A Mulher Enjaulada, de Jussi Adler-Olsen

Ela esfregou as pontas dos dedos nas paredes até sangrarem e bateu com os punhos nas vidraças espessas até deixar de sentir as mãos. Na escuridão completa, aproximou-se da porta de aço repetidas vezes, tateando, e enfiou as unhas na fresta, tentando abri-la. Mas a porta não se moveu um milímetro sequer, e a borda era cortante.
Jussi Adler-Olsen, A Mulher Enjaulada, pág. 7

Sempre que leio um romance policial escandinavo, tenho a expectativa de que eu vá no mínimo gostar muito dele. Quando é um autor que eu ainda não li, essa expectativa se torna ainda maior. Isso porque, como já disse várias vezes aqui, os países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e parte da Finlândia) são os mais prolíficos quando o assunto é romance policial. A Mulher Enjaulada foi meu primeiro contato com a obra do dinamarquês Carl Valdemar Jussi Henry Adler-Olsen, ou resumidamente Jussi Adler-Olsen. No entanto, a estética literária de Adler-Olsen se assemelha ao padrão dos seus conterrâneos, sempre com muita qualidade.

Jussi Adler-Olsen
Jussi Adler-Olsen

Com este volume, o autor que já havia escrito outros livros no gênero, inicia a série Departamento Q. Até o momento já são cinco volumes que narram casos de investigação desse departamento, sendo que o último foi lançado em 2012. É possível que o autor volte a lançar novos volumes, dada a versatilidade que ele usou para compor o cenário nos quais seus personagens atuam.

A trama conta sobre o desaparecimento de Merete Lynggaard, uma bela e influente política dinamarquesa. Em 2002, Merete estava em uma viagem de navio com seu irmão Uffe, quando simplesmente some sem deixar rastros nem vestígios. As investigações não resultam em nada, todos acreditam que ela possa ter caído no mar e se afogado, mas seu corpo nunca foi encontrado. Como o caso não avançava, o mesmo foi dado como encerrado.

Cinco anos depois, o detetive Carl Mørck está se recuperando de um caso no qual perdeu um de seus colegas e deixou o outro paraplégico. Ele foi o único que saiu ileso fisicamente, mas com severos danos psicológicos. Ao retomar seu trabalho, ele descobre que seus chefes resolvem colocá-lo como responsável por um novo departamento que investigará casos antigos e não resolvidos. Uma tentativa de afastá-lo da presença de seus antigos colegas, que ainda viam em Carl uma centelha de culpa pela perda dos colegas.

Com a narrativa alternando entre 2002 e 2007, o caso de Merete cai nas mãos de Carl. A medida que conhecemos o dia a dia de Merete antes e após seu desaparecimento, vamos também acompanhando a investigação de Carl. Aos poucos o detetive percebe que muitos pontos foram negligenciados na antiga investigação e ao desenterrar a vida de Merete, novas pistas surgem.

Carl e Assad (imagem do filme)
Carl e Assad (imagem do filme)

Como todo bom detetive tem seu fiel escudeiro, Carl é acompanhado por Assad, um ajudante muito irreverente. A autor consegue construir personagens fortes, pelo menos no círculo principal, pois os ditos secundários ficam numa penumbra apenas permitindo que os protagonistas tenham interações críveis. Ainda assim, o destaque vai para Assad, um muçulmano misterioso e espécie de “faz-tudo” no Departamento Q. A propósito, o corpo de funcionários do departamento se resume em Carl e Assad.

Do outro lado, na história de Merete, há Uffe, seu irmão doente. A família de Merete sofreu um acidente quando ela era apenas uma pré-adolescente. Nessa ocasião, só ela saiu ilesa, seus pais morreram e Uffe ficou com traumas que o fizeram perder a comunicação e sua percepção de mundo. A partir de então, Merete dedica sua vida a cuidar do irmão. Nesse ponto vemos certa semelhança entre Merete e Carl, já que ambos vivem cercados de fantasmas e sombras.

Merete Lynggard (imagem do filme)
Merete Lynggard (imagem do filme)

O título já revela um pouco sobre a trama. Por ele, pela sinopse e pelo primeiro parágrafo (transcrito acima) sabemos que Merete não morreu, mas foi vítima de um sequestro. Todavia, a rede de intrigas políticas e pessoais que vai se desenrolando preenchem o romance de suspense, tensão e morbidez. A trama tão bem construída e intrincada ganhou uma versão para o cinema em 2012, sob o título Departamento Q, ou The Keeper of Lost Causes em inglês. O filme, dirigido por Mikkel Nørgaard e roteirizado por Nikolaj Arcel, traz no elenco Nikolaj Lie Kaas (Carl Mørck), Fares Fares (Assad) e Sonja Richter (Merete Lynggaard).

Pôster do filme
Pôster do filme

A narrativa de Assad é bem cinematográfica, não à toa o segundo volume da série Departamento Q já está com sua adaptação em fase de pós-produção e deve estrear ainda nesse ano. Mais do que uma boa construção, a obra de Adler-Olsen elucida vários questionamentos sobre relacionamentos amorosos, amizade, profissão, política e, obviamente, criminalística. Para tanto, o autor tem experiência em diversas áreas, o mesmo estudou medicina, ciências políticas, sociologia e cinema. Em acréscimo ao suspense da trama, o autor insere ainda muito humor, a maior parte dele protagonizado por Assad, é impossível não rir também.

Como pontos negativos, não posso deixar de citar a escassez(?) de tradutores direto do dinamarquês, este não é o primeiro a ser traduzido já de uma outra tradução. Este foi traduzido do alemão, o penúltimo que eu li foi traduzido do francês, mas há bons tradutores do dinamarquês sim. Outro ponto negativo, e este vai para a editora, é em relação aos muitos erros que passaram desapercebidos pelo crivo de revisão, algo incomum para o padrão de qualidade da Record. Vale atentar para isso.

Dito isso, só posso recomendar muito o livro. Em especial para aqueles que adoram um bom thriller. É muito perturbador, e excelente na mesma medida.

Sequência de publicação/Cronologia da série:

  1. A Mulher Enjaulada (Kvinden i buret, 2007)
  2. Fasandræberne (2008)
  3. Flaskepost fra P (2009)
  4. Journal 64 (2010)
  5. Marco Effekten (2012)

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Ficha Técnica

Título: A Mulher Enjaulada
Título original: Kvinden I Buret
Autor(a): Jussi Adler-Olsen
Editora: Record
Tradução: João Ventura
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2007
Páginas: 392
Sinopse: No auge da carreira política, a bela e reservada Merete Lynggaard desaparece. As investigações que se seguem não rendem muitas informações à polícia, levando ao arquivamento do caso. Passados alguns anos, o detetive Carl Mørck, responsável pelo recém-criado Departamento Q — uma seção para casos importantes não solucionados — é encarregado de descobrir o que, afinal, aconteceu a ela. Então, com seu assistente, Assad, ele inicia uma busca pelos rastros desse mistério e, para isso, Carl precisa vasculhar o passado de Merete, guardado a sete chaves, para descobrir a verdade.

Onde comprar:
Cultura Estante Virtual | Saraiva | Fnac

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