As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov

– Já ouviu falar da Primeira Lei da Robótica, sr. Baley?
– É claro. Posso até citá-la: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido. – De repente, Baley apontou o dedo para o roboticista e continuou: – Por que um robô não pode ser construído sem a Primeira Lei? O que há de tão sagrado nela?
Isaac Asimov, As Cavernas de Aço, pág. 193.

Conheci Isaac Asimov ainda na adolescência. Assim que descobri meu ávido gosto pela leitura passei a me refugiar nas bibliotecas públicas que tinham na cidadezinha onde nasci. Foi lá que descobri nomes como C. S. Lewis, Roald Dahl e em seguida Asimov. Foi com um exemplar de Eu, Robô (edição que guardo até hoje) que eu conheci seu trabalho e soube que Asimov era a mente por trás de histórias como o filme homônimo e O Homem Bicentenário. Não deu outra, fui lendo e me apaixonando.

Essa primeira experiência ainda não tinha me tornado um fã assíduo de ficção-científica, tanto que depois disso nunca mais li nada além de contos do autor, que por sinal escreveu e editou mais de 500 livros. Eu ainda estava longe de conhecer bem seu trabalho. Já na fase adulta conheci um senhor chamado Philip K. Dick, que me sugou por completo para a sci-fi, tornando este meu gênero favorito. E como não poderia deixar de ser, voltei a ler Asimov. Meu retorno não poderia ser melhor, eis que estou aqui para falar sobre As Cavernas de Aço, primeiro volume de uma trilogia (que posteriormente se tornou uma quadrilogia).

Portrait Of Isaac Asimov

Quando a Sci-fi encontra a Literatura Policial

A ideia de escrever um romance misturando literatura policial e sci-fi surgiu, segundo o próprio Asimov, em resposta a uma afirmação do seu editor John W. Campbell, que disse que romances de mistérios e sci-fi eram gêneros incompatíveis. Asimov se utilizou da fórmula já conhecida da trama de mistério e acrescentou sua experiência na sci-fi usando como elementos principais os robôs, sua nova paixão dentro do gênero. As Cavernas de Aço não só casou bem e com sucesso os gêneros como vendeu mais do que qualquer outro livro do autor publicado até então.

Na trama acompanhamos o detetive Elijah Baley, que ocupa um cargo de baixo nível no departamento de polícia de Nova York. Ele tem que conviver diariamente com o fato de um de seus colegas de faculdade ter saído na frente e ser seu atual chefe, o Comissário Julius Enderby. Certo dia, Baley é escalado pra investigar um caso de assassinato na Vila Sideral localizada na fronteira com a cidade de Nova York. Mas antes de continuar é preciso entender um pouco da contextualização da obra.

Elijah Baley e R. Daneel Olivaw
Elijah Baley e R. Daneel Olivaw

Humanos vs. Robôs

No universo fictício criado por Asimov, o planeta Terra vive num estado pós-apocalípto, tendo atingido o ápice do crescimento populacional. Tal fato ocasionou: o aceleramento da corrida espacial, que permitiu a colonização de inúmeros planetas, os Mundos Siderais; o crescimento exacerbado das metrópoles, engolindo as cidades cornubadas e se transformando nas Cidades fechadas e autossuficientes, também conhecidas como Cavernas de Aço; o esgotamento de recursos naturais, alimentos e animais; a criação de máquinas para auxiliar ou substituir o trabalho dos homens, os robôs.

As Cidades são regidas por regras e sobrevivem graças aos avanços tecnológicos e biotecnólogicos. Algumas profissões sumiram, outras novas apareceram como os zymologistas, outras ainda ganharam maior destaque como os nutricionistas. A população não tem mais acesso livre a alimentos naturais, ela é mantida através das plantações de leveduras e das modificações genéticas aplicadas a elas para criar novos alimentos com sabores e cores semelhantes aos alimentos antigos. O ar para respiração e a iluminação também são artificiais, já que há uma espécie de redoma que isola as Cidades.

As Cavernas de Aço (Arte Conceitual)
As Cavernas de Aço (Arte Conceitual)

Os seres humanos da Terra são totalmente contra os robôs, pois os veem como uma ameaça ao seu trabalho ou à própria substituição da espécie. No entanto, os robôs são bem aceitos e mais desenvolvidos nos Mundos Siderais, que são povos com alta tecnologia, que vivem em harmonia com a natureza e a utilizam de forma sustentável e também são populações livres de doenças. Os humanos da Terra são proibidos de emigrar para os Mundos Siderais, afim de impedir que eles contaminem as pessoas de outros planetas. Contudo, os líderes desses Mundos preveem que a humanidade tende a se extinguir e a população da Terra, apesar de relutante em avançar, pode ser a última esperança.

Assim, os Mundos Siderais instalam uma Vila Sideral nos arredores da cidade de Nova York afim de estudar os humanos e conduzi-los a um novo projeto de redenção da humanidade. Mas eis que um dos ambaixadores da Vila Sideral é assassinado, Roj Nemennuh Sarton. Os habitantes da Terra são proibidos de entrarem na Vila que tem um controle rigoroso de quem entra e quem sai. O principal suspeito é um robô, mas os robôs não podem matar por causa da Primeira Lei da Robótica. Assim, Baley entra na história como encarregado para investigar o crime.

Elijah e R. Sammy (Art by AnnPars)
Elijah e R. Sammy (Art by AnnPars)

Por ser um habitante da Terra, Baley recebe a ajuda de um parceiro sideral, um robô chamado R. Daneel Olivaw. Este é um novo tipo de robô feito à imagem e semelhança de seu criador, o dr. Sarton, uma réplica fiel de um ser humano. A primeira vista Baley não reconhece seu novo parceiro como um robô, mas leva um susto ao descobrir tal fato, principalmente por ele próprio ser um dos avessos aos robôs. Mas Baley precisa vencer seu preconceito para conseguir levar adiante a investigação. No meio da corrida para solucionar o caso, Baley se vê numa conspiração armada por um grupo de Medievalistas, pessoas que seguem um movimento político-filosófico em prol de que a humanidade retorne às práticas antigas de cultivo e aproveitamento da natureza. Tal conspiração atinge a família do detetive, e ele precisa correr contra o tempo para desvendar o caso e deixar sua esposa (Jessie) e seu filho (Bentley) a salvo.

A relação entre robôs e humanos em As Cavernas de Aço, assim como em outras obras de Asimov, tem como principal função retratar de forma análoga o temor que os trabalhadores tinham de perder seus empregos durante a Revolução Industrial. Alguns dos personagens Medievalistas do romance de Asimov podem facilmente ser identificados como membros do Movimento Ludista (1811-1812) que ficaram conhecidos como “quebradores de máquinas”. No romance há os tumultos envolvendo Medievalistas e robôs, que são cada vez mais usados, como auxiliares de polícia, vendedores de loja e por aí vai.

As histórias de robôs de Asimov mantém um padrão distinto da maioria das histórias de robôs escritas por outros autores, principalmente pela constante das três leis da robóticas. Se os robôs de Asimov não são capazes de ferir os seres humanos, muitos autores, como o Philip K. Dick por exemplo, se utilizam do complexo de Frankenstein para contar suas histórias. Esse é um contexto em que os robôs podem sim matar humanos, numa analogia ao mito do monstro que destrói seu criador. É assim em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? em que o policial Rick Deckard deve impedir um grupo de androides revoltos que mataram humanos em outros planetas.

A Corrida Espacial

Mais do que discutir a dicotomia homem-máquina, Asimov lança um olhar sobre outras questões que dizem respeito ao futuro da humanidade e do planeta Terra. A principal delas é o esgotamento dos recursos naturais que impelirão a sociedade a buscar novas formas, cada vez mais artificiais e modificadas, de sobreviver. Isso é o reflexo do que se vive hoje, ainda em estágio inicial. Asimov já previa a necessidade de melhoramento genético para a ampliação da produção alimentícia. Assim como a corrida para o desenvolvimento de novos alimentos, quase sempre artificiais, para suprir a necessidade de uma humanidade cada vez mais crescente.

As Cavernas de Aço (Arte de Giovanino)
As Cavernas de Aço (Arte de Giovanino)

O romance lança mão de um viés teórico que aponta uma segunda corrida espacial como o meio de salvação do ser humano, mais precisamente a colonização de novos planetas. O mesmo tema é abordado no novo filme de Christopher Nolan, Interestelar. No filme, a humanidade sofre revides da natureza, assim como o desenvolvimento de pragas capazes de destruir espécies de plantas. Os humanos estão sucumbindo e não conseguem avançar na mesma velocidade para manter todos a salvo. A corrida espacial durante a Guerra Fria não teve os resultados esperados, e agora os humanos precisam tentar novamente ir ao espaço na esperança de encontrar um novo lar. No livro de Asimov muitos planetas já foram colonizados, mas a maioria por humanos nascidos já em outros planetas. A Terra precisa novamente se voltar ao espaço se realmente quiser ser salva.

Outra leitura interessante que trata desse tema é o recém-lançado aqui no Brasil, Perdido em Marte (Ed. Arqueiro), de Andy Weir. Nesse, acompanhamos uma expedição que tenta estudar a possibilidade de colonização de Marte. A missão falha, mas um dos astronautas fica preso no planeta vermelho e tenta usar seu conhecimento para sobreviver no máximo até um possível resgate, para isso ele começa a cultivar plantas e desenvolver novas técnicas de sobrevivência. O romance de Andy se atém a uma vertente mais científica e próxima da nossa realidade, dentro do gênero sci-fi. Em breve falarei com detalhes sobre este livro por aqui.

A Série no Brasil

Essa quadrilogia faz parte de uma série maior intitulada Robôs, iniciada com Eu, Robô, que será relançado esse mês no Brasil pela editora Aleph. Além disso, Asimov resolveu unificar o universo da série Robôs com o de sua série de maior sucesso, Fundação.

Série Robôs

A editora Aleph está publicando esta série atualmente no Brasil. Os dois primeiros volumes, As Cavernas de AçoO Sol Desvelado, já estão disponíveis. No entanto, esta quadrilogia já havia sido publicada por aqui pelas editoras Hemus e Record, com os títulos: Caça aos RobôsOs RobôsOs Robôs do AmanhecerOs Robôs e o Império. Os dois últimos volumes ainda não tem data de relançamento.

Cavernas Adaptadas

Por ser uma das séries de maior sucesso de Asimov, não demorou para que a mesma ganhasse várias adaptações para a TV e Rádio. A primeira delas data de 1964, quando a BBC exibiu uma adaptação de As Cavernas de Aço em um episódio da série Story Parade, trazendo Peter Cushing no papel de Elijah Baley e John Carson como R. Daneel Olivaw. Veja abaixo um texto do episódio:

Em 1969, foi a vez de O Sol Desvelado ser adaptado em um dos episódios da série  Out of the Unknown. Nessa versão Elijah Baley foi interpretado por Paul Maxwell e R. Daneel Olivaw por David Collings. Em 1988, a Kodak lançou um jogo em VRC chamado Isaac Asimov’s Robots, uma espécie de filme interativo com partes baseadas no enredo de As Cavernas de Aço. Por fim, em 1989, a Rádio BBC transmitiu uma adaptação do romance, com Elijah Baley na voz de Ed Bishop e R. Daneel na de Sam Dastor.

Almost Human

Ano passado estreou uma série de TV levemente baseada na obra de Asimov, Almost Human. Cancelada ainda na primeira temporada, a série acompanhava o dia a dia de um policial e seu parceiro robô, que também era feito de forma a ser confundido com um ser humano. Assim como no romance, a cidade era cercada por um muro que dava para um mundo exterior, cuja explicação ficou inacabada pelo cancelamento. Na série, o robô quase humano se chama Dorian e foi criado através de um programa chamado Alma Sintética, mas ao contrário dos robôs de Asimov, Dorian não era regido pelas Três Leis.

As Três Leis da Robótica

Isaac Asimov foi o inventor do termo “robótica”, assim como das Leis da Robótica, transcritas abaixo:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido.
  2. Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou com a Segunda Lei.

Sequência de publicação/Cronologia da série

  • As Cavernas de Aço (The Caves of Steel, 2013)
  • O Sol Desvelado (The Naked Sun, 2014)
  • The Robots of Dawn (1983)
  • Robots and Empire (1985) [sequência da trilogia original]

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Ficha Técnica

Título: As Cavernas de Aço
Título original: The Caves of Steel
Autor(a): Isaac Asimov
Editora: Aleph
Tradução: Aline Storto Pereira
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1953
Páginas: 302
Sinopse: Em Nova York, o investigador de polícia Elijah Baley é escalado para investigar o assassinato de um embaixador dos Mundos Siderais. A rede de intrigas envolve desde sociedades secretas até interesses interplanetários. Mas nada o preocupa tanto quanto o seu parceiro no caso, cuja eficiência pode tomar o seu emprego, algo cada vez mais comum.
Pois seu parceiro é um robô. Publicado no início da década de 1950, As Cavernas de Aço é o primeiro romance da consagrada Série dos Robôs de Isaac Asimov, mesclando de forma magistral os gêneros de ficção científica e literatura policial.

Onde comprar:
Editora Aleph | Cultura | FnacEstante Virtual

4 comentários

  1. Puxa, que resenha bacana! Abordou os principais aspectos da obra de forma muito interessante. As imagens do post também são muito sugestivas. Nuca li nada do Asimov, mas todo mundo fala tão bem dele que resolvi correr atrás do tempo perdido e pegar um livro dele pra ler. E, graças a essa resenha, já sei qual vai ser o primeiro…

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Iago,

      Fico feliz que tenha gostado da resenha. Eu gosto de falar um pouco sobre o todo da obra, sempre acabo me empolgando e meus posts ficam enooormes, mas gosto quando alguém lê até o final e comenta o que achou. Obrigado mesmo por ter lido.
      Então, esse é um ótimo livro para começar sim, o “Eu, Robô” também é uma boa opção. Eu também preciso correr contra o tempo para ler a obra do Asimov, afinal são mais de 500 livros escritos e editados, né?
      Abração

      Curtir

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