O Jogo de Ripper, de Isabel Allende

“Minha mãe ainda está viva, mas ele vai matá-la na Sexta-feira Santa, à meia-noite”, disse Amanda Martín ao inspetor-chefe, e o policial não a contestou, porque a garota vivia dando provas de que sabia mais do que ele e todos os seus colegas do Departamento de Homicídios. A mulher estava no cativeiro, em algum lugar dos 18 mil quilômetros quadrados da baía de São Francisco; tinham poucas horas para encontrá-la viva, e ele não sabia por onde começar a procurá-la.
Isabel Allende, O Jogo de Ripper, pág. 7

“Até a musa do realismo mágico rendeu-se ao gênero policial?”
Essa pergunta provavelmente deve ter martelado na cabeça de vários leitores e fãs da escritora Isabel Allende, mundo afora, ao receberem a notícia de que seu próximo livro seria um romance policial. Apesar de ter causado um certo receio de que a prestigiada escritora estaria cedendo à tentadora onda mundial de histórias de crime vendáveis, essa novidade também provocou grande curiosidade e até um entusiasmo nesses leitores.

Eis que Isabel Allende prova, com seu novo romance, O Jogo de Ripper, que é uma escritora versátil e que não tem medo de ousar. A autora chilena, consagrada mundialmente por sua contribuição ao realismo mágico, com o clássico A Casa dos espíritos (1982), vai além de ser uma escritora que se adapta a diferentes estilos literários, e crítica mordaz da sociedade machista e da literatura de best-sellers. Allende criou este primoroso romance que representa uma crítica aos livros do gênero policial que reproduzem fórmulas prontas e sem originalidade, voltados para a cultura de massa, cujo principal propósito é gerar lucro com as vendas.

Isabel Allende crime caricatura
© El Mercurio, Francisco Javier Olea

O objetivo da autora, no entanto, é brincar com esse gênero, uma vez que ela utiliza a ironia para provocar o riso e instigar uma reflexão acerca da função e da capacidade de histórias desse gênero serem tão atrativas ao grande público. Apesar de essa ser a intenção assumida da escritora, a mesma foi mal compreendida por uma declaração feita em uma entrevista ao jornal El País, na qual Isabel Allende afirmou o seguinte: “No fundo debocho do gênero. Tratei de fazer um jogo similar ao de Cervantes quando ridiculariza as novelas de cavalaria e escreve Dom Quixote”.

A brincadeira foi mal interpretada e a escritora acusada de menosprezar o gênero policial e de elitismo literário. Isabel Allende, inclusive, pediu desculpas aos escritores de romance policial e livreiros que se ofenderam com a polêmica declaração. A ideia de escrever esse livro surgiu de uma proposta de sua agente, Carmen Balcells, que sugeriu a Isabel e seu marido, Willie Gordon, que escrevessem um romance policial juntos. Entretanto, a parceria não deu certo e cada um foi trabalhar em seu próprio romance policial. Brincalhona como é, Isabel ainda tratou de inserir seu marido na história, rendendo uma divertida piada interna.

Desse modo, na preparação para tal desafio, Isabel leu romances policiais, principalmente de autores escandinavos, e elogiou as obras de Stieg Larsson e Jo Nesbo. Quanto à escolha do tema, a autora inspirou-se em um jogo de RPG, Ripper, pelo qual sua neta adolescente, Andrea, era aficionada. O resultado é uma obra que é pura diversão e prazer estético, fornecendo um estudo de personagens, no estilo mais característico da autora, cuja escrita meticulosa e despudorada transporta o leitor a um universo rico em detalhes, permeado de realidade e uma percepção profunda da essência do ser humano.

A história gira em torno da personagem Amanda, uma adolescente nerd de 17 anos, e dos cinco jogadores de Ripper, de diferentes cantos do mundo, que se reuniam via Skype para resolver enigmas e crimes causados pela figura de Jack, the Ripper, ou Jack, o Estripador, em português.

Jack the RipperEsse personagem tornou-se uma das maiores lendas do crime de todos os tempos. O Estripador, como ficou conhecido, foi um serial killer que aterrorizou a sociedade londrina na segunda metade de 1888. Assassinava, de modo metódico e violento, mulheres que se prostituíam na região do distrito de Whitechapel, em Londres. Os jornais da época exploraram esse caso até a exaustão, por causa do grau de violência dos crimes e principalmente pelo mistério em torno do assassino, que nunca foi capturado pela polícia ou ao menos desvendado. Dessa forma, a figura de Jack, o Estripador, deixou um legado numeroso de teorias e histórias especulativas a seu respeito, inspirando a criação de diversos personagens na literatura, no cinema, em jogos, e demais mídias.

Assim, Ripper, ou seja, Jack, o Estripador, do século XIX, era inicialmente o alvo de investigações do grupo de RPG mestrado por Amanda Martín, até que um crime bastante incomum, com uma aura de mistério, (e ironia da autora), apelidado de “crime do bastão fora de lugar”, chamou a atenção do grupo. A partir de então o que era apenas uma brincadeira pueril, tornou-se uma perigosa obsessão trazendo riscos reais à vida de Amanda e todos ao seu redor.

Os jogadores de Ripper era um seleto grupo de freaks espalhados pelo mundo, que se comunicavam pela internet para prender e destruir o misterioso Jack, o Estripador, superando obstáculos e derrotando os inimigos que surgiam no caminho. Como mestra do jogo, Amanda planejava cada aventura em função das habilidades e limitações dos personagens, que cada jogador criara como seu alter ego. (p. 11)

Amanda é filha do inspetor-chefe de polícia, Bob Martín, chefe do Departamento de Homicídios, por isso ela podia colher informações de difícil acesso e detalhes importantes para a solução dos casos investigados. Apesar da discordância de seu pai e de sua mãe quanto ao envolvimento da adolescente com esses casos criminais, Amanda tinha um forte aliado, seu avô e melhor amigo, Blake Jackson, que sempre tentava coletar informações do pai de Amanda ou de seus colegas na delegacia. Blake Jackson também integra o grupo de RPG de sua neta, assumindo o personagem Kabel, ajudante e fiel guarda-costas da mestra do jogo, um “corcunda de poucas luzes”.

jogo de ripper ilustracao
Amanda Martín, detetive amadora e mestra em RPG.

Os outros integrantes do grupo eram; um garoto da Nova Zelândia, que, devido a um acidente, usa cadeira de rodas, e encarnava o papel da extrovertida cigana Esmeralda. Um adolescente tímido de Nova Jersey, que tinha agorafobia, por isso não saía de casa, e vivia com a mãe, este era sir Edmond Paddington no RPG, um coronel inglês aposentado, machista e arrogante, perito em armas e estratégias militares. Uma jovem de Montreal, vítima de anorexia, que representava a personagem Abatha, uma vidente capaz de ler e manipular o pensamento, e comunicar-se com fantasmas. E por fim, para completar o grupo, um órfão afro-americano de 13 anos, com QI de 156, bolsista de uma escola para crianças superdotadas de Reno, incorporava Sherlock Holmes, pois possuía uma capacidade aguda de dedução e raciocínio lógico.

Esse grupo composto por personagens muito singulares passou a focar suas investigações em crimes reais acontecidos em São Francisco, EUA, avançando no desvendamento desses mistérios, inclusive antecipando-se à polícia. Foi o grupo de RPG que primeiro percebeu uma ligação entre os diversos crimes cometidos no último ano e começou a traçar o perfil do provável assassino em série responsável por esses crimes.

Motivados após um alerta emitido pela astróloga Celeste Roko, madrinha de Amanda, que previu um “banho de sangue” na baía de São Francisco, os jogadores de RPG centraram seus esforços para desmascará-la e contestar a veracidade de suas previsões, no entanto, suas descobertas levaram à conclusão de que um temível serial killer estava agindo à solta nessa região. Quando a mãe de Amanda, a bondosa Indiana Jackson, uma curandeira alternativa, que trabalhava numa Clínica Holística, é sequestrada, Amanda e seus parceiros detetives mergulham de vez no jogo e passam a correr contra o tempo, reunindo todas as pistas deixadas pelo assassino para Amanda, na tentativa de salvar Indiana de uma morte cruel e impedir que mais vítimas sejam sacrificadas.

lobo ripperA figura do vilão, conhecida como O Lobo, é o personagem mais bem construído da trama, com uma personalidade complexa e um caráter multifacetado, o qual apesar de suscitar o horror no leitor, também consegue ser digno de pena, a partir das informações que descobrimos sobre seu passado. E por esse motivo torna-se uma figura tão interessante a ponto de até torcermos (não sem culpa!) por ele em determinados momentos e esperarmos que este complete os sinistros rituais de sacrifício.

Não acabara de falar quando a imagem voltou à tela, […] apareceu um vídeo de uma paisagem de inverno, iluminada pela lua. Segundos mais tarde, destacou-se entre as árvores uma figura solitária, que ao avançar sobre a neve, definiu-se como a silhueta de um cachorro grande. O animal fuçou o chão, andando em círculos, depois se sentou, levantou a cabeça para o céu e saudou a lua com um uivo interminável.
A cena durou menos de dois minutos e deixou todos desconcertados, exceto Amanda, que ficou em pé cambaleando com os olhos fora de órbita e um grito rouco atravessado na garganta.
_ O lobo, a assinatura do assassino – conseguiu balbuciar antes de se dobrar e vomitar na cadeira ergonômica de seu pai. (p. 388)

Outro personagem que divide com o antagonista do livro a simpatia da maior parte dos leitores é Ryan Miller, um ex-navy seal, que esteve na guerra no Afeganistão e, por essa experiência, carrega profundos traumas físicos e psicológicos irreversíveis. Ryan perdeu uma das pernas durante a guerra e voltou com cicatrizes emocionais permanentes, por isso procurou a clínica de medicina alternativa na qual a mãe de Amanda trabalhava, tornando-se um de seus clientes assíduos. Indiana curava não só os problemas do corpo, mas acreditava ter o poder de curar as feridas da alma de seus pacientes.

Por ser tão generosa, Indiana vivia rodeada de amigos e, sendo divorciada, pretendentes também. Ao terminar a relação com Alan Keller, herdeiro de uma fortuna, e por essa razão achava que todas as mulheres deveriam estar aos seus pés, Indiana teve um breve envolvimento com Ryan. Logo que Indiana é sequestrada, Ryan vira o principal suspeito pela polícia.

A partir de então, Ryan foge e une-se secretamente ao grupo de RPG conduzido por Amanda. O soldado, que se revela como o grande herói do romance, tem um papel decisivo no resgate de Indiana, e junto com seu fiel companheiro de guerra, o cão Atila, um pastor belga malinês com pedigree, protagonizam um desfecho avassalador, à altura de todo o romance.

Por fim, vale ressaltar que Isabel Allende rendeu-se à literatura de enigmas, como mostra esse delicioso romance, que tanto cumpre a função de crítica a um tipo de escrita, a uma categoria de obras, quanto funciona como um trabalho fruto da reflexão sobre o gênero policial. E como a própria autora afirma em outra obra sua, Paula, que “o meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação.”, talvez essa seja uma obra que aponte novos caminhos que levam a uma reinvenção literária. Apenas o tempo confirmará isso.

Aos fãs da autora, ainda resta uma pontinha de esperança quanto à possível volta desse grupo de detetives à ativa:

_ Voltaremos a jogar Ripper algum dia? – perguntou Esmeralda.
_ Poderíamos nos encontrar nas férias de inverno – sugeriu sir Edmond Paddington.
_ A menos que antes tenhamos alguma coisa horripilante para investigar – acrescentou Sherlock Holmes.
_ E enquanto isso Kabel vai escrever a nossa história: o romance O jogo de Ripper – despediu-se a mestra do jogo. (p. 487)

Se O Jogo de Ripper fosse uma Grafic Novel:

  • Os desenhos de Olivia Wise para o book trailer de O Jogo de Ripper nos fazem imaginar como seria se o romance fosse adaptado para uma grafic novel, confiram algumas das belas imagens feitas pela ilustradora:
ripper 1 olivia wise
Blake e sua neta Amanda jogando xadrez. © 2014 Olivia Wise
ripper olivia wise 02
Uma cena comum do Café Rossini, em North Beach. Indiana à direita. © 2014 Olivia Wise
ripper olivia wise 03
A viúva e super modelo Ayani e o pai de Amanda, o inpetor-chefe Bob Martín, na cena de um crime. © 2014 Olivia Wise
ripper olivia wise 04
O Navy Seal Ryan e o cão de guerra Atila em ação. © 2014 Olivia Wise
ripper olivia wise 05
Ryan e Atila no resgate de Indiana. © 2014 Olivia Wise

Curiosidades:

  • Confiram este vídeo promocional de O Jogo de Ripper, em que Isabel Allende fala um pouco sobre seu novo livro: AQUI.
  • Vejam também as polêmicas entrevistas de Isabel Allende ao jornal El País: AQUI, e à agência Reuters: AQUI.
  • Para quem quiser saber um pouco mais sobre a produção literária e a vida de Isabel Allende, não deixe de visitar seu site oficial: AQUI, e seu blog pessoal: AQUI.
  • Leia um trecho do livro (na versão portuguesa): AQUI.
  • Confira os book trailers de O Jogo de Ripper: AQUI (em inglês), e AQUI (em português de Portugal).

Postagens relacionadas:

Ficha Técnica

Título: O Jogo de Ripper
Título original: El Juego del Ripper
Autor(a): Isabel Allende
Editora: Bertrand Brasil
Tradução: Luis Carlos Cabral
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 490
Sinopse: Ripper é um inocente jogo de RPG que envolve cinco participantes de diferentes países, reunidos via Skype, para desvendar enigmas criminais. Amanda, filha de um policial da divisão de homicídios de São Francisco, é viciada em crimes sinistros e neste jogo de mistério online. Quando o vigia de uma escola é assassinado e uma série de mortes misteriosas começa a acontecer em São Francisco, os cinco jogadores de Ripper se envolvem com os casos. Afinal, eles logo se dão conta de que os crimes parecem ter sido cometidos por um mesmo assassino. Mas o que deveria ser apenas um entretenimento vira questão de vida ou morte quando Amanda percebe que o cerco do serial killer se fecha em torno de alguém que ela ama. Um plano perverso, premeditado até o último detalhe, está prestes a se tornar realidade. A escritora chilena Isabel Allende faz sua estreia no gênero policial em um romance repleto de intrigas, humor e ironia.

Onde comprar:
Saraiva | Cultura | Travessa | Estante Virtual | Submarino

Um comentário

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s