| Resenha | Lady Susan, de Jane Austen

É desperdiçar tempo dominar o francês, o italiano e o alemão; a música, o canto, o desenho, etc., podem proporcionar alguns elogios a uma mulher, mas não acrescentarão um amante à sua lista – a graça e as boas maneiras, afinal, são mais importantes.
Jane Austen, Lady Susan, Carta VII

Comecei a ler romances de época com As Regras de Sedução (Ed. Arqueiro), de Madeline Hunter. Até então, eu tinha certo receio em relação ao gênero, mas devo dizer que foi uma experiência muito positiva. Diante disso, eu não poderia seguir na leitura do gênero sem antes ler algo daquela que o popularizou, Jane Austen. Apesar de conhecer boa parte de suas histórias através das adaptações para o cinema e TV, até agora eu não tinha lido nada da autora. Eis que resolvo começar por um dos seus primeiros romances, e também um dos menos conhecidos, Lady Susan, lançado recentemente aqui no Brasil pela editora LandMark.

Jane Austen
Jane Austen

O romance, contado através de cartas, narra a história de Lady Susan Vernon, uma coquete inglesa de personalidade forte e manipuladora. O livro foi escrito entre 1793 e 1794, no final da adolescência de Austen, quando a mesma já aspirava a vida escritora e estava tentando concluir seus primeiros trabalhos. A ideia de escrever um romance epistolar pode ter surgido pelo boom que o gênero estava tendo na época. Muitos escritores alemães, russos e mesmo ingleses já haviam publicado pelo menos um romance escrito dessa forma. Austen tentou e acertou, ainda que a publicação do mesmo só tenha acontecido postumamente em 1805, como parte de um livro de memórias sobre a autora.

A trama é contada aos poucos à medida que vamos entrando na intimidade das cartas que Lady Susan troca com as pessoas, assim como as correspondências daqueles à sua volta. Apesar das diferenças com as demais obras da autora, este livro traz muitos dos elementos que a caracterizam, logo no início da sua carreira já é possível identificar a ironia e humor que está sempre presente em seus trabalhos. A protagonista desse romance assume o papel de anti-heroína, a saber por sua personalidade manipuladora, egoísta, teimosa, que tenta a todo custo fazer com que todos se submetam a sua vontade.

Ainda que Lady Susan não tenha uma índole exemplar, é impossível não se encantar com ela. Sob a óptica de uma das personagens que menos gosta da protagonista temos a seguinte descrição: “ela possui uma mistura rara de simetria, esplendor e graça“. Outro motivo que nos faz adorar a protagonista é a carga de humor que suas falsidades denotam. E mais, é possível que o leitor se identifique com uma ou duas das “maldades” de Lady Susan, rs. Afinal, quem não gostaria que as coisas sempre saíssem a nosso favor? Quem pode culpar Lady Susan por querer isso também? Embora os métodos dela sejam reprováveis, ela só está indo em busca do que ela quer, rs.

Detalhe da Capa: "Jovem Senhora Escrevendo uma Carta", de Victor-Gabriel Gilbert (1875)
Detalhe da Capa: “Jovem Senhora Escrevendo uma Carta”, de Victor-Gabriel Gilbert (1875)

Para que você entenda melhor o contexto da trama, vamos falar um pouco sobre ela. Lady Susan está viúva há poucos meses e se envolve em um escândalo ao flertar com Mr. Manwaring, um homem casado. Não bastasse isso, ela tenta a todo custo promover o casamento de sua filha Frederica com o jovem Sir James, acontece que estava às vésperas do noivado com a filha do casal Manwaring. Ou seja, de uma vez ela destrói a vida amorosa das duas mulheres Manwaring, mãe e filha. Por conta do falatório em Londres, ela resolve passar um tempo em Churchill, na casa do irmão de seu falecido marido. Acontece que ela não se dá muito bem com a Sra. Vernon, por ter tentado impedir seu casamento no passado.

Durante essa visita que se estende por meses, Lady Susan deixa sua filha em um internato para que aprenda bons modos e resolva se casar com Sir James, já que a garota se opunha a isso. Em seguida, ela conhece Mr. de Courcy, irmão da Sra. Vernon. Segunda ela, Mr. de Courcy não possui nenhum atrativo, mas ainda assim ela usa seu coquetismo para encantá-lo e fazê-lo mudar de opinião sobre ela. Nesse ínterim, ela troca cartas com sua melhor amiga em Londres, Mrs. Johnson, que também vive um casamento infeliz. Mrs. Johnson possui personalidade e índole tal e qual sua amiga e talvez por isso ambas deem certo.

O enredo é simples e curto, no entanto, há ainda espaço para uma reviravolta e muito, mas muito bom humor. É impossível não rir. Além disso, as cartas de Lady Susan são recheadas de máximas que são pura sabedoria, rs. Particulamente, esta é uma excelente forma de começar a ler a obra de Jane Austen. Um livro curto, com uma trama simples e muito engraçada. A editora Landmark está de parabéns pela edição de luxo em capa dura e bilíngue (disponível também em formato digital), chamo a atenção apenas para alguns erros que passaram pela revisão no português. Quem domina o inglês pode encontrar a obra na internet, já que a mesma está em domínio público. Ainda assim, vale conferir esta nova edição impressa. Recomendo!

Melhores Quotes:

Onde o orgulho e a estupidez se unem não pode haver qualquer dissimulação digna de nota. (Carta IV)

Há um prazer especial em subjugar um espírito insolente, em fazer uma pessoa predeterminada a desgostar reconheça nossa superioridade. (Carta VII)

Nenhum caráter, por mais correto, pode escapar à malevolência da difamação. (Carta XIV)

A consideração e a estima com certeza seguem o comando da linguagem, assim como a admiração acompanha a beleza. (Carta XVI)

É de fato uma tola a mulher que, insultada por uma acusação, pode se deixar influenciar por elogios. (Carta XXII)

Há algo agradável em sentimentos tão facilmente influenciáveis; não que eu o inveje por possuí-los, nem eu teria, por nada no mundo, tais sentimentos; mas são muito convenientes quando se deseja influenciar as emoções de outra pessoa. (Carta XXV)

Principais Obras da Autora:

  1. Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, 1811);
  2. Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 1813);
  3. Mansfield Park (Idem, 1814);
  4. Emma (Idem, 1815);
  5. A Abadia de Northanger (Northanger Abbey, 1818);
  6. Persuasão (Persuasion, 1818).

Postagens relacionadas:

Ficha Técnica

Título: Lady Susan
Título original: Lady Susan
Autor(a): Jane Austen
Editora: LandMark
Tradução: Doris Goettems
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1794
Páginas: 152
Sinopse: A história de ‘Lady Susan’ gira em torno de sua personagem principal, a bela e coquete Lady Susan Vernon (uma das melhores personagens criadas por Jane Austen, em tudo diferente às protagonistas de seus romances posteriores), uma viúva na casa de seus 30 anos, que busca um novo e vantajoso matrimônio para si, ao mesmo tempo em que tenta arranjar um casamento para sua filha com um homem rico e tolo que esta última despreza. Ela preenche sua agenda de compromissos com convites para visitas estendidas junto aos parentes de seu falecido marido e conhecidos por uma série de manobras astuciosas, de modo a atingir seu plano principal.

Onde comprar:
LandMarkCultura | Saraiva

5 comments

  1. Perfeito Ademar. A grande verdade sobre Jane Austen você traduziu com sua resenha. Lady Susan, apesar de ser um dos primeiros trabalhos de Austen, foi quando elas mais se permitiu (na minha humilde opinião) se mostrar mais verdadeira, por ser totalmente despretensiosa. Era pouco mais do que uma menina quando terminou Lady Susan. O sarcasmo, o humor e a perspicácia com que ela escreve seus próximos trabalhos estão presentes nesse escrito, e só vai se apurando ao longo dos anos. É muito bom ter uma visão masculina tão sensível dos escritos de Austen. Deixo aqui um pedido: leia as outras obras de Austen. Tenho certeza que você vai se encantar…😉

    Curtir

  2. Parabéns pela resenha!!!!! Adoreiiiiiiiiiiiiii desde a resenha de As Regras da Sedução da Madeline Hunter, tenho que parabenizar pela visão objetiva e realmente sempre destacar os pontos mais importantes. Sou fã de Jane Austen, e sempre associam a autora apenas uma leitura feminina, na verdade Austen pode ser lida muito bem pelo público masculino, as narrativas dela além de críticas, ela não tem uma postura feminista totalmente, ela apenas critica o que tem que ser criticado independe do sexo. E humor tem em todos os livros dela, uns com mais intensidade por exemplo, Abadia de Northanger, igualmente como Lady Susan, e outros nem tanto, mas sempre aquela visão crítica e sarcástica das pessoas. E te aconselho ler outras obras da Jane: Persuasão (esse tem um edição pela editora Zahar que vem junto Lady Susan e Jack e Alice), Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Mansfield Park e Emma. E tem um livro de um escritor intitulado Eu Aprendi com Jane Austen, é ótimo para conhecer melhor as obras dela também. Ufaaaaaaaaaaaa fiz uma resenha. Mas fico animada quando vejo uma resenha de qualidade de algum livro da autora. Parabéns!!!!

    Curtir

  3. Que resenha encantadora, se eu tinha alguma duvida em ler algo sobre ela isso mudou agora!
    Sim, eu nunca li nadinha dela (shame). Amei!
    Achei seu blog através da Pah do Livros & Fuxicos, amei e já estou seguindo. Se quiser conhecer meu cantinho sera super bem vinda.
    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s