Corações Feridos, de Louisa Reid

Corações Feridos

A vida em casa sem Hephzi era difícil. Ela era o cimento que segurara os tijolos de nossa família. Se é que era possível nos chamar assim. Eu não gosto da palavra, não para nós, dizê-la é como tentar engolir uma pedra.
Louisa Reid, Corações Feridos, pág. 33

Livros que falam de dramas familiares costumam me atrair bastante. Mas tenho um pouco de receio em abordar temas religiosos ou assuntos tão polêmicos quanto, porque é quase impossível analisamos as situações de forma impessoal, quando se trata de conceitos morais. Mas aqui estou para falar desse livro que tanto mexeu comigo. Dentre outros fatores, o fato das protagonistas serem gêmeas foi motivo mais que suficiente para o início da leitura.

Uma família que tinha tudo para ser perfeita e feliz, mas faz com que essa imagem permaneça apenas aos olhos da comunidade local onde elas vivem. Toda a história é contada em primeira pessoa: por Rebecca, no presente; e por Hephzibah, antes de sua morte. As irmãs eram muito unidas até a morte trágica da gêmea “bonita”. Não considerem essa fala preconceituosa. Durante todo o livro, é essa a imagem que é passada: Reb, a irmã deformada, com Síndrome de Theacher Collins (problema genético que causa má formação nos ossos da face), e Hephzi, a gêmea bonita, encantadora e simpática.

Louisa Reid
Autora Louisa Reid

Mas como tudo nessa família é só fachada, Hephzi não é tão boa e “meiga” assim, nem Reb é tão “monstro”. Toda essa citação é criada como forma de punição para a Reb, como se ela fosse culpada por ter nascido com a tal síndrome. Ai, quem você acredita ser o carrasco desse drama? Esse ser, digno de todo o desprezo que pode existir, é um pastor, pregador da moral e dos bons costumes. O pai das garotas. E não considerem spoiller, já que essas informações estão bem claras tanto na sinopse, quanto nas primeiras páginas.

Mas, se tudo isso é dito logo de início, o que teria esse livro a mais para dizer? E é nesse ponto que a autora surpreende. A forma como Hephzi morre é uma das mais tristes que já vi, bem como sua “justificativa”. Toda a humilhação vivida por ambas, e principalmente por Reb depois da morte da irmã, é muito realista. E, mesmos sabendo que tudo não passava de ficção, eu não consigo não imaginar que tudo isso possa estar acontecendo agora, em algum lugar (ou vários) nesse mundo.

Como sempre faço, após finalizar um livro, procurei algumas opiniões sobre Corações Feridos. Dentre elas, vi que tiveram opiniões dizendo que o livro era repleto de terror. Outras o descreveu com um bom suspense, ou ainda romance policial. Para mim, o livro é um drama recheado de horror, e não terror. Em momento algum você se assusta durante a leitura, mas fica horrorizado, paralisado durante boa parte dela. Acreditem, as lagrimas caem antes que você perceba.

O livro, além de literariamente maravilhoso, é lindo. Adorei a ideia de fazerem a capa nacional parecida com a original. Achei-a muito sóbria e triste, compatível com a história. Diagramação ótima, como já é de se esperar da Novo Conceito.

Black Heart Blue
Capas internacionais de Black Heart Blue

Por fim, como não sei se alguém já leu Palavras Envenenadas, de Maite Carranza, acredito que a informação a seguir possa ser considerada spoiller para quem leu, mas foi algo que eu observei e gostaria de comentar. Ao fim da leitura, esse livro me trouxe lembranças da história de Bárbara Molina, protagonista de Palavras Envenenadas, e de sua relação com seus pais e amigos. A construção das relações é muito semelhante: pai “superprotetor”, mãe omissa, filho inseguro, amigos distantes (ou a ausência deles).

Só me resta dizer: “Leiam e se emocionem!”.

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Ficha Técnica

Corações FeridosTítulo: Corações Feridos
Título originalBlack Heart Blue
Autor(a): Louisa Reid
Editora: Novo Conceito
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 256
Sinopse: Hephzibah e Rebecca são irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Enquanto Hephzi é linda e voluntariosa, Reb sofre da Síndrome de Treacher Collins — que deformou enormemente seu rosto — e é mais cuidadosa. Apesar de suas diferenças, as garotas são como quaisquer irmãs: implicam uma com a outra, mas se amam e se defendem. E também guardam um segredo terrível como só irmãos conseguem guardar. Um segredo que esconde o que acontece quando seu pai, um religioso fanático, tranca a porta de casa. No entanto, quando a ousada Hephzibah começa a vislumbrar a possibilidade de escapar da opressão em que vive, os segredos que rondam sua família cobram-lhe um preço alto: seu trágico fim. E só Rebecca, que esteve o tempo todo ao lado da irmã, sabe a verdadeira causa de sua morte… Hephzi sonhara escapar, mas falhara. Será que Rebecca poderia encontrar, finalmente, a liberdade?

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4 comentários

    • Jorge, não sei qual a relação da pergunta com o texto, mas vamos lá…
      A lista é grande, mas citarei os principais, pelo menos dos gêneros que mais me agradam (Não necessariamente nessa ordem).
      – Canções de Amor (Les Chansons D’amour, 2007)
      – O Pianista (The Pianist, 2002)
      – Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000)
      – Irreversível (Irréversible, 2002)
      – O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für Sich und Gott Gegen Alle, 1974)

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