Passarinha, de Kathryn Erskine

Livros não são como pessoas. Livros são seguros.
Kathryn Erskine, Passarinha, pág. 42.

Falar sobre autismo e/ou Síndrome de Asperger através de livros, filmes e novelas não é mais novidade. Do ano passado para cá, aumentou e muito a quantidade de obras que abordam esse tema, das mais variadas formas, nos mais diversos meios. Na literatura, especificamente, o tema não é novo. Em 1964, quando o espectro do autismo ainda era uma incógnita para os estudiosos, o escritor norte-americano Philip K. Dick lançou seu Martian Time-Slip, no qual o protagonista, Jack Bohlen, é um terráqueo autista que vive em uma colônia em Marte. Só nos anos de 1970 os estudos de Asperger ganharam notoriedade, de lá pra cá muito se discutiu e se acrescentou. Por isso, mesmo não sendo mais novidade é um tema que precisa ser recorrente.

No primeiro semestre de 2014, a editora Intrínseca lançou O Que me Faz Pular, do japonês Naoki Higashida, um autista que conseguiu escrever um livro aos 13 anos sobre sua condição e as dificuldades de convivência com outras pessoas não autistas. O livro em formato de entrevista é leitura obrigatória para quem quer conhecer mais sobre o tema, além de oferecer um norte para entender o autismo em outras obras fictícias ou não. Nesse ano, eu também li Colin Fischer, de Ashley Edward Miller e Zack Stentz, sobre um garotinho com Asperger. Para mim, foi extremamente positivo ter lido o livro do Naoki anteriormente, assim com aconteceu agora com Passarinha.

Playlist Passarinha
Playlist de Kathryn Erskine para “Passarinha”

Passarinha é uma joia de livro. Por mais que você já tenha lido muitos e muitos livros sobre crianças com doenças terminais, má formação congênita ou problemas sociais, ainda assim você vai se emocionar com Passarinha. Caitlin é uma garotinha de dez anos de idade, portadora da Síndrome de Asperger. Assim como seus pares, ela vê o mundo de uma outra forma. Para nós sua visão de mundo e forma de convivência é muito complexa e de difícil entendimento, para eles nós é que somos complexos demais. Quem conhece alguém que cuida de um autista sabe como é fácil perder a paciência com eles, isso porque na maioria das vezes não estamos preparados para isso.

Nós vemos cores demais e damos sentidos em demasia para as mesmas coisas, Caitlin e aqueles que compartilham dessa condição veem o mundo em preto e branco, tudo mais simples, onde as palavras expressam somente aquilo que elas representam. A expressão “pegar no pé” deveria significar literalmente pegar no pé, porque não dizer que alguém está nos irritando? Os autistas não são complicados, nós é que dificultamos demais as coisas. Mas, vamos falar do livro…

Na trama, a única pessoa capaz de entender Caitlin é seu irmão mais novo, Devon. Até que uma tragédia acontece e Devon morre. A garotinha agora está só com seu pai, que não sabe lidar com o problema da filha e está devastado pela perda do filho, que se acrescenta à perda da esposa anteriormente. Caitlin parece não querer aceitar a ausência do seu único amigo e irmão, embora entenda que ele não possa mais estar presente. Isso cria uma bola de neve na vida da família, e Caitlin se vê responsável por dar um desfecho à essa situação.

Com todas as dificuldades de interação social, Caitlin se esforça para mostrar ao seu pai que eles podem reconstruir suas vidas. Para isso, ela conta com a ajuda de sua orientadora educacional e psicológica, a Sra. Brook. Aos poucos, Caitlin aprende a fazer amigos e Michael entra na história. Juntos eles aprendem o significado e a importância de ter empatia, além de que todos precisam de um desfecho particular.

Kathryn Erskine escreveu uma história linda e marcante. Uma trama frágil, mas ao mesmo tempo desafiadora, que nos inspira de uma forma muito positiva e nos leva a pensar não só nas dificuldades de um autista mas também em como podemos construir um ambiente mais acessível para eles. O título, Mockingbird, já ganhou mais de uma dezena de prêmios e faz referência ao filme To Kill a Mockingbird (O Sol É Para Todos aqui no Brasil), de Robert Mulligan, uma adaptação do romance homônimo de Harper Lee.

A edição brasileira tem um capricho todo especial da editora Valentina. Um livro lindo tanto pelo trabalho gráfico quanto pelo efeito que a história causa no leitor. Recomendo muito.

Curiosidades:

  • Ao escrever Passarinha, a autora se inspirou na tragédia que aconteceu em 2007 na Virginia Tech University, quando um ataque massacrou trinta e três pessoas. A autora resolveu mesclar a questão da violência na juventude, o impacto disso na comunidade e nas famílias, e os entraves para uma criança com necessidades especiais ou que viva sob uma condição dificultante.
  • O livro possui jogos de palavras e trocadilhos que criam uma simbologia especial para o entendimento de entrelinhas do texto, como na tradução para o português a grafia de algumas palavras se modifica, é importante ler a nota da tradutora que antecede o texto.
  • Baixe um guia de discussão da obra (em inglês), elaborado pela editora Penguin: AQUI.

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Ficha Técnica

Título: Passarinha
Título original: Mockingbird
Autor(a): Kathryn Erskine
Editora: Valentina
Tradução: Heloísa Leal
Edição: 2014 (2ª)
Ano da obra / Copyright: 2010
Páginas: 224
Sinopse: No mundo de Caitlin, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai – a si mesma e todos a sua volta –, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido. Caitlin, que não gosta de olhar para a pessoa nem que invadam seu espaço pessoal, se volta, então, para os livros e dicionários, que considera fáceis por estarem repletos de fatos, preto no branco. Após ler a definição da palavra desfecho, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam. E Caitlin está determinada a consegui-lo. Seguindo o conselho do irmão, ela decide trabalhar nisso, o que a leva a descobrir que nem tudo é realmente preto e branco, afinal, o mundo é cheio de cores, confuso mas belo. Um livro sobre compreender uns aos outros, repleto de empatia, com um desfecho comovente e encantador que levará o leitor às lágrimas e dará aos jovens um precioso vislumbre do mundo todo especial dessa menina extraordinária.

Onde comprar:
ValentinaSaraiva | Cultura | Travessa

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