Ciranda da Solidão, de Mário César

O Brasil está crescendo cada vez mais no mercado das histórias em quadrinhos. Ultimamente muitos nomes têm ganhado a cada dia mais notoriedade, entre os quais cito Mario Cau (Terapia, Dom Casmurro, NÓS), Daniel HDR (DC Comics), Fábio Moon e Gabriel Bá (Daytripper), entre tantos outros. As temáticas são as mais diversas, todavia, algumas ainda restritivas a determinados assuntos. Mário César – mais um nome para dá atenção –, ano passado, resolveu arriscar em uma HQ adulta sobre sexualidade, em especial sobre o universo LGBT.

Mário César
Mário César

Mário César não é novato, já atua há algum tempo como desenhista, roteirista e editor de quadrinhos, chegando a vencer duas vezes o Troféu HQ Mix, um dos mais importantes do Brasil nesse segmento. Atualmente ele desenvolve uma série de histórias em quadrinhos sobre a vida cotidiana, intitulada EntreQuadros. Esta, Ciranda da Solidão, é o quarto volume, no entanto, o primeiro sobre a temática LGBT.

O álbum é na verdade uma compilação de cinco contos (em quadrinhos) sobre as mais diversas situações, todas tendo em comum personagens gays, lésbicas, bissexuais e/ou transsexuais. Outro ponto chave que liga cada uma das histórias é a busca pelo amor, ainda que esta não seja restritiva à este grupo, o amor e a busca pela pessoa amada é universal, e invariavelmente não poderia faltar para essas personagens também.

A primeira narrativa, O Clube das Pessoas Normais, epigrafada com um excerto de Caio Fernando Abreu, aborda o amadurecimento de um adolescente em relação a sua orientação sexual e às mudanças do corpo inerentes a essa fase. Gregório certo dia acorda e percebe que está com o rosto cheio de espinhas, logo também nota que seus pelos estão crescendo mais em lugares específicos. Com dificuldade de aceitar tais mudanças como positivas, ele ainda tem que lidar com as pressões da mãe, a estranheza de se sentir atraído pelo mesmo sexo e o medo de se tornar chacota entre os colegas da escola.

Ciranda da Solidão (Trecho 01)
Trecho de “Ciranda da Solidão”

Em seguida temos Ciranda da Solidão, que intitula o álbum. Nesse, a história é narrada quase que unicamente pelo visual, sem diálogos. O que temos é uma sucessão de cenas de encontros e desencontros, que vai compondo uma rede de relações que ligam uma gama de personagens que se relacionam e terminam. A narrativa mostra como o ser humano, independente de qualquer rótulo, está sempre em busca de alguém para amar, e que na maioria das vezes o encontro esperado é resultado de sucessivas tentativas e fracassos.

A Primeira Vista é a mais curta das histórias, e nos faz perceber como às vezes deixamos as coisas passarem por nós desapercebidas. Os quadrinhos mostram dois rapazes, um deles o próprio autor, que sempre se cruzaram pela rua, mas nunca haviam reparado um no outro, até que um dia se notam e se apaixonam à primeira vista. Essa, talvez seja a mais simples e sem grandes surpresas, já que a pequena trama é entregue logo no título. Contudo, tem sua importância por ser um relato autobiográfico do próprio Mário César.

Ciranda da Solidão (Trecho 02)
Trecho de “Esperando a Cera Secar”

A penúltima história, Esperando a Cera Secar, é sem dúvidas a mais profunda e de drama mais intenso. Duas mulheres vivem um relacionamento marasmático, minado por ressentimentos e mágoas. Um fantasma do passado assombra uma das partes e cria uma barreira que impede o diálogo das personagens. Até que a esperança se esgota, assim é preciso tomar a melhor das decisões. O autor consegue, com êxito, dosar os dramas pessoais, fazendo uma narrativa visual que intercala as duas mulheres em seus mundos pessoais.

A Escrita no Muro encerra o álbum com chave de ouro, de todos é o melhor conto. Nessa narrativa vemos Caio, um velho ranzinza, que não poupa grosserias para sua enfermeira Zélia. O protagonista, aos poucos, vai imergindo nas lembranças do seu passado, quando conheceu seu companheiro Tales, com quem teve um relacionamento sólido e duradouro. Além da perda do amado, Caio luta contra um mal de Alzheimer iminente, que além de todos os constrangimentos e desconfortos, ameaça dissolver as memórias do grande amor da sua vida. É um drama bem interessante, tanto pela questão amorosa, existencial e, sobretudo, sobre o envelhecimento.

Ciranda da Solidão (Posteres)
Posteres de Ciranda da Solidão

Por fim, Ciranda de Pedra nos convida, assim como na brincadeira infantil, para entrar numa roda de dança, na qual as mais diversas personagens desfilam e nos contam suas histórias, que por extensão, podem ser as nossas em um momento ou outro. Mário César tem um traço limpo e elegante, assim como uma sensibilidade ímpar para narrar situações e dramas cotidianos do ser humano. Recomendo, principalmente para quem gosta de histórias que incitem a quebra de paradigmas e estereótipos.

Curiosidades:

  • O trabalho de Mário é de tamanha qualidade, que o livro conseguiu apoio dos leitores e foi bancado por meio da plataforma Catarse, de financiamento coletivo do tipo crowdfunding.
  • Leia o volume três da série EntreQuadrosCírculo Completo, gratuitamente on-line clicando AQUI.
  • Baixe um wallpaper extraído do Flickr do autor AQUI (todos os direitos reservados).
  • Para conhecer outros trabalhos do Mário, não deixe de conferir o SITE dele, ou acompanhá-lo pelas redes sociais: Facebook, Twitter e Flickr.

Postagens Relacionadas:

Ficha Técnica

Título: Ciranda da Solidão
Autor(a): Mário César
Editora: Balão Editorial
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 96
Baixe um trecho: AQUI
Sinopse: Uma história bem contada tem que ter uma trama envolvente e personagens complexos envolvidos em relações humanas verossímeis que permitem ao leitor se identificar com o que acontece e projetar suas próprias emoções na narrativa. Posto isso, Mário César, em Ciranda da Solidão, conta cinco soberbas histórias sobre pessoas lidando com dramas reais como ciúmes, nostalgia, a descoberta da sexualidade na adolescência, encontros e desencontros amorosos, entre outras coisas. Todos temas caros a qualquer pessoa. Mas o grande charme dessas HQs é que são protagonizadas por homossexuais, e cada uma mostra um aspecto do universo LGBT, como um adolescente descobrindo-se atraído por um colega, um idoso se lembrando de seu amor, um casal de lésbicas com complicações no relacionamento, temas que ao mesmo tempo são específicos e universais, pois os roteiros nos fazem mergulhar em emoções com as quais todo mundo se identifica. Mário César faz tudo isso em uma arte elegante e direta, que favorece a fluidez da história.

Onde comprar:
Balão Editorial | Saraiva | Submarino | Americanas

Anúncios

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s