Frances Ha (Idem, 2012)

Tudo que eu precisava agora, além de fumar, o que já estou fazendo, é ver a desgraça alheia, o que não é muito difícil! Nesse exato momento, devem haver umas 100 pessoas compartilhando alguma denúncia de maus tratos contra os animais, pobre seres indefesos. Não iria adiantar, não consigo me interessar por arte ou livros sobre animais. Eles precisam falar ou estar em guerra para me despertar algum interesse.

E que droga! Ultimamente, no meu infinito tempo livre, tenho me dividido entre lavar louça e o nada. Sim, nada, pois cansei de olhar o Facebook e me deparar com pessoas em viagens que gostaria de fazer ou vivendo amores pretensiosamente verdadeiros.  Nas poucas transas, meu último namorado só conseguia gozar em uma única posição, sempre comigo com a cara enfiada na cama, por trás, como se tudo o que importava estivesse coberto.

Frances Ha (Cena 03)

Um tanto politicamente incorreta, por vezes balbuciante e completamente honesta, é assim Frances Ha, no filme homônimo vivida por Greta Gerwig, a atual queridinha do cinema americano tido como “alternativo”.  O longa, dirigido por Noah Baumbach, do também elogiado A lula e a baleia, faz parte do movimento francês Nouvelle Vague, defendendo a máxima de que para um bom cinema basta criatividade, talento e uma câmera na mão, e que ganhou um frescor com o gênero indie mumblecore.

Apesar de ter personagens em permanente conflito interno, o filme não deixa de ser delicado e de uma alegria contagiante. É quase impossível não querer copiar a protagonista na cena em que aparece correndo nas ruas da Chinatown nova-iorquina ao som da icônica Amor Moderno, do lendário David Bowie. A trilha sonora é um ponto forte, além da rápida e inevitável identificação.

Frances Ha (Cena 02)

Frances é uma jovem de 27 anos (mas que aparenta fisicamente ser mais velha!) que deixa sua cidade natal para buscar em Nova Iorque o reconhecimento como bailarina, seu sonho de criança. Ela, no entanto, apresenta a imaturidade típica de sua geração, que retarda a vida adulta enquanto pode. Para Frances, brincar de luta ainda é divertido, assim como fazer xixi nos trilhos do metrô. “E aí gostosona?!”, interpela sua melhor amiga, aos gritos em plena Manhattan.

Para completar, a (ainda) jovem não é suficientemente talentosa, o que a faz perder a única vaga conseguida, como aprendiz em uma companhia de dança. A partir daí, sua vida desce ladeira abaixo. E se já não bastasse a falta de perspectiva, ela precisa enxergar o afastamento e o aparente sucesso de sua melhor amiga. Mas mesmo com problemas até o pescoço, Frances não abandona o bom humor e o otimismo, beirando por vezes a estupidez. Cada novo obstáculo, vira uma oportunidade para o recomeço e com isso uma nova dança, de preferência em alguma rua agitada de Nova Iorque.

Frances Ha (Cena 06)Frances Ha nos faz lembrar, com doçura e sutileza, da época da vida que sobram incertezas e faltam caminhos seguros. Dos momentos em que achamos o nosso talento, o maior do mundo, suficiente e que por isso a glória seria um direito incontestável, mas quando ao mesmo tempo não sabemos como começar, qual rumo tomar, não muito raro enfiando os pés pelas mãos.

Frances rabisca inúmeros planos: ir à lavanderia, treinar, economizar a mesada para pagar o aluguel, ler Proust (“pois às vezes é bom fazer o que se deve fazer quando acham que você deve fazer”). Porém, não consegue colocar nada em prática e no final se sente culpada. Soa familiar, não? Frances Ha parece mostrar o que acontece quando nossos sonhos não se realizam exatamente como gostaríamos. E um último detalhe, o mais charmoso: o filme é em preto e branco!

Frances Ha (Cena 01)

Ficha Técnica

Título: Frances Ha
Título Original: Frances Ha
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig
Gênero: Drama, Comédia
País: Estados Unidos da América
Ano: 2012
Duração: 86 min.
Sinopse: Frances (Greta Gerwig) é a ambiciosa aprendiz de uma companhia de dança, que tem que se contentar com muito menos sucesso e reconhecimento do que ela gostaria. Mesmo assim, ela encara a vida de maneira leve e otimista. Esta fábula moderna explora temas como a juventude, a amizade, a luta de classes e o fracasso.

Trailer

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2 comentários

  1. Esse filme é absolutamente lindo e de uma singeleza sem igual. Amei, tenho até um poster grande dele emoldurado no quarto. Acho que me identifiquei muito com essa “falta de rumo” da protagonista, além de ter curtido demais o visual e a trilha sonora do longa. Filme do coração!

    Beijo, Livro Lab

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