Restos Humanos, de Elizabeth Haynes

Restos Humanos

Pouco importava o que acontecesse, eles achariam esses restos humanos antes de ela ter a oportunidade de se transformar, como aconteceu com os outros. Era seu infortúnio, e uma pena, considerando como havia me servido tão bem hoje.
Elizabeth Haynes, Restos Humanos, pág. 107

Há exatamente um ano, eu acabara de ler o primeiro livro da Elizabeth Haynes publicado pela Ed. Intrínseca – No Escuro. Desde já, me encantei pela escrita dela e fiquei na expectativa por novos livros. Ainda não sei porque, mas acabei deixando passar o lançamento de Vingança da Maré, mas nada me impede de lê-lo agora. Quanto ao gênero, quem acompanha minhas resenhas ou mesmo convive comigo sabe que sou apaixonado por Thrillers, Romances Policiais, Suspenses, Terror/Horror, ou ainda os livros da Haynes, que são um mix de tudo isso e mais um pouco.

Como de praxe, a autora já conquista na escolha da temática. Em No Escuro ela encanta o leitor ao trazer uma personagem que sofre de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) como consequência de abusos sofridos por um ex-namorado. No segundo, Vingança da Maré, pelo que percebi ao ler a sinopse, ela envolve a personagem num perigoso submundo de corrupção, crimes e traições. Já em Restos Humanos, a autora nos leva a questionar o quanto conhecemos nossos vizinhos, e que, caso eles desapareçam – como acontece no livro – quanto tempo demoraríamos para sentir falta? Pode parecer um questionamento simples, mas considerando o conceito de que “vizinhos são pessoas que moram próximo/ao lado”, acredita-se que deva existir uma espécie de ligação entre elas. Mas isso realmente acontece?

Human Remains (Capas)
Capas Inglesa e Americana, respectivamente.

Aproveitando esse gancho, a história gira em torno de Annabel, uma analista de dados da polícia. Ela é uma típica antissocial – vive uma vida solitária, sem amigos, onde seu tempo é gasto apenas com trabalho e sua mãe doente. Como companhia, ela tem apenas uma gata, que é responsável por ajudá-la a encontrar o primeiro corpo. Mas vamos por partes: Certo dia, Annabel chega em casa e percebe que há algo errado com a casa ao lado – uma luz acesa, sendo que a casa estava para alugar a um bom tempo. Ignorando isso, ela decide apenas que vai dar comida a sua gata e descansar, mas percebe que a gata está suja de alguma coisa fétida que ela não consegue identificar.

Ao colocá-la para fora, ela sente que o cheiro (da gata) fica mais forte e percebe que ele vem da casa vizinha. Depois de verificar a casa, ela acaba encontrando sua vizinha, morta na sala em um elevado estado de decomposição. Indignada por não ter sentido sua falta, e com medo de que isso aconteça com ela, já que mora sozinha, Annabel usa seu trabalho para verificar a frequência com que corpos são descobertos em suas casas, após um longo tempo, e que apenas faleceram, sem nenhuma causa aparente. E ela se surpreende ao descobrir que são muitos. Durante essa busca, ela acaba ganhando um amigo/aliado que também está interessado nesses casos, Sam.

Paralelo a isso, somos apresentados a Colin. Este, de personalidade forte e marcante, é o grande responsável pelas mortes. Falar sobre ele e seus atos perderia todo o encanto durante a leitura. Até porque estas são as mais interessantes. Ainda seguindo um padrão, Elizabeth Haynes narra tudo em primeira pessoa, o que eu particularmente acho incrível, pois podemos perceber melhor as personalidades das personagens. Assim, percebemos quão frio Colin consegue ser, quando ele interage com o leitor, como nos quotes a seguir:

Você quer saber como tudo começou, não é? Quer descobrir como foi que saí de um curso para adultos de mentes entorpecidas, no qual ensinava a fazer amigos e influenciar pessoas, e passei a orientar desconhecidos a acharem o caminho da autodestruição.” p.195.

“Você quer saber como eu faço, não é? Posso imaginar seu interesse ardente, sua curiosidade, que os outros podem classificar como mórbida: posso ver no brilho de seus olhos. Pois bem, me pergunte. Vamos. Sei que você está morrendo de vontade de… p.89.

Parafraseando uma crítica da capa, a autora foi extremamente ambiciosa ao escrever este livro. Primeiro porque, ao revelar o “assassino” nas primeiras páginas, o livro tinha tudo para dar errado, mas não deu. E segundo, pelo fato das personagens interagirem diretamente com o leitor, o que, para alguns, pode parecer apelativo. Mas aqui estou para dizer que ela acertou na escolha do tema, das personagens, da construção do enredo e em tudo o mais. Com capítulos curtos e intercalados, a leitura se torna extremamente rápida. As reviravoltas e conflitos tornam a leitura instigante, também. Outro detalhe extremamente interessante são as crônicas/matérias do Briarstone Chronicle, onde a autora dá voz às vítimas.

Elizabeth Haynes
Elizabeth Haynes

Como sempre, gosto de fazer um comparativo entre os livros do autor que já li e, apesar de Restos Humanos ser um livro incrível, eu ainda gostei mais da leitura de No Escuro. Mas o único motivo é que, em Restos Humanos, as justificativas, embora sejam excelentes, ainda não são suficientes para “convencer” (na falta de um adjetivo melhor).

E, só reafirmando minha opinião sobre a diagramação da Intrínseca, que embora seja lindíssima e ajude no baixo custo dos livros (descobri depois de ir numa Turnê Intrínseca), ainda assim, a fonte pequena e o espaçamento mínimo tornam a leitura “cansativa”, devido ao excesso de texto por página. No mais, é um livro instigante e perturbador. Leiam!

Outras Obras do Autor:

  • No Escuro (Ed. Intrínseca)
  • Vingança da Maré (Ed. Intrínseca)

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Ficha Técnica

Restos HumanosTítulo: Restos Humanos
Título Original: Human Remains
Autor(a): Elizabeth Haynes
Editora: Intrínseca
Tradução: Mauro Pinheiro
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 320
Baixe um Trecho: AQUI
Sinopse: Você conhece bem seus vizinhos? Saberia dizer se eles estão vivos ou mortos? Ao encontrar por acaso o corpo de uma vizinha em avançado estado de decomposição, Annabel Hayer, que trabalha com análise de informações para a polícia, fica horrorizada ao pensar que ninguém — e isso inclui ela mesma — sentiu falta daquela mulher. De volta ao trabalho, ela vasculha os arquivos policiais e encontra dados que mostram um aumento significativo de casos como aquele nos últimos meses em sua cidade. Conforme aprofunda a investigação, Annabel parece cada vez mais convencida de estar no rastro de um assassino, e é obrigada a enfrentar os próprios demônios e a própria fragilidade. Será que alguém perceberia se ela simplesmente desaparecesse? Um thriller psicológico extremamente perturbador, Restos humanos fala de nossos medos mais obscuros, mostrando como somos vulneráveis — e a facilidade com que vidas podem ser destruídas quando não há ninguém que se importe com elas.

Onde comprar:
Cultura | Saraiva | Estante Virtual

4 comentários

  1. Este livro para mim foi um desempate. Pois amei No escuro e detestei Vingança da Maré. Restos Humanos provou que Haynes é uma escritora promissora. Da mesma forma que ela conseguiu passar toda a angústia de um portador de TOC no seu primeiro livro, neste ela criou um clima todo depressivo para falar de solidão. Mas apesar de melancólica a história é instigante. Mostrar o assassino logo no início realmente foi ousado, mas logo deu para entender que o verdadeiro mistério era como ele matava. Achei um pouco forçado seu método, mas isso não desmereceu o livro. E concordo plenamente contigo quanto à fonte, que truncou bastante a leitura. Se quiser ver meu post sobre Elisabeth Haynes, em meu blog, segue o link logo abaixo. Abraços.

    http://porquelivronuncaenguica.blogspot.com.br/2014/04/toc-pole-dance-e-solidao.html

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    • Olá Ronaldo, definitivamente adorei seu texto e adoro Elizabeth Haynes, até porque ainda não li Vingança da Maré.
      Lembro que no seu texto você cita o poder que ela tem nas descrições, e eu concordo. Particularmente odeio descrições prolongadas, mas ela sabe como fazê-las sem ser cansativo.
      Lerei Vingança da Maré apenas para tirar minhas próprias conclusões, mas não vou negar que minhas expectativas são minimas.

      Abraços.

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