A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea, de Romain Puértolas

Por amigo, ele entendia qualquer pessoa que não ficasse chocada ao encontrá-lo dentro daquele armário. Por inimigo, todos os demais: empregados da Ikea, policiais, a eventual compradora do armário, o eventual marido da eventual compradora, voltando do trabalho e achando um indiano de meias dentro do novo armário.
Romain Puértolas, A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea, pág. 68.

Apesar do título curioso e capa muito bem trabalhada (leia-se bonita), a princípio não tive grande interesse por esse livro do francês Romain Puértolas. Primeiro pela relação com a marca sueca Ikea, que me fez pensar inclusive que nem se tratasse de um romance, e segundo, pela associação dela com a figura de um faquir. Mas como bom curioso que sou, resolvi ler o primeiro capítulo, quando me toquei já estava virando a última página, horas depois, com um misto de sentimentos em relação à obra.

O Faquir, ilustração de Juan Carlos Amor
O Faquir, ilustração de Juan Carlos Amor

O faquir é uma figura típica da cultura oriental, em especial a indiana, visto como um homem dotado de habilidades excepcionais, tais como encantar cobras, caminhar sobre brasas quentes, engolir espadas, deitar sobre camas de pregos, entre outras coisas absurdas. No livro de Puértolas, o protagonista é o faquir rajastani Ajatashatru Ahvaka Singh (pronuncie acha já a tua vaca), um trapaceiro e impostor cujo nome elucida a maior variedade de trocadilhos possíveis.

A aventura dessa figura inusitada começa quando ele convence sua aldeia a financiar uma viagem para a França, alegando que está com problemas de saúde e que precisa de uma nova cama de pregos, mais precisamente a camådepregöså da Ikea. Assim, ele parte para uma viagem de apenas um dia, com uma nota falsa de 100 euros impressa só de um lado. Como a cama custa 99,99 euros, Ajatashatru dá um golpe no taxista que o leva do aeroporto até a loja. Ele entrega a nota falsa dobrada, em seguida distrai o taxista e depois puxa a nota de volta da carteira do motorista com um elástico invisível. É aqui que o faquir ganha seu primeiro inimigo.

Ajatashatru fica completamente fascinado pela variedade de produtos da Ikea, alguns tão peculiares que ele se pergunta sobre suas utilidades. Na hora de fazer o pedido, o faquir descobre que a loja não tem a cama em estoque e que a mesma custa 15 euros a mais do que o valor promocional vencido do catálogo. Assim, ele é obrigado a dá outros golpes, para conseguir o restante do dinheiro, para se alimentar e ainda precisa de um lugar pra ficar já que não pode pagar por um hotel.

Eis que ele faz uso do “golpe do vaso partido” (cujo funcionamento ele faz questão de ensinar ao leitor). Ele adapta a trapaça e usa um óculos falso no lugar do vaso, e consiste em você encostar em alguém, derrubar o objeto que já estava previamente quebrado e fazer a pessoa se sentir culpada e na obrigação de ressarcir o valor. É assim que ele conhece Marie Rivière, uma mulher já na casa dos 40 anos que vive se relacionando com rapazes mais novos, tantos quanto puder pagar. Além de ressarcir o faquir com 20 euros, cinco a mais do que o que ele precisava, ela ainda paga sua refeição. Eles começam a conversar e a mulher se sente atraída pela aparência exótica do faquir (um enorme bigode, um turbante e inúmeras argolas nas orelhas, narinas e lábios).

Como a viagem de volta está marcada para o dia seguinte o faquir não se permite um envolvimento com a mulher, e como não tem para onde ir, resolve passar a noite na loja. Como acontece um imprevisto, ele é obrigado a se esconder em um armário para não ser descoberto. Ele só não sabia que entrava no mesmo armário que seria despachado imediatamente para a Inglaterra, é então que começa a viagem extraordinária do rajastani. Em menos de nove dias ele passa pela França, Grã-Bretranha, Espanha, Itália e Líbia. Ao longo do caminho ele encontra e reencontra várias personagens entre amigos e inimigos.

Romain Puértolas
Romain Puértolas

É basicamente nisso que se resume os primeiros capítulos do livro, o pontapé inicial. Acredite que não revelei basicamente nada que o impeça de se surpreender com o livro. A obra é um misto de comédia e drama, mais do primeiro do que do segundo, escrita com uma roupagem fabular. Isso porque ao longo de sua viagem, o faquir vai aprendendo e nos repassando uma mensagem (leia-se moral da história) muito bacana, ou melhor, não apenas uma, mas várias lições.

Puértolas tem um humor muito interessante, que casa muito bem com sua escrita. Esse foi o primeiro livro do autor a ser publicado depois de ter mais de cinco títulos recusados. Um tiro certeiro, já que o título vendeu mais de 300 mil cópias e publicado em mais de 35 países, tornando-se um best seller francês.

A louca viagem do faquir traz muitas referências e discussões. A começar pelas referências, o ar road movie – a propósito daria um ótimo filme, principalmente se fosse dirigido por Wes Anderson (A vida marinha com Steve Zissou, Viagem a Darjeeling, The Grand Budapest Hotel), alguém aí pode entrar em contato e dar a dica? – vem das viagens fantásticas de Jules Verne, também francês, e d’As Aventuras de Tintim, de Georges Prosper Remi. Além desses, o livro é repleto de referências à cultura pop, da literatura, do cinema, da música. Uma delícia de leitura, que imprime um sorriso no leitor do início ao fim.

A respeito das discussões, o livro fala em especial sobre imigração ilegal. Logo no início de sua aventura Ajatashatru encontra um grupo de sudaneses, liderados por Haashim (pronuncie atchim), que tentam entrar na Inglaterra num comboio, justamente aquele onde está o armário que o faquir ficou preso. Aos poucos o autor vai desenvolvendo o tema sem se perder do foco da história, a seriedade e verossimilhança se dá pelo fato de que o autor trabalhou por um bom tempo no controle de fronteiras.

Romain Puértolas
Romain Puértolas

Além disso, o autor discute de forma um pouco mais sutil a pobreza e miséria de alguns países do Oriente Médio, assolados pela fome e disputas violentas constantes; e o abuso sexual de inocentes, vivido pelo próprio faquir durante a infância. Puertólas usa do bom humor para apontar problemas graves, então não se sinta mal se você rir da inocência com que Ajatashatru narra esse fato, a piada não é de mal gosto e não inibe uma reflexão racional a respeito.

Por fim, já que me estendi demais (sim, o livro é empolgante), a mensagem principal do livro é universal: a mudança do ser humano. Todos as personagens que cruzam com o faquir contribuem para esse efeito na vida do trapaceiro, mas menciono em especial a atriz Sophie Morceaux, que mostra ao rajastani que o mundo nem sempre é vil, ainda que determinadas paisagens e situações nos mostrem o contrário. Mas antes que este texto se torne mais extenso do que o que já está, concluo dizendo: Leiam! Leiam! Leiam!

Curiosidades:

  • Para os leitores que adoram livros dentro de livros, esse é um ótimo exemplo. Ao meio deste somos presenteados com um mini romance chamado Deus viaja de táxi.
  • Romain Puértolas redigiu a maior parte do livro no celular (talvez por isso os capítulos curtos, rs), de pé no transporte público no caminho de ida e volta do trabalho.
  • O autor já está trabalhando em mais cinco livros. O próximo tem previsão de lançamento para 2015. Assim como esse, também terá um título imenso e contará sobre uma viagem à Africa, só que protagonizado por uma mulher.
  • Para saber mais sobre as auto-mutilações dos faquires veja um infográfico feito pela Revista Mundo Estranho, clicando AQUI.

Melhores quotes:

Por que alguns nasciam aqui e outros lá? Por que alguns tinham tudo e outros nada? Por que alguns viviam e outros, sempre os mesmos, só tinham o direito de se calar e morrer? (pag. 79)

Você sabe o que é a impotência de um pai quando ele não consegue dar nem mesmo um pedaço de pão para seus filhos. (pág. 79)

O cingalês […] aceitava que as pessoas deviam ser guiadas pela fé e pela religião. […] Não existia religião nos outros planetas, e a gente via no que isso tinha dado: nenhuma vida extraterrestre. Bastava isso. (pág. 137)

Não sentimos fome quando estamos apaixonados. E menos ainda quando estamos apaixonados num país em guerra. (pág. 230)

Ao descobrirmos outras pessoas em outros lugares, podemos nos tornar outra pessoa. (pág. 238)

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Ficha Técnica

Título: A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea
Título original: L’extraordinaire voyage du fakir qui était resté coincé dans une armoire Ikea Autor(a): Romain Puértolas
Editora: Record
Tradução: Mauro Pinheiro
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 256
Sinopse: A figura de um faquir está associada à meditação, ao treinamento e à magia. Mas, no caso de Ajatashatru Ahvaka Singh, é mais provável que o público se depare com truques e trapaças. A última de suas artimanhas foi convencer sua aldeia a pagar por uma viagem a França para adquirir a Camadepregösa, um modelo de cama de pregos vendida pela Ikea. Só que ele não contava em ficar preso dentro de um dos armários da loja. Nem que o móvel seria despachado para outro país. Assim, o faquir e seu turbante partem para uma aventura, ainda que involuntária, pelo mundo, fazendo uma horda de inimigos, alguns amigos e aprontando muitas confusões pelo caminho. 

Onde comprar:
Cultura | Saraiva | Estante Virtual

3 comentários

  1. Espero ler em breve !!!
    Ao descobrirmos outras pessoas em outros lugares, podemos nos tornar outra pessoa. (pág. 238)”
    Um abraço

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    • Oi Silma,
      Acho que você vai adorar a leitura, muito divertida e ao mesmo tempo muito encantadora.
      Tem frases muito bacanas, como essa que você destacou.
      Abraços e obrigado pela visita.

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