Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, de Philip K. Dick

Eu não existo, ele disse a si mesmo. Não existe nenhum Jason Taverner. Nunca existiu e nunca existirá. Que se dane minha carreira, só quero viver. Se alguém ou algo estiver querendo liquidar minha carreira, o.k., que o faça. Mas não terei permissão para ao  menos existir? Sequer nasci?
Philip K. Dick, Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, pág. 27.

Quem acompanha o blog deve ter visto que há poucos dias resenhei um livro de Philip K. Dick, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, meu autor favorito. Então, cá estou eu para falar de outro título do autor, que eu li bem antes do outro, mas que só agora consegui escrever sobre. Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial é não só a prova de que PKD tinha afinco por títulos excêntricos, como também é um dos seus melhores trabalhos. Além de ser um dos romances premiados do autor, é ainda um dos mais herméticos e curiosos em relação à sua construção.

Philip K. Dick
Philip K. Dick

A demora em escrever este texto se deu basicamente por dois motivos. Primeiro pela complexidade dos temas abordados que fazem com que ao final da leitura fiquemos extasiados em reflexões, uma espécie de ressaca literária. Segundo, porque me veio certo bloqueio em relação ao que falar de um livro tão intenso, curioso e atual  ainda que lançado originalmente em 1974. Como costumo dizer, PKD é um dos maiores profetas da ficção científica, e não só em relação ao desenvolvimento tecnológico. A vida do autor foi regida por constantes situações – inexplicáveis para ele – relacionadas a coincidências, experiências espirituais com entidades abstratas, revelações, etc.

Mas vamos falar do livro. A trama se passa em 1988, em um futuro (para o autor) distópico. Los Angeles vive sob um regime estatal onde a polícia é a instância máxima, resultante de uma Segunda Guerra Civil. Nesse contexto, viagens e colônias interplanetárias (em especial Marte) são comuns, carros voadores são realidade, os estudantes são confinados nos subterrâneos das universidades e os infratores da lei são levados para campos de trabalhos forçados. Em meio a tudo isso, há uma supervalorização da mídia televisiva e Jason Taverner, nosso protagonista, é a celebridade mor. O programa semanal de Jason, uma espécie de talk show no qual ele canta e apresenta, é exibido para cerca de 30 milhões de telespectadores. Ou seja, todo mundo que ainda vive nos Estados Unidos sabe quem ele é.

Certo dia, ao final do seu programa, Jason é interpelado por uma ex-amante, Marilyn Mason. Ela o faz ir até seu apartamento e o entrega uma criatura extraterrestre descrita como “a gelatinosa esponja-do-abraço de Calisto”. A criatura é uma espécie de parasita letal, que penetra na pessoa utilizando tubos de alimentação tentaculares. Jason desmaia e acorda no dia seguinte em um quarto de hotel sem saber como foi parar ali. Todos os seus documentos de identificação sumiram, e ao contatar seus conhecidos, ele descobre que ninguém sabe quem ele é, como se ele nunca tivesse existido. A partir daí Jason parte numa corrida desenfreada contra o tempo para provar que realmente existe e não é uma “despessoa”. O conflito inicial é embasado no fato de que, sob o regime totalitário vigente, não ter identificação é um crime que obrigaria o protagonista a trabalhos forçados nos centros de concentração. A polícia está sempre vigilante e realiza blitzes constantes, assim o herói é obrigado a entrar na clandestinidade.

Ao longo da trama, muitas personagens contribuem para o desenvolvimento da “aventura” de Jason: Heather Hart, colega profissional e amante de Jason; Al Blis, seu empresário; Kathy Nelson, uma garota de 19 anos que fabrica documentos falsos e ajuda Jason a burlar a fiscalização da polícia; Félix Buckman, o general da polícia encarregado do caso de Jason; Alys Buckman, irmã do general que simpatiza com Jason e aos poucos vão se tornando amigos; Ruth Rae, uma espécie de prostituta de sexo por telefone; e Mary Anne Dominic, uma fabricante de utensílios de cerâmica. Todos, em maior ou menor grau cruzam com o protagonista, imprimindo influências sobre o desenrolar da trama.

Capas estrangeiras, parte 01 (clique para ampliar)
Capas estrangeiras, parte 01 (clique para ampliar)

Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial traz muitos elementos já trabalhados pelo autor em outras obras, como o uso de drogas, viagens interplanetárias, supervalorização do showbiz, a paranoia social, o avanço tecnológico, a necessidade de preenchimento espiritual do ser humano, entre outros. Mas nessa obra, considerada por ele mesmo seu melhor trabalho até então, PKD lança mão de novos pontos de discussão, alguns deles tão complexos que tornam este um dos seus livros mais enigmáticos e precursor de outros como Radio Free Albemuth e a trilogia Valis (Valis, A Invasão Divina e A Transmigração de Timothy Archer).

O principal ponto de discussão do livro, ou pelo menos o mais notório, é a questão da identidade e da perda da mesma. Mas o autor discute também sobre: redenção, à medida que as personagens buscam uma forma de superar suas mágoas e transgressões; genética, já que o protagonista e sua colega Heather são Seis, um grupo de pessoas geneticamente modificadas para serem perfeitas; política, ao colocar o Estado sob regência policial, aludindo também ao abuso de poder dos mesmos que vez por outra já observamos no nosso dia a dia; incesto, os irmãos Félix e Alys têm uma relação incestuosa e um filho fruto desta, Barney; e por fim, a homossexualidade (isso em 1970, quando ele começou a escrever o romance), na trama Alys faz parte de um grupo lésbico, e relações homossexuais são comuns, inclusive relações pederastas já que a maioridade sexual foi reduzida para 13 anos, descritas no livro como “permitido por lei, mas ainda abominado”.

Além dos temas tão atuais, o livro é cercado por fatos curiosos, muitos deles relacionados à Bíblia. Após a publicação do livro, PKD estava conversando com seu padre sobre uma das cenas finais do romance, na qual o general Félix encontra um estranho, negro, num posto de gasolina. Félix está abatido e ao ver o homem negro surge uma conexão entre eles, silenciosa e compreensiva, que faz com que as lágrimas do policial parem de fluir. Ao ouvir isso, o padre alerta PKD de que inconscientemente ele havia escrito uma passagem da Bíblia, mais precisamente do livro Atos dos Apóstolos (ou só Atos em algumas versões). No escrito bíblico (pode ser conferido em Atos 8.26-40) o encontro acontece entre Filipe (ou Philip, mesmo nome do PKD) e um eunuco da Etiópia, negro. Filipe ajuda o eunuco a encontrar a paz convertendo-o ao cristianismo.

Intrigado com a coincidência, PKD que nunca tinha lido a Bíblia, foi para casa e passou a estudar o livro sagrado em busca de outras semelhanças. Eis que ainda no livro de Atos ele descobriu que o oficial romano que prendeu o apóstolo Paulo se chamava Félix, e asssim como seu personagem ocupava um cargo de autoridade. A cena do romance que narra o interrogatório de Félix e Jason também se assemelha ao interrogatório de Félix e Paulo na Bíblia (confira em Atos 23.23-24.27). Ao consultar um índice de nomes bíblicos, PKD descobre ainda que Jason é o nome de um personagem que só aparece uma vez na Bíblia e também no livro de Atos, Jasão (ou Jason). No romance Jason se abriga na casa de alguém para fugir da polícia, no texto bíblico a situação se inverte, é Jasão quem abriga fugitivos (confira em Atos 17.5-9).

Capas estrangeiras, parte 02 (clique para ampliar)
Capas estrangeiras, parte 02 (clique para ampliar)

Com tantas semelhanças, PKD passou a considerar o livro de Atos como um modelo ou inspiração inconsciente do seu romance. Posteriormente ele encontrou semelhanças entre um sonho do personagem Félix (pág. 243-244) com descrições bíblicas de Deus (Daniel 7.9 e Apocalipse 1.13,17). Em seus estudos, PKD descobriu que Félix significava “Feliz”, e então passou a usar o termo King Felix como um alusivo a Jesus em seus últimos trabalhos, mais precisamente em Valis. Nesse livro, um dos últimos da carreira do escritor, há também inserida na trama uma paródia de Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial intitulada O Andróide Chorou (The Android Cried Me a River no original).

Houve também coincidências na vida do autor. No final do ano em que o livro foi publicado ele conheceu uma traficante de drogas de 19 anos chamada Kathy, que assim como sua personagem namorava com um policial; e oito anos depois ele se viu numa situação parecida com a de Félix, na qual ele ajudou um estranho que precisava abastecer o carro e não tinha dinheiro, PKD o ajudou, mas nunca mais se viram.

Não bastasse tudo isso, o livro foi concebido enquanto PKD estava sob efeito de mescalina, uma droga alucinógena. Segundo seus relatos, ele já tinha vários esboços para o livro, mas foi ao experimentar a droga que ele teve o insight para escrevê-lo, e que por causa dela escreveu 140 páginas em 48 horas. Logicamente, o livro passou por várias revisões, entre 1970 e 1973, até atingir o ponto que o autor queria. Um tiro certeiro, além de ser considero por ele mesmo como seu melhor trabalho, o livro foi indicado para três prêmios importantes: o Nebula (1974), o Hugo Awards (1975) e o John W. Campbell Memorial Award (1975), vencendo neste último como melhor romance de ficão científica.

O título do livro faz referência à canção Flow My Tears, de John Dowland, um músico inglês renascentista, de quem PKD era fã. Dowland é referenciado em vários trabalhos de PKD. Nesse, além do título e da alusão às lágrimas do personagem Félix, o músico é apreciado por este mesmo personagem e cada parte do romance é epigrafada com uma estrofe da canção. Sendo a primeira:

Fluam, minhas lágrimas, emanem da fonte! Deixem-me, para sempre exilado, a lamentar; Onde canta sua infâmia a ave negra e triste, Deixem-me viver com meu pesar. (pág. 07)

Identidade Perdida (Editora Brasiliense, 1986)
Identidade Perdida (Editora Brasiliense, 1986)

Assim como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (antes O Caçador de Andróides), este livro não é inédito aqui no Brasil. O mesmo já havia sido lançado por aqui em 1986 pela editora Brasiliense sob o título Identidade Perdida – O Homem que Virou Ninguém. Assim como a maioria dos títulos do PKD lançados aqui na década de 1980, este também estava esgotado. Até ano passado, quando a editora Aleph presenteou os fãs com uma nova edição com excelente tradução de Ludmila Hashimoto. E o melhor, mantendo o título fiel ao original em inglês, Flow My Tears, the Policeman Said.

Sempre me empolgo para falar sobre esse autor. Espero que tenham lido até aqui, se sim, digo só mais uma coisa: Leiam!

Curiosidades:

  • Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial foi adaptado para o teatro em 1985. O roteiro da peça foi escrito por Linda Hartinian, uma amiga pessoal de K. Dick, e a direção ficou por conta de Bill Raymond, esposo de Linda.
  • Em 2009, a Halcyon Company anunciou uma adaptação para o cinema de Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial, no entanto, não foram divulgadas informações sobre o desenvolvimento do filme. As obras de Philip K. Dick já foram adaptadas várias vezes para o cinema. O próximo filme baseado em uma obra dele que será lançado será o homônimo Radio Free Albemuth, que estreia em 27 de Junho, trazendo no elenco a cantora Alanis Morissette.
  • Philip K. Dick escreveu sobre as coincidências em torno da sua obra, citadas no texto acima, em um ensaio intitulado How to Build a Universe That Doesn’t Fall Apart Two Days Later, leia-o na íntegra (em inglês) AQUI.
  • Ouça a canção Flow My Tears, de John Dowland, que inspirou o título do livro:

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Ficha Técnica

Título: Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial
Título original: Flow My Tears, the Policeman Said
Autor(a): Philip K. Dick
Editora: Aleph
Tradução: Ludmila Hashimoto
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1974
Páginas: 256
Sinopse: No romance “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial”, Philip K. Dick explora os limites entre percepção e realidade, criando uma impressionante distopia na qual Jason Taverner, um dos apresentadores mais populares da TV, um dia acorda sozinho num quarto de hotel e percebe que tudo mudou; que se tornara um ilustre desconhecido. E pior. Descobre que não há qualquer registro legal de sua existência. Dividido agora entre duas realidades, ele vê-se obrigado a recorrer ao submundo da ilegalidade enquanto tenta reaver seu passado e entender o que de fato aconteceu, dando início a uma estranha busca pela própria identidade. Ao unir à trama desconcertante uma sensível incursão no comportamento e nas emoções humanas, Philip K. Dick prende o leitor e faz desse livro um de seus trabalhos mais comoventes. Escrito em 1974, “Fluam, minhas lágrimas, disse o policial” [Flow My Tears, the Policeman Said] foi publicado pela primeira vez no Brasil nos anos 1980, sob o título Identidade Perdida: O Homem que Virou Ninguém. O livro foi indicado aos prêmios Nebula, em 1974, e Hugo, em 1975, ano em que venceu do prêmio John W. Campbell como melhor romance de ficção cientifica.

Onde comprar: Editora Aleph | Cultura | SaraivaFnacEstante Virtual

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