Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick

Como todos sabemos, a punição nunca foi muito dissuasiva, e servia de pouco consolo a uma vítima já morta.
Philip K. Dick, O relatório minoritário. in: Realidades Adaptadas, pág. 129.

Há pouco menos de um mês, postei duas resenhas de livros do Philip K. Dick (PKD). Nas duas ocasiões mencionei que ele é meu autor favorito, reitero a informação mais uma vez. É provável que quem acompanha o blog, ouça falar dele muito ainda pela frente, principalmente por aqui. Dessa vez, falarei a respeito de alguns contos do autor compilados em uma edição exclusiva da Editora Aleph, intitulada Realidades Adaptadas.

O título veio a calhar, afinal PKD é o autor de ficção científica mais adaptado para o cinema. Nesse mês, estreia o décimo terceiro longa metragem baseado em obra do autor, Radio Free Albemuth, estrelando a cantora e atriz Alanis Morissette. Ao todo, já foram adaptados quatro romances e sete contos, sem mencionar os filmes em curta metragem e os projetos em andamento. O livro Realidades Adaptadas é justamente a reunião desses sete contos que inspiraram adaptações cinematográficas.

Philip K. Dick
Philip K. Dick

A escrita de PKD é sempre muito inventiva, dificilmente alguém lê uma sinopse de livro do autor e não fica curioso. Além das temáticas recorrentes e pertinentes, PKD possuía uma verve ímpar para criar suas histórias. Foi prolífico tanto no romance como no conto, chegando a publicar 121 contos. É quase impossível falar de modo geral sobre seus escritos, independente da estrutura narrativa. Cada história de PKD traz uma discussão nova ou acrescenta um tópico em temas já discutidos do autor. Como ele mesmo ressaltava em entrevistas, suas inquietações e questionamentos dificilmente eram esgotáveis, assim, sempre que possível, ele escrevia sobre elas, a saber a dicotomia entre realidade e ilusão, a rivalidade entre o homem e a máquina, os avanços tecnológicos e genéticos, drogas, política, religião, entre outros.

Para uma melhor abordagem dos contos, falarei um pouco de cada um individualmente. Como os filmes, na maioria das vezes, são apenas inspirados nos contos e suscitam outras discussões, tratarei de cada um deles futuramente em resenhas individuais e, quando possível, farei uma comparação à narrativa original. Por enquanto, quero me ater apenas aos contos e detalhes mais superficiais dos filmes. Vamos a eles.

Lembramos para você a preço de atacado (1966)

Os contos seguem a ordem em que foram adaptados. Assim, o primeiro é Lembramos para você a preço de atacado (We can remenber it for you wholesale), adaptado para o cinema duas vezes, com o título O Vingador do Futuro (Total Recall). A primeira em 1990, dirigida pelo holandês Paul Verhoeven com Arnold Schwarzenegger no papel principal; e a segunda em 2012, com direção do norte-americano Len Wiseman e com Colin Farrell interpretando o protagonista.

O conto narra a história de Douglas Quail, um homem insatisfeito com sua vida de assalariado sem grandes perspectivas de futuro. Seu maior sonho é conhecer Marte, mas a viagem está fora do seu orçamento financeiro. Como alternativa ele busca a empresa Rekordar S.A., que oferece um serviço de implantação de memória a um preço razoável. De acordo com a empresa, Douglas não só terá as lembranças de uma temporada em Marte como também receberá souvenires para provar aos amigos que fez realmente a viagem. Acontece que no momento da experiência algo inesperado acontece e o protagonista se vê numa corrida contra o tempo para se proteger de agentes do governo que, ao que parece, sabem mais sobre sua vida do que ele próprio.

Nesse conto, PKD põe em xeque os conceitos de realidade através do questionamento sobre o que Douglas realmente é. Um tema recorrente na obra do autor, no qual ele costuma inserir personagens que não sabem se são de fato máquinas ou seres humanos, isso aparece em outros contos dessa seleção. Aqui é posto de outra forma, Douglas se não questiona sobre o quê, mas sobre quem ele é. A identidade do mesmo é posta à prova em relação ao que justamente ele acreditava ser.

Segunda variedade (1953)

Segunda variedade (Second variety) foi adaptado para o cinema em 1995, sob o título Screamers: Assassinos Cibernéticos (Screamers), dirigido pelo canadense Christian Duguay e protagonizado por Peter Weller. Posteriormente em 2009 o filme ganhou uma continuação, também baseada no conto, Screamers: A Caçada (Screamers: The Hunting), com direção de Sheldon Wilson.

A trama do conto se passa durante um conflito bélico entre os Estados Unidos e a Rússia. A União Soviética bombardeou a América do Norte e praticamente dizimou seus territórios em bombardeios, os líderes do Governo americano se mudaram para uma base lunar secreta na tentativa de se protegerem. Numa tentativa de reverter a situação da guerra os EUA desenvolvem as Garras, uma espécie de robô programado para matar. As guarras destroem quem encontrar pela frente, exceto aqueles que tiverem usando uma pulseira de identificação.

O grande conflito da narrativa se dá quando se descobre que as máquinas estão evoluindo sozinhas e criando novas variedades. A abordagem do conto chega a ser macabra em determinado momento, em especial por causa da variedade três, os Davids, que são garotinhos magrinhos e de aparência faminta com ursos de pelúcia nas mãos e que costumam perguntar “Posso ir com você?” antes de matar suas vítimas. Aqui, PKD discute os avanços tecnológicos e a substituição do humano pelo maquinário.

Impostor (1953)

Impostor (2001)
Impostor (2001)

O conto Impostor (Idem) originou o filme homônimo, dirigido pelo norte-americano Gary Fleder. De todas as adaptações essa é tida como uma das mais fieis à narrativa de PKD.

Particularmente, acho esse o menos interessante dos contos. Não é ruim, muito pelo contrário, mas em comparação aos demais fica aquém. Na trama, a Terra está em pé de guerra com uma raça alienígena. Spencer Ollham é uma espécie de cientista que trabalha em um projeto do Governo que visa acabar com a Guerra, derrotando os alienígenas. No entanto, os extraterrestres tentam se infiltrar, usando robôs espiões, para tentar descobrir o que os terráqueos planejam. O conflito do conto surge quando Spencer é acusado de ser um espião com uma bomba que pode ser acionada a qualquer momento. Sendo ele um dos principais responsáveis pelo projeto ele precisa provar que não é um espião, antes que seja morto pelos oficiais de segurança. Mais uma vez PKD usa a temática da identidade, ao colocar o protagonista diante da dúvida sobre o que ele é de fato. O final do conto é um dos mais bacanas, por ser inusitado e fugir um pouco do padrão.

O relatório minoritário (1956)

Minority Report - A Nova Lei (2002)
Minority Report – A Nova Lei (2002)

Aqui está um dos melhores contos, e por consequência um dos melhores filmes adaptados. O relatório minoritário (The minority report) foi adaptado para o cinema como Minorit Report – A Nova Lei (Minority Report) em 2002, dirigido por Steven Spielberg e com Tom Cruise no papel do protagonista John A. Anderton. Além disso, foi uma das adaptações mais bem sucedidas. A trama serviu de inspiração também para o anime Psycho-pass.

Conto e filme se distinguem em muitos aspectos, mas assim como acontece com Blade Runner Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, ambas as versões se complementam. Na história a polícia usa um sistema que prevê os crimes antes mesmo de eles acontecerem. O sistema pré-crime funciona através de três precogs, pessoas com o dom de prever o futuro (elemento frequente na obra Philipkdickiana, vide Ubik). John Anderton chefia o sistema de polícia, que praticamente eliminou os homicídios e outros crimes graves. Até que, certo dia, o sistema imprime o nome de Anderton, acusando-o de futuramente matar um homem. No entanto, Anderton acredita tratar-se de uma armação contra ele, já que ele nem pensa em matar ninguém, tampouco conhece ou ouviu falar na vítima.

A partir de então, Anderton questiona a eficácia do sistema, ao passo que tenta provar sua inocência. E por falar em inocência, eis que entramos na discussão proposta pela autor. Na possibilidade de prever os crimes, seria correto prender antecipadamente os criminosos já que até então eles são inocentes? Ou ainda, caso o possível criminoso saiba o que foi previsto e, temendo a prisão, mude de ideia? O futuro é uma constante ou uma variável? Essas e outras questões são suscitadas durante a leitura. Com certeza, um dos meus favoritos, individualmente, livro e filme, cada um à sua maneira.

O pagamento (1953)

O Pagamento (2003)
O Pagamento (2003)

O Pagamento (Paycheck) originou filme homônimo que estreou em 2003 com John Woo na direção e trazendo no elenco nomes como Ben Affleck, Aaron Eckhart e Uma Thurman.

Esse é outro conto muito interessante, que supera o filme em muitos aspectos, sobre os quais falarei em post futuro. Entre os contos de Realidades Adaptadas, esse é um dos mais engenhosos. Na trama, o técnico Jennings é contratado por dois anos pela Construtora Rethrick, na condição de que sua memória do período no qual trabalhou para a empresa seja apagada após o término do contrato. Na hora de receber seu pagamento de cinquenta mil créditos, ele recebe apenas um saco com bugigangas sem nenhum valor aparente. No contrato constava sua assinatura, pedindo a mudança no pagamento, antes de sua memória ser apagada. Ao sair do prédio, Jennings é preso e consegue escapar usando dois dos itens que estavam no saco. A partir daí ele começa a desconfiar de que havia previsto isso de alguma forma antes de ter sua memória apagada. Começa então uma aventura na qual o protagonista tenta descobrir o que aconteceu na empresa e o que ele havia planejado. O conto é muito bem construído e traz uma temática muito interessante, mas deixo que descubram os detalhes com a leitura.

O homem dourado (1954)

O Vidente (2007)
O Vidente (2007)

Outro conto muito interessante de PKD. O Homem Dourado (The golden man) serviu de inspiração para O Vidente (Next), filme dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori. De todos é o que menos se aproxima da narrativa original, sendo apenas levemente inspirado. O filme traz no elenco Nicolas Cage e Julianne Moore.

Na narrativa, os seres humanos vem sofrendo mutações genéticas que lhes dão superpoderes ou habilidades sobre-humanas. Vistos como uma ameaça à raça humana, os mutantes são caçados por uma organização do Governo chamada ACD. Cris Johnson é um garoto de 18 anos que possui uma coloração de pele dourada e um juba que o faz parecer um leão, além disso ele tem o dom de prever o futuro imediato, dom que o permitiu não ser pego durante todo esse tempo. Até que um agente da ACD, George Baines, o captura.

Um dos pontos mais interessantes deste conto é que, já em 1954, ele abordava a temática dos mutantes como uma ameaça à raça humana antes mesmo de surgirem os mutantes dos quadrinhos X-men (1963). No conto de PKD já é discutido a mesma argumentação usada nas histórias dos mutantes da Marvel, sobre o homo superior ser a evolução que eliminará o homo sapiens. Assim como o Cro-Magnon se apresentou mais aperfeiçoado que os Neandertais.

Equipe de ajuste (1954)

Os Agentes do Destino (2011)
Os Agentes do Destino (2011)

O último conto, Equipe de ajuste (Adjustment team), deu origem ao filme Os Agentes do Destino (The Adjustmen Bureau) em 2011, dirigido por George Nolfi e estrelado por Matt Damon e Emily Blunt.

No conto, Ed Fletcher é um funcionário que detesta seu emprego, mas precisa chegar no horário para não despertar a ira do seu chefe. Certo dia, uma equipe de ajustes (uma espécie de modificadores do espaço-tempo que organizam para que tudo funcione perfeitamente no mundo real) precisa fazer algumas modificações na empresa para a qual Ed trabalha. Para isso eles precisam fazer com que Ed chegue mais cedo ao trabalho, mas algo sai errado e Ed chega depois do horário previsto, no momento em que a equipe estava realizando as mudanças. Assim, ele acaba descobrindo a existência da equipe de ajuste, que na verdade são como “anjos da guarda”, a descoberta abala seu mundo e o coloca à beira da loucura, uma linha tênue entre o real e o imaginário. Muito interessante.

Por fim, não posso prolongar ainda mais este post, rs. Há muito ainda de interessante para abordar sobre cada história, seja no conto ou no filme. Mas como já dito, farei isso individualmente na resenha de cada filme. Alguns desses contos já foram publicados aqui no Brasil em outras antologias, entre elas O Pagamento (Ed. Record), Minority Report – A Nova Lei (Ed. Record) e O Vingador do Futuro (Ed. Paulicéia). Todavia, essa edição especial da Editora Aleph traz uma nova tradução dos contos, de Ludmila Hiashimoto, além de notas do próprio autor. Numa dessas notas ele fala sobre sua abordagem dos mutantes em O homem dourado, que a princípio se chamava O Deus que Corria (The God Who Runs). Vale muito a pena ler, tanto para quem já gosta do autor como para aqueles que ainda não o conhecem.

Postagens relacionadas:

Ficha Técnica

Título: Realidades Adaptadas
Autor(a): Philip K. Dick
Editora: Aleph
Tradução: Ludimila Hashimoto
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 304
Sinopse: Pouco conhecido no Brasil por sua obra literária, Dick é um sucesso entre as plateias de cinema. A fim de lhe prestar o devido reconhecimento, este livro reúne, em uma edição inédita no mundo, os contos do autor que foram adaptados para a sétima arte, levando ao grande público os textos originais que inspiraram roteiristas e diretores a realizar O Vingador do Futuro, Screamers, Impostor, Minority Report, O Pagamento, O Vidente e Os Agentes do Destino.

Onde comprar:
Editora Aleph | Cultura | SaraivaFnacEstante Virtual

Anúncios

2 comentários

  1. Bela resenha. Já tinha lido esse post mas só agora decidi ler PKD, coloquei na minha meta literária de 2015 ler o máximo dele que conseguir.

    Curtir

    • Oi Régis,
      Fico muito feliz que tenha lido PKD, como sempre repito: é meu autor favorito. Espero que goste da leitura dele. Obrigado por vir comentar aqui no post.
      Boas leituras.
      Abraços.

      Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s