Dias Perfeitos, de Raphael Montes

Dias Perfeitos

Quem nunca se apaixonou sem ser correspondido? Quem não gostaria de mostrar que poderia ser diferente, que a história de amor poderia dar certo? Ele apenas fazia o que todos já tinham desejado fazer.
Raphael Montes, Dias Perfeitos, pág. 101

Amores obsessivos sempre me atraíram. Desde que li o primeiro livro do Raphael Montes, Suicidas (Ed. Benvirá), fiquei com vontade de ler suas próximas publicações. Assim que ele anunciou a sinopse do segundo livro, minha curiosidade aumentou significativamente. Alguma coisa da sinopse me lembrou de um dos meus filmes favoritos: Louca Obsessão (Misery, 1990), adaptado do livro Angustia, do Stephen King. E, por coincidência ou não, o Raphael o cita durante a narrativa.

Raphael Montes
Raphael Montes

Utilizando-me das palavras do Scott Turow, presentes na capa, Raphael Montes é um dos mais brilhantes escritores jovens em ascensão atualmente. Advogado e autor de romances policiais, Raphael ainda tira um pouco do seu tempo para responder a todos os fãs nas redes sociais.

Dias Perfeitos, lançado no início desse mês, conta a história de Teodoro (Téo), um jovem estudante de medicina que tem sua vida completamente metódica. Solitário, Téo usa seu tempo apenas para os estudos, em especial na disciplina de Anatomia – sua paixão, e para cuidar da sua mãe paraplégica, Patrícia. O protagonista desenvolveu a habilidade de fingir sentimentos, uma vez que ele considera as relações sociais uma futilidade. Mas tudo isso muda assim que ele conhece Clarice, num churrasco de amigos em comum.

Seu nome é?”
“Téo. Teodoro, na verdade. E você?”
“Clarice.”
“É um nome bonito.”
“Pelo amor de Deus, não venha me falar de Clarice Lispector porque nunca li nada dela! Essa mulher me persegue. (Pág. 16)

Como dá para perceber, Clarice é uma personagem alegre e espirituosa. Essa leveza com que ela leva a vida encanta o Téo logo de cara. A partir desse primeiro contato, ele começa a persegui-la. Ele se convence de que conseguirá conquistá-la. Mas os planos dele começam a sair dos trilhos e, ao ser apresentado ao roteiro de cinema que Clarice está escrevendo – Dias Perfeitos, que dá nome ao livro –, ele decide que utilizará a história dela para se conhecerem melhor.

O roteiro conta a história de três amigas que saem numa viagem, num clássico road movie. Tanto a ficção quanto a “realidade” se passam em Teresópolis, Ilha Grande e Paraty, respectivamente. Mas, para quem pensa que Téo convence Clarice a isso, estão muito enganados. O início dessa viagem começa meio que inesperadamente, quando Téo, após “salvar sua vida” [do ponto de vista dele], decide visita-la no dia seguinte. Porém, ela não é tão receptiva e, durante um acidente, ele acaba deixando-a inconsciente. Como na ocasião ela estava se preparando para viajar para Teresópolis, Téo a colocou na mala (uma Samsonite) e decide leva-la até lá.

Para quem duvida que isso possa ser possível, a escritora Renata Ventura, A Arma Escarlate (Ed. Novo Século), prova que é completamente possível.

Renata Ventura (Autora de A Arma Escarlate)
Renata Ventura (Autora de A Arma Escarlate)

A construção dos personagens é incrível. Conhecer a narrativa do ponto de vista do Téo é perturbador. Saber que tudo que ele faz, todas as coisas cruéis que acontecem, para ele não passam de uma ‘tentativa’ de acertar, como ele mesmo diz na citação a seguir:

Clarice precisava ser protegida de si mesma. Téo entendia que ela estivesse sofrendo, mas não estava nem um pouco arrependido do que tinha feito. No fim das contas, fora para o bem dela. (Pág. 214)

A diagramação também é lindíssima, como a maioria dos livros da Companhia das Letras que eu conheço. As partes do roteiro escrito por Clarice possuem rabiscos feitos ‘à mão’, o que aproxima o leitor dos personagens. Pelo menos aconteceu comigo.

Como citei inicialmente, livros de amores obsessivos me encantam muito, assim, algumas obras com histórias semelhantes acabam permeando minha lista de favoritos. Dentre essas histórias encantadoras estão: Jake e Mimi, de Frank Baldwin (Geração Editorial); No Escuro, de Elizabeth Haynes (Ed. Intrínseca); O Perfume, de Patrick Süskind (Ed. Record); Palavras Envenenadas, de Maite Carranza (Ed. Novo Conceito); Paperboy, de Pete Dexter (Ed. Novo Conceito).

Por fim, fazendo um comparativo às duas obras do Raphael, gostaria de afirmar que amei os dois livros, mas me arrisco a dizer que Suicidas ainda é meu favorito. Primeiro porque o achei mais intenso e me surpreendeu mais. Além de ter me identificado mais com o Alessandro (protagonista de Suicidas) do que com o Téo. Mas os dois livros são completamente diferentes: enquanto Suicidas é repleto de suspense, violência e tensão, Dias Perfeitos encanta por seu sarcasmo, ironia e uma perversidade sem limite.

Como sempre acontece com os livros nessa temática, eu recomendo!

Outras Obras do Autor:

  • Suicidas (Ed. Benvirá)
  • O Sorriso do Homem Mau e Outros Contos Policiais (Ed. Benvirá) [Ebook]

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Ficha Técnica

Dias PerfeitosTítulo: Dias Perfeitos
Autor(a): Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 280
Baixe um Trecho: AQUI
Sinopse: Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.

Onde comprar:
Cultura | SubmarinoSaraiva | Estante Virtual

4 comments

  1. Olá, eu estou com muita vontade de ler os dois livros do Raphael, principalmente este último lançado. Já tô fã do cara e ele eu até já conversei com ele pelo facebook! A entrevista dele no Jô foi muito bacana e a Renata linda na mala só me deixa mais ansioso para ‘A Comissão Chapeleira’. Esses dois autores vão longe! xD

    Abraços!
    http://www.umomt.com

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    • Olá Matheus.
      Se você já é fã dele antes de ler, imagina depois que saber como ele escreve…
      Ele é realmente muito atencioso com os fãs. Leia os livros agora, será uma excelente experiência.
      Ainda não conheço o trabalho da Renata, mas estou curioso.
      Abraços!

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  2. Ótimo texto de resenha. Meus parabéns! Amei a maneira que vc usou para se expressar, me fez se interessar pelo livro….mas vc já leu o livro reverso… se trata de um livro arrebatador…ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos…..e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história…..acesse o link da livraria cultura …a capa do livro é linda ela traz o universo como tema.
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=78725243

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