Mommy (Idem, 2014)

Não é um filme gay, é um filme queer” (oi?), terminou de filosofar e enrolar para começar a sessão, um coroa da organização do Festival Mix Brasil, sabendo da expectativa da plateia. A essa altura eu já estava em cólicas com medo dos 139 minutos do filme irem além do horário do metrô. Meu querido, com esse frio não dá para dormir na calçada da Augusta, adianta aí o papo.

Xavier Dolan
Xavier Dolan

Mas o careca metido a “já passei dos 45 anos, mas sou gostoso” estava certo! Mommy não é um filme de “viado”, a respeito da temática dos outros longas do canadense mais que brilhante Xavier Dolan. O bonito, digo, o jovem cineasta já tão premiado revive o tema da relação conflituosa entre mãe e filho – de pai ausente – que abriu sua carreira de sucesso com Eu matei minha mãe (2009). Mas o verbo revisitar com Dolan não significa repetir, como faz Woody Allen.

Ele tem uma direção extremamente criativa. Cada plano parece minuciosamente pensado, e como o plano é o “átomo” do cinema, logo pode se dizer que Xavier faz arte. A prova é que, tal como aconteceu em 2009, o canadense foi ovacionado pelo público no Festival de Cannes deste ano e está na briga pelo Oscar.

Xavier Dolan conseguiu o que todos os jovens aspirantes ao cinema desejam, ser reconhecido por bons filmes, sem margem para se apontar o contrário. O que chama mais atenção nele (não é a beleza, juro!) é o domínio de todos os processos criativos de seus filmes. Mommy tem bons diálogos, bom roteiro, boa direção e até boa música, ainda que na trilha tenha a desenxabida Lana Del Rey com sua depressiva-maníaca Born To Die. Embora seja uma pena as canções em francês terem cedido espaço ao pop americano, o que de certa forma indica um possível desejo a Hollywood. Espero que não!

Mommy (Screenshot 02)

Dolan sabe dosar na medida certa construção dos personagens com enredo, fazendo com que seus longas não pareçam uma “viagem” da cabeça de alguém ou, na outra ponta, que caiam na superficialidade para prender a atenção do público. Na sua mais nova arte, Dolan nos provoca com a história e sentimentos de Diane Després (Anne Dorval) e Steve (Antonie-Oliver Pilon), mãe e filho que se batem e se xingam a todo momento.

Daquelas que bebem vodka como café da manhã, Diane é uma viúva porra loca, que precisa criar sozinha o filho adolescente que só faz merda. Toda essa cagada faz Mommy ser além de tudo engraçado, tanto que as gays da plateia, já frustradas com o aviso do coroa careca, não paravam de rir mesmo assim, como se tivessem visto um passarinho verde. Até cacete fica classudo na boca dos personagens de Dolan.

Mommy (Screenshot 01)

Diagnosticado com Síndrome de Déficit de Atenção, entre outras coisas, Steve precisa ser internado em uma clínica de tratamento. Para evitar que ele vá parar num centro de delinquentes juvenis, Diane o leva para casa, mesmo sabendo que o temperamento explosivo de Steve pode acabar em uma merda bem grande. Aliás, toda a história de Mommy é daquelas de falar: “puta merda”!

E não poderia acontecer outra coisa! Deu merda! Porém, para servir como advogada do Diabo dessa relação caótica, eis que surge a vizinha gaga Kyla (Suzanne Clément). Tímida e sem falar uma palavra sem tropeçar, Kyla oxigena o convívio dos dois. Diane e Steve passam a ter uma amiga fiel para lhe ajudarem nas suas vidas, que insistem em ficar na merda. Os três passam a se socorrem mutuamente. Kyla melhora da gaguez, Steve para de roubar e se meter em confusão e Diane consegue recomeçar, até arranjando um emprego. Mas eis que surge a merda novamente…

Mommy (Screenshot 03)

Como alertou o coroa-careca, Mommy não é um filme gay. Mommy é a história de mãe e filho que, apesar das circunstâncias e da loucura de cada um, acima de tudo se amam muito e é esse sentimento que movem seus personagens. Mas só o amor basta? Xavier Dolan bota o dedo na ferida.

Mommy é um filme lindo, que parece mostrar que vale a pena insistir em uma relação familiar mesmo tão complicada. Diane, por trás de toda sua excentricidade, é uma mãe capaz de tudo para ajudar seu filho, até mesmo renunciar da própria vida. Já Steve precisa conviver com esse peso de ser um estorvo nas costas da mãe e acaba fazendo mais burrada tentando satisfazê-la. Saí da sala do CineSesc com um turbilhão de sensações. Tentei digeri-las na linha verde, mas o “próxima estação, Ana Rosa” veio muito rápido. É preciso tempo para conseguir entender o fazer tudo por alguém, não só no cinema…

Ficha Técnica

Título: Mommy Título Original: Mommy Direção: Xavier Dolan Roteiro: Xavier Dolan Gênero: Drama País: Canadá Ano: 2014 Duração: 134 min. Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon e Suzanne Clément Sinopse: Uma viúva encontra-se sobrecarregada com a custódia em tempo integral de seu explosivo filho de 15 anos de idade que sofre de déficit de atenção. Enquanto tentam sobreviver, a nova garota do outro lado da rua, Kyla, benevolentemente oferece o apoio necessário. Juntos, eles descobrem um novo sentido de equilíbrio e a esperança pode ser recuperada.

Trailer

Anúncios

Um comentário

  1. Olá

    Como fã de Xavier Dolan (mesmo ainda tendo inúmeras dúvidas a respeito da pronúncia de seu nome) já estou bastante curioso com esse novo longa. Meu favorito é também ‘Eu Matei Minha Mãe’ e fiquei ainda mais curioso ao saber dessa revisitação do diretor, que eu também acho bastante criativo em tudo que faz. Quero ver e já estão especulando que o filme pode ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

    Abraço!
    http://www.umomt.com
    http://www.pipocaradioativa.com.br

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s