Colin Fischer, de Ashley Edward Miller e Zack Stentz

Wayne olhou para as próprias mãos antes de encarar Colin.
– Venho chateando você desde a primeira série e agora você quer limpar meu nome? Você acha que, se me ajudar, vou deixá-lo em paz?
– Acho que, se ajudar você, vou resolver o mistério.
Ashley Edward Miller e Zack Stentz, Colin Fischer, pág. 96

Colin Fischer é um dos lançamentos de Abril da Editora Novo Conceito. Quando tomei o livro em mãos, fiz meu ritual: analisei a capa (chamativa), li a sinopse (curiosa) e li a minibiografia dos autores – vi que eles também são aficionados por Star Trek e colaboraram com o roteiro de X-Men: Primeira ClasseThor. O gosto e experiência deles me incitaram a começar a leitura imediatamente. Poucas horas depois eu já estava virando a última página e completamente encantado por Colin. O livro além de ser bem divertido, nos leva para fora da nossa zona de conforto e nos impõe um tema por vezes ignorado e sobre o qual não costumamos falar, pelo menos não de forma frequente. Eu explico.

Ashley Edward Miller e Zack Stentz
Ashley Edward Miller e Zack Stentz.

O quanto você sabe/conhece sobre o autismo? E sobre a síndrome de Asperger? Sabe qual a diferença de ambos? Conhece/convive com algum portador dessa condição/síndrome? Para a maioria das pessoas a palavra autismo gera uma imagem de alguém retardado, solitário e alheio ao mundo. É por isso que eu disse que a maioria ainda ignora o tema. Recentemente me vi diante de diversas situações que me levaram a pensar e querer saber mais sobre o assunto. Primeiro conheci o filho de uma amiga que foi diagnosticado com autismo, esse contato me fez acordar para a minha ignorância. Posteriormente, li o livro O Que Me Faz Pular (Ed. Intrínseca), de Naoki Higashida, e essa experiência foi uma das mais reveladoras para mim sobre o autismo, um livro quase que obrigatório para qualquer pessoa, convivente com autistas ou não, falarei sobre ele em post futuro. Mas o que tudo isso tem a ver com Colin Fischer? Vamos lá…

Tendo lido o livro do Naoki Higashida anteriormente, foi possível concluir logo no primeiro capítulo deste que Colin era autista, antes mesmo da condição do personagem ser exposta diretamente ao leitor. Colin carrega consigo uma variação mais leve do autismo, a Síndrome de Asperger, cuja principal diferença do transtorno clássico é a capacidade de comunicação oral compreensível – maior dificuldade de Higashida. Embora Colin tenha controle sobre sua fala e organize bem suas ideias, muitas vezes até demais, ele apresenta características comuns aos autistas: aversão pelo toque humano, até mesmo dos pais; apreciação por matemática e coisas exatas; impulso de agitação constante, que faz com que ele se concentre mais pulando numa cama elástica; e, mais evidente, dificuldade para decifrar as emoções e sentimentos alheios – para lidar com isso, Colin carrega um cartão no qual desenha as expressões faciais acompanhadas de legendas.

Colin Fischer, capas francesa e suecas
Colin Fischer, capas francesa e suecas.

O ponto mais interessante do livro é que ele não faz com que sintamos pena de Colin por sua condição especial. Pelo contrário, nos sentimos ludibriados por sua capacidade intelectual e cognitiva às vezes superior a dos demais personagens e nossas. Aos 14 anos, nossa aventura com Colin começa com sua entrada no colegial, é onde ele pode começar novas relação sociais, sem o acompanhamento profissional, e investigá-las. Mesmo estando alheio às emoções, Colin faz com que sejamos inundados por todas elas no momento da leitura: nos divertimos com as tiradas e inocência do protagonista; nos emocionamos com a dificuldade dos pais de conciliar uma vida corrida com o cuidado ao filho que exige atenção; nos emocionamos ainda mais com as lições de amizade que Colin nos proporciona; sentimos raiva do irmão de Colin, Danny, que quer ser mimado e não compreende que ser diferente não é uma escolha do outro; e, de forma mais evidente, nos encantamos fortemente por esse garotinho de 14 anos que tem muito mais a ensinar aos demais do que o contrário.

Fascinado por literatura de mistério, Colin se vê como um novo Sherlock Holmes, sua maior inspiração. Com uma capacidade dedutiva fora do normal, Colin percebe coisas que ninguém mais percebe, talvez por analisar tudo com mais exatidão, sem se deixar influenciar pelas emoções. A primeira – e espero que não única – grande aventura de Colin começa quando alguém leva uma arma de fogo para escola e ela é disparada na cantina durante o intervalo. Com dificuldades de lograr êxito na investigação tanto por parte da polícia como da direção da escola, Colin é o único que pode desvendar esse mistério. E eis que temos um “thriller colegial” super divertido.

Tubarões, bolo de aniversário e caderninho, ilustrações de Emma Ekstam para a edição sueca publicada por Bonnier Carlsen
Tubarão-martelo, bolo de aniversário e caderninho, ilustrações de Emma Ekstam para a edição sueca publicada por Bonnier Carlsen, 2014.

Cada capítulo é iniciado por um texto de Colin, onde ele mostra saber muito mais do que nós sobre coisas da natureza, cinema clássico, literatura policial e até mesmo sobre a síndrome de Asperger. É um tesouro à parte. Discorrendo sobre temas aleatórios, inseridos propositalmente pelos autores para nos contextualizar de forma indireta sobre o tema, Colin vai nos mostrando pequenos detalhes sobre a vida aos quais não damos tanta importância. São verdadeiras lições, longe de serem pedantes. Para completar, ele anda para cima a para baixo com um caderninho inseparável, onde anota tudo sobre tudo e todos. Eis algumas pérolas:

Eu tenho um irmão. O nome dele é Danny. Ele gosta de sorrir. Minha mãe diz que ele está feliz por ter um irmão mais velho que o ama. Investigar. (pág. 15)

Wayne Connelly pode ter deficiência em matemática. Investigar. (pág. 20)

Sandy Ryan em relacionamento romântico com Eddie. Uma consequência provável da formação dos seios e do aparecimento de características sexuais secundárias. Investigar. (pág. 20)

Rudy Moore: Inteligente. Perigoso. Evitar. (pág. 27)

Até a objetividade é uma característica muito presente em Colin. E é através dele que conhecemos o rol de personagens que o cercam. Em especial a querida Melissa, por quem o protagonista nutre uma admiração amável; e Wayne, um grandalhão, que sempre perseguiu Colin, cujo último infortúnio fora colocar a cabeça do garotinho no vaso sanitário no primeiro dia de aula. Wayne é o principal suspeito do crime que chocou a escola, no entanto, Colin tem certeza da inocência de Wayne e precisa provar isso. Sem se afetar por rancores e ressentimentos, a grande felicidade dele é solucionar o mistério, uma dívida consigo mesmo.

Edward Miller e Zack Stentz acertam em cheio com a parceria. A obra tem poder para agradar os mais diversos públicos. Além disso, é indispensável para quem quer conhecer um pouco mais sobre a síndrome de Asperger, ou para quem quer apenas uma leitura divertida, ou ainda para aqueles que adoram aprender coisas novas, Colin tem muito para nos ensinar. Vale muito a pena ler.

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Ficha Técnica

Título: Colin Fischer
Título original: Colin Fischer
Autor(a): Ashley Edward Miller e Zack Stentz
Editora: Novo Conceito
Tradução: Henrique Amat Rêgo Monteiro
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 176
Baixe um Trecho: AQUI
Sinopse: RESOLVENDO O CRIME. UMA EXPRESSÃO FACIAL POR VEZ. O ano letivo de COLIN FISCHER acabou de começar. Ele tem cartões de memorização com expressões faciais legendadas, um desconcertante conhecimento sobre genética e cinema clássico e um caderno surrado e cheio de orelhas, que usa para registrar suas experiências com a MUITO INTERESSANTE população local. Quando um revólver dispara na cantina, interrompendo a festinha de aniversário de uma das garotas, Colin é o único que pode investigar o caso. Está em suas mãos provar que não foi Wayne Connelly, justamente aquele que mais o atormenta, que trouxe a arma para a escola. Afinal de contas, a arma estava suja de glacê, e Wayne não estava com os dedos sujos de glacê…

Onde comprar:
Cultura | Saraiva | Estante Virtual

2 comentários

  1. É o livro que estou lendo no momento e já adianto que estou curtindo, especialmente as particularidades saídas da mente do protagonista. Taí um livro que tem tudo para me agradar enormemente. =)
    Ah, babei nas capas da França e Suécia!

    Beijo, Livro Lab

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  2. Desde o evento que você falou sobre esse livro eu fiquei curiosa para ler, agora estou ainda mais curiosa.
    Vou tentar comprar ele logo e ler.

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