O Sono e a Morte, de A. J. Kazinski

Quase todos os policiais têm um caso que os marca particularmente. Eles se lembram desse caso até o dia da sua morte. Não raramente até lhe consagram um livro quando aponsetados, como uma forma de passar o tempo.
A. J. Kazinski, O Sono e a Morte, pág. 448

A maioria dos apreciadores de thrillers, e literatura policial em geral, sabe que os países escandinavos são os mais prolíficos quando se refere a esse gênero. Claro, o berço do mesmo está no Reino Unido, com muitas contribuições e crescimento na França, e contemporaneamente nos Estados Unidos. Contudo, são os escandinavos – Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia – que mais ascendem, tanto em quantidade quanto em qualidade, em detrimento das nacionalidades supracitadas, já estabalecidas nesse mercado.

Nos últimos anos muitos nomes de origem nórdica vieram à tona aqui no Brasil. A começar por Stieg Larsson, que não só popularizou a literatura policial sueca como abriu porta para a importação de muitos outros autores. Lars Kepler (pseudônimo de Alexander e Alexandra Ahndoril), Jo Nesbø, John Ajvide Lindqvist, Henning Mankell, Anne Holt, Liza Marklund, Camila Lackberg, Lene Kaaberbøl e Agnete Friis, entre tantos outros que tornariam essa lista gigantesca. Ademais, se você for um dos tais apreciadores do gênero, devo dizer que você precisa conhecer um novo nome A. J. Kazinski, que já tem dois títulos publicados aqui no Brasil pela editora Tordesilhas: O Último Homem Bom, seu romance de estreia e O Sono e a Morte, o lançamento mais recente e sobre o qual vos falo.

A. J. Kazinski
A. J. Kazinski (Anders Rønnow Klarlund e Jacob Weinreich)

Antes de mais nada, é preciso saber que A. J. Kazinski é só um pseudônimo de dois autores dinamarqueses, Anders Rønnow Klarlund e Jacob Weinreich. E ainda que este é o segundo volume de uma série protagonizada pelo policial Niels Bentzon, iniciada com O Último Homem Bom, mas que pode ser lido de forma independente já que narra um novo caso na carreira do policial. No entanto, alguns acontecimentos do primeiro livro contribuem para o desenvolvimento deste, em especial o fato de que no livro anterior Niels conhece sua esposa, que tem um papel muito importante neste. É também no primeiro que um dos temas deste é mencionado, Experiência de Morte Iminente (EMI).

A trama começa com Niels, o melhor negociador da polícia dinamarquesa, sendo chamado para convencer Dicte van Hauen a não cometer suicídio. Dicte é uma bailarina do Balé Real de Copenhague e está à beira de uma ponte, aparentemente sob efeito de drogas e determinada a pular. Niels nunca falhou em nenhum caso de negociação, seja em suicídio ou sequestro, até agora, pois ele não consegue evitar que Dicte pule. Intrigado com a situação em que a moça estava, nua, drogada e assustada, Niels decide investigar. Eis que na autópsia surge a prova de que havia água salgada nos pulmões de Dicte e marcas de desfibrilador em seu peito, ou seja, ela havia sido afogada e ressuscitada antes de se suicidar. Assim começa uma busca desenfreada e às cegas em busca do possível assassino.

Eu sou o Sol. Emito meus raios para eles. Assim como Dicte, no palco, brilhava para o seu público. (pág. 307)

O livro é dividido em três partes: O Livro do Sangue, O Livro das Almas e O Livro da Eternidade. Em cada uma delas os autores se utilizam de uma técnica diferente para desenvolver a trama, que ao final resulta numa mescla de subgêneros do thriller. Em O Livro do Sangue a grande questão é saber quem é o tal assassino, bem ao estilo who dunnit. Por ser a principal estrela do corpo de balé, Dicte era alvo da inveja dos seus colegas e ainda tinha relações conturbadas com sua família por conta de um trauma de infância. Ao final dessa primeira parte sabemos quem é o tal assassino. Em O Livro das Almas o leitor já sabe quem é o assassino, mas a polícia não, e vamos seguindo na narrativa sob o seu ponto de vista, entendendo seus motivos e métodos. Aqui os autores usam elementos comuns do thriller psicológico, que em geral é centrado no assassino e no funcionamento de sua mente, na maioria das vezes doentia.

Na última parte, O Livro da Eternidade, a polícia também já está a par da identidade do assassino. Agora a questão é se e como vão capturá-lo. Então começa uma corrida contra o tempo em busca do fugitivo que tenta desesperadamente concluir o seu plano doentio. Nessa parte, o livro se utiliza de elementos do thriller noir, com cenas de ação em que o policial, no caso Niels, se envolve pessoalmente com o caso e resolve fazer uma justiça pelas próprias mãos. Além destes, toda a trama é permeada de nuances do thiller de conspiração também. Muitas vezes, misturar tantos subgêneros não é algo muito interessante, pois pode fazer com que o autor se perca na narrativa, não é este o caso. A trama de Kazinski é intrincada e bem construída, tampouco se perde ao longo das quase 500 páginas.

A Noite com seus filhos, o Sono e a Morte, relevo de  Bertel Thorvaldsen, 1815.
A Noite com seus filhos, o Sono e a Morte, relevo de Bertel Thorvaldsen, 1815.

A escrita de Kazisnki é bem trabalhada e sofisticada. Os autores conseguem prender a atenção do leitor de várias maneiras, em especial pela construção bem feita dos seus personagens, pela narrativa ágil em capítulos curtos, pelas referências e ainda pelas temáticas curiosas e densas. Quem é fã de Dan Brown vai adorar esse livro. Os autores usam a obra do escultor Bertel Thorvaldsen, A Noite com seus filhos, o Sono e a Morte, como uma das chaves de todo o mistério. Um prato cheio para quem curte thrillers recheados de referências à história da arte. Além desta, o livro Fédon, de Platão, é uma outra chave importante, nessa obra é narrada as circunstâncias da morte de Sócrates e tem como tema central a discussão da imortalidade da alma.

Um dos temas principais do livro são as Experiências de Morte Imimente, ou experiências de quase morte. São aquelas situações em que a pessoa “morre” por alguns minutos e em seguida é reanimada e volta à vida. O tema é polêmico e há quem acredite ou não, contudo, os autores se baseiam em relatos de especialistas no assunto para compor alguns personagens. Esse é o perfil de escolha do assassino, pessoas que já passaram por uma EMI. Nesse ponto, o romance ganha ainda uma pitada de realismo fantástico ao utilizar elementos da parapsicologia.

O Sono e a Morte tem uma narrativa multifocal e acompanha quatro pontos de vista: Niels em sua investigação; o assassino na sua tentativa de efetivar seu plano; Hannah Lund, esposa de Niels, que passa por um drama psicológico e é constantemente assombrada por fantasmas do passado; e Silke, uma garotinha que está internada em um hospital psiquiátrico infantil. Os capítulos que acompanham Silke são os únicos narrados em primeira pessoa, o que gera uma contraste com a personagem, já que a mesma é muda e ficou assim por conta de um transtorno de estresse pós-traumático. Aos poucos, as tramas que seguem paralelas convergem para um ponto onde a trama maior é finalmente revelada.

Eu poderia continuar falando sobre as várias nuances da narrativa dos autores ou dos temas abordados. Contudo, há muito além de tudo isso para descobrir na leitura. Acredite, não falei sobre a metade das discussões que o livro evoca. Tampouco revelei sobre a trama que a cada momento é acrescida de um novo elemento e reviravolta. Com toda certeza este é um dos melhores thrillers que eu li entre o ano passado e este. A. J. Kazinski figura agora no rol dos meus autores escandinavos favoritos. Vale a pena conhecer, em especial pelos já fãs do gênero.

Melhores quotes:

O amor não é a última desculpa que autoriza os comportamentos criminosos? (pág. 19)

A angústia é abstrata. O medo, por sua vez, é real. Palpável. Temos medo dos predadores. Dos veículos. Dos acidentes na estrada. Das doenças. A angústia é outra coisa. Ela nos escapa, é viscosa como um sapo. (pág. 37)

O silêncio é minha arma. Porque falar perdeu todo o sentido. Para mim as palavras não existem mais. Eu não as encontro mais. Assim, basta-me ouvi-las. (pág. 71)

Quando começamos a dar lições de civilidade para adultos, é porque já ultrapassamos a data de validade. (pág. 75)

Por que será que alguém teve a ideia absurda de nos fazer permanecer num corpo humano? (pág. 436)

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Ficha Técnica

Título: O Sono e a Morte
Título original: Søvnen og Døden
Autor(a): A. J. Kazinski
Editora: Tordesilhas
Tradução: Cristina Cupertino
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 464
Baixe um trecho: AQUI
Sinopse: Em O sono e a morte, segundo livro dos autores, o herói Niels Bentzon, negociador da polícia, está de volta. Uma noite ele é chamado para intermediar o caso de uma mulher que ameaça se jogar de uma ponte de Copenhague. Quando chega ao local, Niels percebe algo estranho na situação. A mulher está nua e drogada,olhando para a multidão que a observa. Mais do que perturbada, ela parece aterrorizada. Apesar dos esforços de Niels, o desfechoé trágico. Os policiais tratam a ocorrência como um suicídio comum, mas Niels senteque ocaso é diferente. Na autópsia surgea primeira reviravolta. Havia água no pulmão e marcas de desfibrilador no corpo da mulher. Antes de pular da ponte, ela havia sido afogada e ressuscitada. Com poucas pistas, Niels começa uma caçada ao responsável por aquela morte. No caminho, encontrará pessoas dispostas a acabar com a sua vida para evitar que ele descubra a verdade.

Onde comprar:
TordesilhasCulturaEstante Virtual | Saraiva

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