Loucura…, de Mário de Sá-Carneiro

Loucura…, de Mário de Sá-Carneiro

Loucura? — Mas afinal o que vem a ser a loucura?… Um enigma… Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos…
Mário de Sá-Carneiro, Loucura…, Cap. 05

Quem leu meu último texto, Dançando Sobre Cacos de Vidro, percebeu que tenho grande interesse por assuntos envolvendo transtornos psicológicos, além de todos os possíveis temas derivados deste. Agora, imagine quão curioso eu fiquei ao encontrar esse livro disponível gratuitamente na loja da Kobo. De imediato, já afirmo que sou grande admirador da obra do Mário de Sá-Carneiro. Este foi o único autor do Romantismo que eu tive curiosidade de ler os poemas. Acredito que, assim como a maioria das pessoas, meu contato com o trabalho dele se deu a partir da novela A Confissão de Lúcio, mas Sá-Carneiro tem uma obra vasta – entre romances, contos/novelas, peças e poesia.

Loucura… (ou “A Loucura…”) é uma das novelas publicadas no livro O Princípio (1912), que o Projecto Adamastor converteu, editou e disponibilizou nos formatos ePub e MOBI. Este projeto tem como principal objetivo atenuar a escassez envolvendo o mercado de livros digitais através da criação de uma biblioteca digital de obras literárias em domínio público, obras essas que são disponibilizadas de forma gratuita, sem qualquer tipo de restrição. O mais legal desse projeto é a preocupação com o texto final – não sendo apenas uma conversão comum. Eles se preocupam em criar um padrão de capas além de uma revisão minuciosa do texto. Conheça mais do Projecto Adamastor AQUI.

Outras Obras encontradas no Projecto Adamastor.
Outras Obras encontradas no Projecto Adamastor.

Quanto ao livro, a história é narrada pelo melhor amigo de Raul Vilar, o protagonista. Raul era um grande artista, um excelente amigo, apesar de ser incompreensível como pessoa. Diferente das pessoas da sua idade, ele estava sempre evidenciando suas ideias “loucas” a respeito dos relacionamentos/romances, ideias estas muitas vezes ditas sinistras. Mas apesar dessas ideias, seu grande amigo tinha uma forte admiração por ele. E, por isso, tenta narrar da forma mais impessoal possível as razões que conduziram Raul à loucura do suicídio.

Embora tivesse uma grande aversão por romances, Raul Vilar acaba conhecendo um grande amor, Marcela, durante um baile – o qual seu melhor amigo acabou por convencê-lo (leia-se “forçá-lo”) a ir. De tão encantado com Marcela, Raul acabou casando e encontrando a felicidade na qual ele não acreditava. Além do amor e felicidade, Raul passou a desenvolver outros sentimentos que ele desconhecia: orgulho da mulher linda que tinha ao seu lado; desejo insaciável de possuir (sexualmente) uma pessoa; obsessão – sentimento de querer dominar outrem, inclusive seus pensamentos; além de querer que o amor da sua vida se sentisse livre, independente da presença dele.

Apesar de Raul ser um personagem de personalidade instável, ou “de fases” para algumas pessoas, ao conhecer Marcela todos esses sentimentos citados anteriormente passaram a surgir todos ao mesmo tempo. E por isso, Raul se sentiu na obrigação de provar para Marcela o quanto seu amor era infinito. Mas todas as ideias que teve não foram suficientes. Mesmo que ela não esperasse essa prova, já que acreditava nas palavras dele, ele tomou uma decisão e tentou persuadi-la de que seria o melhor a fazer. Mas não direi mais nada sobre isso, porque boa parte do livro se sustenta nesse suspense e suas consequências.

Imagem usada para a capa (The Desperate Man (Self-Portrait), de Gustave Courbet)
Imagem usada para a capa (The Desperate Man (Self-Portrait), de Gustave Courbet)

Como já sabemos, Sá-Carneiro é um dos maiores poetas do Modernismo português. Para quem leu A Confissão de Lúcio também sabe que ele é extremamente competente no ato de descrever o “eu interior”. A forma com que ele cria o Raul é tão intensa, que apesar da maneira de pensar dele e dos seus atos, não conseguimos sentir repulsa, uma vez que podemos encontrar uma das personalidades dele em alguma parte de nós.

Outro ponto que me atrai na obra de Mário de Sá-Carneiro é sua relação intima com a morte e toda a beleza que ela pode trazer. Só tenho mesmo que recomendar esse livro, assim como todo o restante da obra dele. E, apesar de não ser uma parte do livro, gostaria de compartilhar um trecho de um poema dele que acho lindo:

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Melhores Quotes:

— Tudo isso são idiotices…O amor? Pf… Mas que vem a ser o amor? Uma necessidade orgânica, nada mais (Cap. 01)

— Pateta… Mulheres?… Para quê? Não tenho as minhas estátuas, não tenho mármore?… Dizem vocês, os literatos cretinos, descrevendo o corpo duma mulher ideal: «As suas pernas bem torneadas e nervosas, eram duas colunas de rijo mármore; o seu colo, alabastro puro.» Sim, apesar da vossa grande imbecilidade, vocês compreendem que a suprema beleza da carne está em parecer pedra… Ora eu tenho pedra; para que hei-de querer carne, pateta?… (Cap. 01)

[…] A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas. Se pudéssemos conjugar as nossas duas artes, faríamos vida. Felizmente, é impossível… (Cap. 02)

A morte era a recompensa da vida. Os homens que estragam tudo, estragaram também essa recompensa: inventaram a alma, o inferno e o céu. (Cap. 10)

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Ficha Técnica

Loucura…, de Mário de Sá-CarneiroTítulo: Loucura…
Título Original: Loucura…
Autor(a): Mário de Sá-Carneiro
Editora: Projecto Adamastor
Edição (eBook): 2013
Ano da obra / Copyright: 1912
Baixe o Livro: AQUI
Sinopse: Mário de Sá-Carneiro nesta pequena obra narra a história de vida do seu melhor amigo que se suicidou, de seu nome Raul, com o intuito de “estas páginas desfazerem as estúpidas fantasias que se propalaram sobre os motivos que teriam conduzido o jovem artista ao seu ato de desespero”.

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2 comentários

  1. Bom dia, parabéns pelo blog, e pela resenha. De me.permite,.Mário de Sá Carneiro não pertenceu ao Romantismo,r ele era.contemporâneo (e amigo íntimo) de Fernando Pessoa ambos pertenciam à Geração Orpheu. era un escritor do Modernismo

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