Nu, de Botas, de Antonio Prata

A explicação do meu pai só aumentou minha confusão: as mulheres peladas estavam lá porque homens que não tinham namorada apareciam especialmente para vê-las. De novo, impossível ligar causa e efeito: por que um homem sem namorada ia querer ver uma mulher pelada? Ainda mais num bar?
Antonio Prata, Nu, de Botas, pág. 66

Conhecem o ditado “filho de peixe, peixinho é”? Antonio Prata, filho do escritor Mário Prata, já pode ter sido um peixinho, hoje não mais, é um peixe grande tal como o pai. Não obstante, herdou o talento para a crônica e dramaturgia. Pelo seu excelente trabalho, e/ou por influência do pai, Antonio foi parar na TV e chegou a contribuir com a telenovela que parou o país em 2012, Avenida Brasil. Roteirista contratado da Rede Globo, Antonio Prata se destaca ainda na crônica, escrevendo semanalmente para a Folha de São Paulo.

Antonio Prata
Antonio Prata

Ano passado, Antonio lançou pela Companhia das Letras o livro Nu, de Botas, que pela sinopse é categorizado como uma antologia de crônicas. Diz pouco, muito pouco. Tanto que em decorrência disso, posterguei a leitura por um ou dois meses, o que acabou entrando para a minha lista de arrependimentos irreparáveis. Mas como dizem “antes tarde, do que nunca”. Eis que num impulso, sentei para ler Nu, de Botas (sem trocadilhos entre o título e ação). Na minha percepção passaram-se 30 minutos e eu já estava virando a última página para me certificar que o livro havia terminado. Nesse ínterim muitas risadas, recordações, lembranças (que dele se tornaram minhas) e até mesmo um pouco de emoção.

Livro de crônicas? Diz pouco, muito pouco. Nu, de Botas é aquele álbum de fotos que você não deixa nenhuma das suas visitas folhear. É aquele diário que você queima depois dos 15 anos, por não ter coragem de mostrar para ninguém. É sim um livro de crônicas, mas é também de contos, que no final torna-se uma novela, ou até mesmo um romance, dado as tantas cenas, ações, personagens, cujo protagonista é o próprio autor. E por ser tão maleável, no que se refere ao gênero, eu diria que essa é uma obra completa, se não for – há sempre alguém do contra –­, posso pelo menos afirmar que este é um dos melhores livros que eu li/lerei em 2014.

Talvez você ache que eu estou exagerando. Mas só poderá me julgar lendo o livro também. Claro, há ressalvas. A primeira delas é que provavelmente você só sinta o que eu senti se tiver nascido na década de 1980 ou 1990, e a identificação se acentua ainda mais se você for do sexo masculino. Não que as meninas não possam gostar, muito pelo contrário, podem até achar mais divertido que os próprios meninos, dando risadas do que é o universo masculino na primeira e segunda infância. Os meninos vão rir, do autor e de si mesmo, pois Antonio Prata se funde com seus leitores nesse livro. Ele narra, com uma boa dose de ficção, sua própria infância (que é a nossa) e suas memórias (que também são as nossas).

Quando falo em ficção, me refiro ao objeto com o qual Antonio lapida suas memórias. Isso porque em se tratando de um livro de crônicas semi-autobiográfico narrado sob o ponto de vista do próprio autor enquanto criança, torna-se pouco crível no que se refere à linguagem, expressões e até mesmo palavras usadas na narrativa. No entanto, o recurso vai além, Antonio Prata escreve enquanto adulto e vai regredindo (entenda-se, entrando) em suas memórias, o resultado é que a escrita do Antonio-Adulto-Erudito se mescla de forma muito positiva com a fala do Antonio-Criança-Inocente (vide citação no início).

Antonio Prata (Infância)
Antonio Pequeno

E ainda falando em ficção, o autor tem boas referências, a começar pelo pai. Todavia, é possível imaginar os nomes que preenchem as prateleiras do autor, que talvez tenha começado junto com a do pai: Charles Dickens, Julio Cortázar, Borges, Drummond de Andrade, Machado de Assis, Tchekhov, entre outros. Acrescido, é claro, de inúmeras referências à década de 80, em especial personagens imortalizados na TV, quando esta ainda era uma relagia de poucos. Tudo com uma boa dose de nostalgia e saudosismo, quase impossível de não se sentir.

Os textos são organizados de forma a gerar uma lineraridade, ao mesmo tempo que possuem certa independência entre si. Começamos por Gênesis, onde Antonio narra o princípio da sua percepção de mundo, mostrando pra nós (ou nos fazendo lembrar?) como o mundo funciona nessa fase. Em Alô, Bozo? Temos uma homenagem à figura que marcou uma geração. Depois revivemos a estranheza de ter que usar Cueca (I e II), o medo de fazer cocô nas calças, Indefectível, as primeiras experiências escolares, o processo de alfabetização (Ca, Ce, Ci, Co, Çu), a descoberta da imagem sexual dos gêneros e a estranheza disso (Mulheres Peladas), e por fim, o primeiro namoro, que era iniciado com um bilhetinho de múltipla escolha no qual era possível optar por ( ) sim, ( ) não, ( ) talvez. Quem nunca? Rsrs…

Com uma capa impecavelmente linda, Nu, de Botas é uma joia da contemporaneidade, joia esta que nos faz voltar à modernidade, ou pelo menos ao que achávamos que era moderno. Depois fica um gosto de nostalgia impregnado, que no fundo só nos lembra que estamos envelhecendo, eu que o diga, hoje completo mais um ciclo, mais um ano, uma etapa, lembranças… Este é um livro que me dá vontade de reler todo dia, provavelmente eu o farei, apenas de tempos em tempos, como faço com os álbuns de fotografia, que não tenho. Ou melhor, agora tenho, Nu, de Botas.

Outras Obras do Autor:

  • Douglas e outras histórias (Azougue Editorial)
  • Pernas da tia Corália (Ed. Objetiva)
  • Adulterado (Ed. Moderna)
  • Estive pensando (Marco Zero Editora)
  • O inferno atrás da pia (Ed. Objetiva)
  • Meio Intelectual, meio de esquerda (Editora 34)
  • Felizes Quase Sempre, ilustrado por Laerte Coutinho (Editora 34)

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Ficha Técnica

Título: Nu, de Botas
Autor(a): Antonio Prata
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 144
Baixe um Trecho: AQUI
Sinopse: Em Nu, de botas, Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância. As memórias são iluminações sobre os primeiros anos de vida do autor, narradas com a precisão e o humor a que seus milhares de leitores já se habituaram na Folha de S.Paulo, jornal em que Prata escreve semanalmente desde 2010. Aos 36 anos, Prata é o cronista de maior destaque de sua geração e um dos maiores do país. São de sua lavra alguns bordões que já se tornaram populares – como “meio intelectual, meio de esquerda”, título de seu livro anterior e de um seus textos mais célebres –, bem como algumas das passagens mais bem-humoradas da novela global Avenida Brasil, em que atuou como colaborador de João Emanuel Carneiro. Prata também é um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta. As primeiras lembranças no quintal de casa, os amigos da vila, as férias na praia, o divórcio dos pais, o cometa Halley, Bozo e os desenhos animados da tevê, a primeira paixão, o sexo descoberto nas revistas pornográficas – toda a educação sentimental de um paulistano de classe média nascido nos anos 1970 aparece em Nu, de botas. O que chama a atenção, contudo, é a peculiaridade do olhar. Os textos não são memórias do adulto que olha para trás e revê sua trajetória com nostalgia ou distanciamento. Ao contrário, o autor retrocede ao ponto de vista da criança, que se espanta com o mundo e a ele confere um sentido muito particular – cômico, misterioso, lírico, encantado.

Onde comprar:
Cultura | SubmarinoSaraiva | Estante Virtual

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