Sucursal do Inferno, de Izaías Almada

Sucursal do Inferno

O espírito da posse de grandes latifúndios, dos senhores de terras, do coronelismo, ainda é o que predomina no Brasil de hoje e, apesar de todos os avanços econômicos, da industrialização e de inúmeros progressos sociais em quinhentos anos, insiste em manter a senzala isolada da Casa Grande.
Izaías Almada, Sucursal do Inferno, pág. 153

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista, mas só soube da sua existência após a leitura de Sucursal do Inferno. Mas, antes de falar do livro, gostaria de dizer que fiquei muito feliz por ele ter seu trabalho reconhecido em todas as áreas em que trabalhou, através dos vários prêmios recebidos, embora eu não o tenha conhecido por causa de nenhuma delas. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Seu primeiro livro, Metade Arrancada de Mim, recebeu o Prêmio Libertação Literária, em 1989, da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Sucursal do Inferno, último livro publicado do autor, conta a trajetória da jornalista Manina Berruel durante uma investigação das aplicações financeiras de uma seita religiosa ascendente no Brasil, os Tabernaculares. Mas as coisas começam a sair do controle quando algumas informações do passado do Líder desta seita vêm à tona, o que acaba envolvendo algumas pessoas inocentes e fatos que historicamente deveriam estar esquecidos.

Quando li a sinopse, imaginei um livro de suspense, mas voltado para o lado fantasioso, uma vez que ele faz alusão os “cultos ao demônio” e “exorcismos”. Mas adorei a surpresa, ao descobrir que ele se enquadra mais a linha de Romances Policiais e dramas conspiratórios. Sem contar que ele se enquadra muito bem como uma excelente crítica política e social. Isso foi enriquecedor para mim, principalmente depois de um ano cheio de revoluções e questionamentos sobre o posicionamento político das minorias.

Charge Ditadura
Charge sobre o Golpe de 1964.

A leitura me lembrou dos debates sobre a construção da Comissão da Verdade, as crueldades praticadas aos presos políticos durante o Golpe de 1964, além de toda a brutalidade e insubordinação dos militares nessa época. Mas o que mais me encantou foi ver fatos históricos, embora mascarados de ficção, sendo apresentados sem pudor nem falso moralismo. Isso fica mais claro durando as narrativas sobre a irmã Isabel, uma religiosa que foi torturada e violentada por um policial na cidade de Campinas, em 1969.

Os personagens são muito bem construídos e todos eles possuem uma personalidade bem definida, o que deixa claro quem é “mocinho” e quem é “vilão”, desde o início. Há quem ache isso algo negativo, mas eu gostei dessa linearidade, já que a leitura fica mais leve, e isso permite que o leitor se atenha mais aos fatos em si. Além disso, o autor é extremamente competente na contextualização histórica de algumas cenas, principalmente aquelas envolvendo os tempos da Ditadura. Acredito que isto seja reflexo do tempo em que Almada foi preso político, junto com Augusto Boal, seu companheiro no Teatro de Arena e também na cela do presídio Tiradentes.

Só para finalizar, vale ressaltar que a diagramação do livro é linda, como todas que já vi da Editora Prumo. Apenas a folha branca me incomodou um pouco, mas é apenas uma questão de hábito mesmo. Leitura mais que recomendada.

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Ficha Técnica

Sucursal do InfernoTítulo/Título original: Sucursal do Inferno
Autor(a): Izaías Almada
Editora: Prumo
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 320
Sinopse: Sucursal do Inferno é uma sátira surrealista do Brasil contemporâneo. É o Brasil um país real? Ou uma ficção? A jornalista Manina Berruel está perto de fazer a grande reportagem de sua vida profissional. Assim como Dante e Rimbaud, ela também desce aos infernos. E seu caminho não é nada poético… Pautada pelo jornal em que trabalha, mergulha fundo na investigação de operações financeiras ilegais de determinada seita religiosa. Nessa caminhada conhece de perto o ritual do exorcismo e mais de perto ainda o exorcista. Deus é brasileiro? O aforismo, tantas vezes invocado com seriedade ou ironia, é dissecado e confrontado com o Brasil do século XXI, onde o autor – como nos seus romances anteriores – reúne ficção e realidade, deixando ao leitor a instigante impressão de não saber onde começa uma e termina a outra.

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