sobre o acidente. E aqui devo apontar o único ponto negativo também. A parte central – me referindo a número de páginas – do livro pode desagradar a algumas pessoas que estavam empolgadas com o ritmo acelerado do início. Isso porque Alkmim cai no erro, necessário, de ter que explicar muita coisa sobre o universo da obra. Isso gera um momento de muito didatismo, que mais parece uma aula interminável. Mas, vencido isso, a trama volta a correr aceleradamente.

Os personagens são muito bem construídos e organizados. Como destaque, devo mencionar: Quenom, um paralelo guardador, que possui uma história paralela (lá vem o trocadilho) à trama principal e que dá uma carga de muita introspecção ao romance, por conta de seus dramas internos e, por vezes, ainda humanos; Ihmar, um paralelo funcional, que ajuda Alexandre a se encontrar em sua nova “realidade”, e que embora não tenha sexo, característica dos paralelos/anjos, é vista por Alexandre como uma figura feminina; e por fim, Ana Beatriz, uma repórter persistente e ambiciosa, que vê no acidente a chance de escrever a matéria que irá alavancar sua carreira.

E para não me estender mais, eu poderia resumir Paralelos em uma única frase: muito inteligente e muito bem construído. Se você gosta de livros que te fazem submergir num oceano de reflexões, questionamentos e ideias novas, este é um prato cheio. Se você é fã de ficção-científica, este continua sendo um prato cheio. Mas se você for apenas um leitor muito curioso, eu devo ser redundante e reiterar que este ainda é um prato cheio. Recomendo!

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Ficha Técnica

ParalelosTítulo: Paralelos
Autor(a): Leonardo Alkmim
Editora: Geração Editorial
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 432
Baixe um Trecho: AQUI
Sinopse: Em um terrível acidente rodoviário, Alexandre morre, mas seu irmão gêmeo Vítor, surpreendentemente, sobrevive. No entanto, ao despertar numa dimensão paralela, autossuficiente e resguardada por instâncias elementares, como o Horizonte de Energia, o Conselho, Deus e os anjos, Alexandre descobre que deveria ter sido salvo e Vítor morrido, equívoco que coloca em risco rodo o funcionamento do cosmos. Embora em dimensões diferentes, os gêmeos precisarão lutar para restaurar o equilíbrio do Universo. Uma aventura fantástica, surpreendente e rica em seus detalhes mais sutis, que arrebata o leitor com todas as suas surpresas e revelações a cada capítulo, além de conquistá-lo com seus personagens ora cativantes, ora assustadores, porém sempre muito interessantes e bem construídos.

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

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4 comentários

    • Oi Beatriz,
      O livro é recente, foi lançado agora no segundo semestre já.
      Leia sim, vale a pena, e depois me conta o que achou, viu?
      Beijão

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  1. Cara, que legal.
    Nunca tinha ouvido falar no autor e muito menos na sua obra.
    Fiquei no mínimo interessado em ler essa obra. Até porque são poucos os livros que me prendem até o fim.

    Acredito que irei gostar por causa da temática.

    Já estava pensando no PKD quando estava lendo e vi que Leonardo Alkmim também passou por uma experiência parecida com a dele. Acho essas coisas no mínimo interessante e fico pensando se é real ou apenas ilusão da mente humana.

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    • Oi Maurício,
      A obra é recente, mas é uma boa dica, principalmente pra você que curte ficção especulativa.

      Em relação à semelhança com PKD, ela se restringe mesmo apenas à experiência, não às obras em si. Mas achei que valia fazer o gancho, até mesmo como dica de consulta para o Leonardo.

      Abração

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