No Limite, de Marin Ledun

Penso: no mundo do trabalho atual, quem pode diferenciar os mortos voluntários dos que foram levados ao matadouro?
Marin Ledun, No Limite, pág. 362

A França sempre foi um país prolífico na literatura policial. A lista de nomes pode ser extensa, todavia é representada principalmente por Maurice Leblanc (criador do famoso Arsène Lupin), Emile Gaboriau, Gaston Lerroux e Georges Simenon (criador do Comissário Maigret), que embora nascido belga, possui expressão na literatura francesa. Não obstante, há muitos contemporâneos que dão seguimento a esse legado, eis que se acrescenta à lista nomes como Franck Thilliez (A Síndrome E e Gataca, ambos pela Ed. Intrínseca), Joël Dicker (cuja obra A Verdade sobre o Caso Harry Quebert sairá ainda este ano também pela Intrínseca) e este sobre o qual vos falo, Marin Ledun.

No Limite é o sétimo romance adulto do autor, que só por este título ganhou três prêmios importantes, entre eles o prêmio de romance policial do ano do Festival Internacional du Film Policier de Beaune. O livro é narrado em primeira pessoa pela personagem central, Carole Matthieu, médica do trabalho do call center de uma empresa de telecomunicações.

Carole está exausta por sua incapacidade de contribuir com a melhoria da saúde de seus pacientes, que estão cada vez mais sobrecarregados pelo ambiente de trabalho hostil. Após alguns de seus pacientes tentarem suicídio, ela decide assassinar um dos seus pacientes para com isso chamar a atenção da sociedade para o problema opressor da empresa. E isso não é quebra de mistério, está na sinopse e acontece ainda no prólogo do livro. Parece uma situação improvável? Talvez, se não fosse baseada em fatos reais.

Os fatos: A empresa France Télécom anunciou publicamente que, entre 2008 e 2009, um total de 32 funcionários cometeram suicídio, entre os quais alguns registraram em carta o motivo do ato como sendo uma saturação da condição de trabalho imposta. Toda a situação começou com a privatização da empresa em 2006, que resultou numa redução brusca de 165 mil para 100 mil funcionários. A empresa passou a adotar um sistema de gestão que visa reduzir custos e que infelizmente é o mesmo que vemos imperar hoje no mercado de trabalho cada vez mais pautado no lucro.

É inevitável pensar que a demissão poderia ser um caminho menos extremista para sair dessa situação do que o suicídio. No entanto, os funcionários veem-se na impossibilidade de pedir demissão, tendo família para alimentar, muito menos de se imaginar sem emprego em meio a uma crise econômica. O que resta é resistir ao inferno na terra até que o fogo queime além da superfície. O assédio moral no ambiente de trabalho não é discutido de forma suficientemente clara, mas aqui o autor nos incita a pensar bem sobre o tema.

Marin Ledun
Marin Ledun

Ledun usou de sua própria experiência na empresa, como pesquisador de sociologia do trabalho, durante o período de privatização. Tendo participado de perto como espectador e analista do processo, o autor soube construir uma trama que viesse não só para denunciar a situação excruciante, mas também para alertar funcionários, empresas, a sociedade e o Estado, como interventor maior.

É impossível falar sobre a parte ficcional do romance sem entrar nos fatos reais, pois são eles que imprimem a carga emocional e de tensão devida ao thriller psicológico. O desespero dos funcionários, a exaustão da médica (Carole), a indiferença dos superiores, a ignorância dos terceiros, a impotência da polícia, a princípio diante de um caso tão grandioso, fazem com que a leitura se torne cada vez mais densa e de difícil digestão. Tudo isso é passado através da narrativa de Carole, que se intercala com documentos da investigação (laudos médicos, e-mails, cartas, etc) que dinamizam a leitura.

Quando me refiro à impotência da polícia, devo mencionar a participação importante do personagem representativo deste segmento, o jovem e atraente detetive Revel. A dificuldade de ação de Revel é dada por: (i) a dificuldade de investigar uma empresa privada de grande porte. (ii) o fato de que não é fácil apontar suicídio como homicídio. (iii) a atração que ele sente pela médica o impede de vê-la como suspeita. Há outras situações, as quais deixo para que enumerem durante a leitura.

A trama elucida muitas perguntas, a reflexão não se limita ao virar da última página, isso porque não é difícil identificar tal fato como algo acontecendo dentro de um desses arranha-céus pelos quais passamos todos os dias. Carole é a verdadeira assassina? Mesmo que seu motivo seja evitar mais mortes, matar alguém a absolve do seu próprio crime? Como é possível que algo tão nítido passe desapercebido pelos olhos de todos?

Os resultados: em 2012, a Justiça francesa indiciou o ex-chefe executivo da empresa por assédio moral, além de práticas de gestão controversas e abusivas, ainda que o mesmo negue que sua práticas tivessem efeito de causa sobre o ocorrido. Ledun não foi o único a escrever sobre o tema, Ivan du Roy lançou em 2009 o livro Orange Stressé (Laranja Estressada em tradução literal), onde ele analisa o processo de privatização da empresa e a lógica de gestão absurda.

No Limite foi lançado aqui no Brasil no final do ano passado pela editora Tordesilhas. Vale conferir, recomendo tanto para quem curte romances policiais, em especial thrillers psicológicos, como para quem gosta de um bom romance com crítica social importante.

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Ficha Técnica

No LimiteTítulo: No Limite
Título original: Les Visages Écrasés
Autor(a): Marin Ledun
Editora: Tordesilhas
Tradução: Eric Heneault
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011
Páginas: 368
Sinopse: No limite. Assim se sentem os pacientes de Carole Matthieu. Médica de uma grande empresa de telefonia, ela atende funcionários esgotados pelo dia a dia opressor do trabalho. Como Vincent Fournier, ex-figurão da companhia rebaixado a atendente de telemarketing. Deprimido e à beira de um colapso mental, ele já tentara estrangular a chefe e se suicidar. Vincent estava morrendo aos poucos, e Carole decide apressar as coisas. Frustrada com a insensibilidade de seus superiores, ela desenvolve um senso bastante peculiar de justiça e uma obsessão mortal por desmascarar o sistema. Inspirado em um caso real e escrito com uma linguagem ágil e inteligente, No limite é também uma crítica contundente ao ambiente de trabalho moderno.

Onde comprar:
Estante Virtual | Saraiva | Submarino | Cultura

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