Mãe d’Água, de Lucas Benetti

A cobra se erguia alta no céu nublado, bem acima das árvores, com seu corpo moldado numa série de curvas amedrontadoras: um tipo de arabesco macabro desenhado no ar.
Lucas Benetti, Mãe d’Água.

Conheci o Lucas Benetti trabalhando no ramo do marketing literário. E disso ele entende bem, afinal faz parte da sua formação. Mas o cara não é dos que se contenta com pouco, tendo o sonho desde criança de escrever (e publicar) um livro, tornou-se aspirante a escritor. Título defasado, isso porque Lucas já escreveu seu primeiro livro, Andurá, que levou o segundo lugar na categoria infantojuvenil do Prêmio Off Flip de Literatura 2014. A previsão de lançamento é para o próximo ano, o cara agora é oficialmente um escritor.

Entrar no ramo, conhecê-lo e só então publicar é uma boa estratégia. Mas não é só desse tecnicismo do ramo que o Lucas está munido não. Há talento e qualidade na escrita, dois fatores que podem levá-lo ao rol de autores nacionais para ficar de olho. O outro fator que comporá a tríade do sucesso de seu trabalho ele já tem, o marketing. E foi por isso que recentemente ele publicou o conto Mãe d’Água em versão digital na loja da Amazon. O conto, que segue uma linha temática semelhante à de Andurá, serve para preparar o leitor para o que virá por aí, boa estratégia. Não bastasse isso, o autor aproveitou o período que antecedeu o Halloween desse ano para disponibilizar o conto gratuitamente por tempo limitado.

Lucas Benetti, Prêmio Off Flip 2014
Lucas Benetti, Prêmio Off Flip 2014

Mas vamos ao que interessa? De que trata? Mãe d’Água é inspirado em uma lenda indígena de uma cobra gigante que destrói embarcações e devora pessoas. E essa é a linha de trabalho inicial de Lucas: lendas indígenas, recontá-las, reaproveitá-las e trazê-las para um contexto que permita a nova geração conhecer mitos que aos poucos entram no defasamento. É assim com Andurá, que reconta a lenda de uma árvore incandescente, e é assim com Mãe d’Água. Um trabalho louvável e digno de nota. Mas não se restringe a este tema a abordagem do trabalho do autor, Lucas escreve sobre literatura fantástica como um todo, tendo como inspiração os grandes mestres do gênero: L. Frank Baum, Lewis Carroll, Neil Gaiman, entre outros.

Na pequena trama de Mãe d’Água, Lucas leva o mito para uma narrativa de terror, inspirada nos contos de autores que o influenciam. Ambientado em 1905, acompanhamos uma família que viaja de São Paulo para o Amazonas. Lá o patriarca da família fez riqueza com a exportação da borracha. Nesse contexto histórico se encontra o ápice da difusão das lendas e mitos do povo, principalmente dos indígenas, daquela região. Na pequena horror trip a família faz parada em Belém-PA, um dos berços da lenda da boiuna, ou cobra gigante.

A lenda da boiuna, também conhecida como boiaçu, mãe d’água e mãe do rio, tem várias origens e versões. Com variações encontradas pelo Pará, Amazonas, Roraima e Acre, todas essas versões falam de uma cobra gigante. No conto, o autor se utiliza de uma das versões mais populares e aterrorizantes da cobra. Se hoje para nós a lenda não tem mais efeito além do cultural, para os povos ribeirinhos que a instituíram, ela era um perigo real e mortal.

Representação da Boiuna

A boiuna pode ser tida como não mais que uma representação fantástica da sucuri ou da jiboia, cobras grandes e típicas da região. Ambas causavam medo pelo tamanho e pelas crenças que de se famintas poderiam engolir um ser humano inteiro. Isso já era suficiente para o surgimento do mito, ainda que na lenda a boiuna seja descrita como uma cobra preta, com escamas brilhosas capazes de refletir a lua e olhos flamejantes. A boiuna podia ainda se transformar em embarcações para enganar e engolir suas vítimas. Essa é também a descrição encontrada no conto.

Nádia, a protagonista e narradora, é quem está viajando juntamente com seus dois filhos, Vicente e Jaquelina, e a governanta Quirina, para encontrar Murilo no Amazonas. Durante a viagem eles param para descansar na casa do Sr. Henry Millman, um inglês sócio de Murilo que lidera as exportações de borracha. Na curta estadia a família começa a ser assombrada pela figura mítica da boiuna e o que seria uma viagem tranquila passa a ser um completo pesadelo.

Como já disse, Lucas tem talento e qualidade na escrita. A narrativa flui de forma rápida e prende o leitor, como pede que seja um conto. E talvez por este ser um dos gêneros mais difíceis estruturalmente, devo dizer que Lucas peca apenas no final. A narrativa segue em ritmo acelerado, dado o caráter curto da mesma, mas culmina em um final abrupto e rápido demais. Acredito que a viagem e o uso da figura mitológica em si pudesse ser melhor aproveitado e mais desenvolvido. Embora o autor tenha tido o cuidado de não deixar a contextualização da lenda cair num didatismo exagerado e pedante.

O título talvez gere confusão em alguns leitores, já que em geral o termo “mãe d’água” é associado a outro ser do folclore popular brasileiro, a iara, que tem a forma de sereia. No entanto, uma pesquisa rápida poderá sanar essa dúvida, pois o termo por vezes é usado para designar a boiuna. Se o trabalho do autor levar o leitor à pesquisa dessa e de outras lendas, já temos mais ponto positivo aqui. Por fim, ressalto que vale a pena conhecer o trabalho do Lucas e recomendo que fiquem de olho, é provável que venha muito mais por aí.

Ficha Técnica

Título: Mãe d’Água
Autor(a): Lucas Benetti
Editora: do autor
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 19
Sinopse: Em 1905, mãe e filhos vão ao encontro do pai da família em uma cidade até então desconhecida: Manaus, intrincada no norte do Brasil. Ao chegarem na receptiva mansão dos ingleses Millman, estranhos acontecimentos fazem com que a viagem de reencontro seja, na verdade, um pesadelo cruel.  Inspirado no estilo de H. P. Lovecraft (O chamado de Cthulhu), Robert W. Chambers (O rei de amarelo) e Caitlín R. Kiernan (A menina submersa), Mãe d’Água mistura elementos clássicos do gênero horror à rica – e desconhecida – mitologia brasileira.

Onde comprar:
Amazon

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