A Caldeira do Diabo, de Grace Metalious

A Caldeira do Diabo, de Grace Metalious

— Mas em honra a quem Peyton Place recebeu seu nome, ou devido a quê?
— Um sujeito que construiu um castelo por aqui, antes da Guerra de Secessão. Um sujeito chamado Samuel Peyton — explicou Corey, relutante.
Grace Metalious, A Caldeira do Diabo, pág. 124

Escrever sobre este livro será um desafio para mim, já que ler uma história protagonizada por um lugar foi uma experiência nova. Tanto que, em alguns momentos eu tentava pensar em alguns personagens como “principais”, mas de certa forma, o importante eram as histórias cotidianas e não as pessoas em si. E, por se tratar de acontecimentos sobre a hipocrisia de uma pequena cidade interiorana da Nova Inglaterra, é que este livro sofreu com a censura nos EUA, durante o seu lançamento. Mas, diferente da população de Peyton Place, eu não gosto de “jogar nada para debaixo do tapete”, então vamos aos fatos.

Como toda e qualquer cidade do interior, principalmente no fim da década de 1930, cada pessoa tinha consciência do seu “papel na sociedade”. Ou seja, logo de inicio, somos apresentados às personalidades da cidade: Matthew Swain (médico), Seth Buswell (dono do Jornal Local), Kenny Stearns (faz-tudo e “bêbado”), Clayton Frazier (velho e resmungão), Constance McKenzie (dona da loja de roupas e viúva) e sua filha, Allison McKenzie, Leslie Thornton (dono da fábrica e “manda chuva”), Lucas Cross, sua esposa Nellie, e seus filhos Joey e Selena (moradores dos casebres), entre outros personagens.

Dividido em três partes, o livro é narrado sobre o ponto de vista de três mulheres: Constance MacKenzie, sua filha ilegítima chamada Allison e sua amiga Selena Cross. A escolha dessas personagens para darem vida a Peyton Place me agradou bastante. Primeiro porque, nas décadas de 30-40 as mulheres eram muito reprimidas, principalmente nos vilarejos, mas aqui, elas ganharam voz e vez. Segundo que, mesmo reprimidas, elas estão atentas a toda a hipocrisia e desigualdade social, e que, principalmente, são capazes de interagir com elas. Melhorando? Isso, infelizmente não, mas só em serem capazes de refletir sobre o assunto, já é um bom começo.

— Você já reparou qual é a mulher que mais põe defeitos numa mulher jovem e bonita, que anda por aí se divertindo para valer? É a mulher que está velha demais, gorda e feia demais para estar fazendo, ela própria, a mesma coisa. E, quando alguém dá um grande pontapé em tudo, quem é que berra mais alto? Aquele que sempre quis fazer a mesma coisa, mas não teve coragem. […] pág. 408.

Embora atualmente não seja tão chocante quanto deve ter sido na publicação, mas ler sobre mulheres debatendo temas como incesto, aborto, adultério, luxúria e assassinato, deve ter mexido bastante com o pensamento de quem teve acesso A Caldeira do Diabo. E é sempre bom pensar que todos nós temos segredos, independente da gravidade e de quanta influência ele terá na vida de outras pessoas.

Peyton Place (Mídia)
Poster do Filme e Série de TV, respectivamente, baseados no livro Peyton Place.

Um ano após seu lançamento, o livro foi adaptado para o cinema, sob direção de Mark Robson e estrelado por Lana Turner, Lee Philips, Lloyd Nolan e Arthur Kennedy, entre outros, em 1957. Mesmo muito criticado na época, o filme foi indicado para diversos prêmios importantes do Oscar daquele ano, bem como pelo Globo de Ouro e outros prêmios. Todo esse sucesso garantiu ao livro uma adaptação para TV apresentada originalmente nos Estados Unidos, pela rede ABC (1964 – 1969), desenvolvido por Paul Monash. Um detalhe interessante sobre a série, é que ela foi filmada entre 1964 a 1966 em preto e branco, e de 1966 a 1969, colorida.

Mesmo sendo uma edição velhinha e a ficha catalográfica vir dizendo “Venda permitida apenas para os sócios do Círculo”, eu gostei bastante do texto. E quem não gosta do cheiro de livro “vivido”? Leitura, embora um pouco triste, ainda assim é comentadíssima.

Curiosidades:

  • Segundo Ignácio de Loyola Brandão, no livro Acordei em Woodstock: viagem, memórias, perplexidades (2011), “Grace ficou célebre, mas ninguém foi tão malhada, achincalhada, humilhada, espezinhada, desprezada na vida. Os ataques a Paulo Coelho são doce mel perto do que Grace suportou. Reduzida a pó de traque, a moça viu seu casamento afundar, suas filhas sofreram todo tipo de injúrias, ela ficou rica, alcóolatra, teve cirrose e morreu aos 40 anos”.

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Ficha Técnica

A Caldeira do Diabo, de Grace MetaliousTítulo: A Caldeira do Diabo
Título original:
 Peyton Place
Autor(a): Grace Metalious
Editora: Círculo do Livro
Edição: 1970 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1956
Páginas: 440
Sinopse: Em Peyton Place, pequena cidade da rica região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, várias histórias se entrelaçam na criação de uma personagem: a própria cidade. mais que o cenário de uma novela, aquele pequeno núcleo interiorano guarda os segredos de seus habitantes, escondendo seus dramas, suas grandes esperanças e secretos impulsos em nome da tradição e dos bons costumes. Grace Metalious denuncia a teia de preconceitos que torna possível esse controle dos destinos, num livro que chegou a provocar ódio e revolta em sua época, mas foi um grande sucesso que originou num filme memorável.

Onde comprar: Estante Virtual

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4 comentários

    • Eu amo quando amigos me indicam livros que desconheço completamente. São quase sempre surpresas positivas. 🙂

      Beijos

      Curtir

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