A Casa de Chá, de Ellis Avery

Uma mistura de aventura com duas colheres de romance e um aroma inebriante.

Chá. Uma bebida leve e deliciosa indicada para embalar as tardes de qualquer um. O chá é uma iguaria, muitas das vezes, com propriedades curativas e, segundo uns e outros, místicas.

Quando se fala em chá, quase que de forma unanime, nossas mentes são levadas para as cordiais terras inglesas, onde a iguaria popularizou-se tanto que se tornou símbolo nacional.

Mas, na Inglaterra, o chá nada mais é que uma tradição cordial, um hábito bem vindo à população do país. Nada tem a ver com espiritualidade ou religião, logo, não se trata de uma cerimônia sagrada. Já em países do Oriente, como Índia, China, Japão, etc., o chá (ocha, em japonês) faz parte de uma antiga e importantíssima cerimônia espiritual que deve ser compartilhada com a família e membros importantes da elite social, com séculos precedentes à fama que conquistou em terras britânicas.

Mas, será que uma bebida tão mística teria o poder suficiente para mudar por completo a vida de uma pessoa de uma hora para a outra? Com uma forcinha divina, ele, com certeza, foi capaz de mudar de forma drástica a trágica vida de Aurélia Bernard, uma menina de dez anos que não possuía nada, muito menos sorte, até que pisa em terras nipônicas e tem sua vida revirada pelo avesso.

Casa de chá
Casa de chá

De uma missa a um Temae

A pequena Aurélia vivia com sua pobre mãe e seu tio padre em um convento nos Estados Unidos. Sua mãe trabalhava como serviçal no local e Aurélia estudava no colégio cristão que havia lá. A garota era alvo constante de escárnio das colegas, mas não se importava, tinha o apoio da mãe que a amava muito apesar da miserável vida que levavam, vivendo em prol de todos os caprichos do tio que, considerava sua irmã uma “perdida” por ter engravidado sem estar casada e vivia tentando ensinar a palavra de Deus para a sobrinha, afim de salvar-lhe a alma.

Logo as navegações católicas conseguem, finalmente, penetrar o inalcançável país do Japão e começa com a difícil missão de catequizar os japoneses, adeptos do xintoísmo e nem um pouco interessados em um Deus como o apresentado pelo cristianismo. O tio de Aurélia é convocado a participar dessa tarefa e, toda a família começa com os preparativos para a mudança ao país desconhecido.

Mas logo a mãe da menina cai doente, impossibilitando sua partida. Sabendo que faleceria dentro de pouco tempo, mente para a filha para que ela vá com seu tio, dizendo que pegará um navio logo em seguida. Mesmo relutante, Aurélia parte e sua mãe não tarda a morrer. Quando descobre o ocorrido a menina fica desolada. Estava sozinha em um navio repleto de pessoas carrancudas e formais, com exceção do cozinheiro, um senhor japonês muito simpático.

Ellis Avery em uma casa de chá
Ellis Avery em uma casa de chá

Logo desembarcam e a menina encanta-se com a nova terra, principalmente com o Toori (portal vermelho sagrado) de um santuário a uma deusa local.

Nossa protagonista tinha bastante facilidade no aprendizado de novas línguas, sendo fluente no francês e no inglês, de modo que a igreja resolve aproveitar-se de sua habilidade, pondo-a para aprender a língua local e, de fato, ela demonstrava mais êxito que os demais nobres da igreja ali presentes.

Em um momento de frustração em sua carreira cristã, seu tio embebeda-se e chama-a para que escute histórias em seu colo. Ela, tão acostumada a ser ensinada por ele dessa forma, vai de bom grado, mas é cruelmente molestada por ele.

Desesperada e humilhada, ainda que não entendesse bem o que acabara de ocorrer, a menina foge e parar na frente do Toori que tanto a encantara. Faz o ritual, aprendido clandestinamente, para a deusa local e lhe faz um pedido. O pedido? “Qualquer vida que não aquela”.

A Casa de Chá (Capas Americana, Britânica e Romena)
A Casa de Chá (Capas americana, britânica e romena)

Um amor proibido

Coincidência ou não, o vilarejo onde toda a comunidade católica se mantinha é devastado por um incêndio e a garota foge em uma carroça, indo parar em um jardim onde bebia água do lago como um animal e buscava abrigo em uma bela construção ali presente. Logo é encontrada por uma linda e chorosa jovem japonesa que havia ido àquele lugar para aliviar as dores de seu coração. Seu nome era Yukako Shin. Aurélia apresenta-se à garota, porém devido a impossibilidade japonesa de reproduzir alguns fonemas, ela entende como se seu nome fosse “Urako” ao invés de “Aurélia”, e, a partir daí, seu nome torna-se esse.

Ainda que não entendesse muito do idioma local, logo Aurélia percebe que a moça era filha do dono daquele lugar e Yukako a leva para casa na esperança de que seu pai, chamado de “Montanha” por Aurélia, lhe desse abrigo.

Escondida com uma criada da casa, Aurélia presencia o sagrado “temae”, a cerimônia artística e espiritual de servir chá, realizada por Yukako ao seu pai. Nessa cerimônia Yukako apresenta Aurélia ao senhor da casa e pede-lhe para que ela se torne sua “imouto” (irmã mais nova), tornando-a um membro da família. O mestre Shin se nega a dar-lhe tanto privilégio, mas aceita Aurélia como criada particular de Yukako, que, quando seu pai não estava por perto, tratava a jovem Urako como irmã ainda assim, mandando-a chama-la de Onee-san (irmã mais velha) longe do olhar dos outros.

A Casa de Chá (Capas Alemã, Holandesa e Espanhola)
A Casa de Chá (Capas alemã, holandesa e espanhola)

Aos poucos o tempo vai passando e Urako vai cada vez mais deixando de ser Aurélia, adotando o idioma e os costumes tão distintos do local, tão distintos dos de sua pátria anterior. Junto com essa chuva de novas descobertas e desventuras, Urako descobre-se apaixonada por sua Onee-san e senhora, Yukako, noiva de um importante Samurai, aluno do mestre da casa (este ganhava a vida ensinando o sagrado ritual do chá dos Shin, muito prestigiado em todo o país, para famílias de importância social elevada) e completamente apaixonada por ele. Urako sabe que seu amor é impossível, por isso o mantém em segredo, nunca deixando de tirar uma “casquinha” de Yukako quando pode e acalentando-a sempre que precisa.

A paz da casa Shin ia “muito bem, obrigada” até que o país começa a ser bastante modificado por influência dos ocidentais que, após séculos de tentativas frustradas, conquistavam espaço nas terrinhas do sol nascente, destruindo velhos costumes em tentativas vorazes de extinguir o xintoísmo tido por eles como pagão e implantar o catolicismo e seus demais costumes. Assim dá-se início a Era Meiji, uma época conturbada da História japonesa repleta de guerras, desentendimentos e desventuras para a casa dos Shin, tanto financeira quanto espiritual e emocionalmente. O que acontecerá à Urako no decorrer da trama? Irá conseguir ajudar Yukako a salvar sua família e conquistar seu amor? Só eu acho que vai ser difícil para ela conseguir isso tudo? Bem… veremos…

O primeiro gole

Ellis Avery
Ellis Avery

O livro é escrito com maestria gigantesca pela talentosíssima escritora estadunidense Ellis Avery, que narra a trama com uma riqueza emocional muito boa e uma leveza sem fim. É de fácil leitura, daqueles livros que você pega uma vez e não consegue largar até acabar de ler. E, quando acaba, é acometido por aquela tradicional “depressão-pós-livro” que só os melhores lhe despertam. O amadurecimento mental e corpóreo de Aurélia nos envolve de forma única, nos levando a embarcar em seu mundo de descobertas, sentindo-nos em sua própria pele. O que está esperando para ir à livraria mais próxima adquirir seu exemplar? O livro não se compra sozinho e ele é perfeito demais para que você não o tenha, confie em mim. Se já o tem, despeço-me aqui e o deixo em sua ótima companhia. Que os tengos e os deuses embalem sua leitura e, como diriam os japoneses, “Matta ne!”, o que em bom e belo português nada mais é que um “Até breve!”.

Ficha Técnica

Título: A Casa de Chá
Título original: The Teahouse Fire
Autor(a): Ellis Avery
Editora: Record
Tradução: Kvieta Brezinova
Edição: 2010 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2006
Páginas: 490
Skoob: Adicione
Sinopse: Depois de ser molestada pelo tio, a menina Aurelia foge durante um incêndio que varre Kyoto. Sua sorte muda quando é acolhida pelo professor Shin, o mestre de chá mais importante da cidade, e se torna acompanhante de sua filha, por quem nutrirá desejos secretos. A luta de Aurelia para se encaixar em uma sociedade fechada e cheia de mistérios reflete as mudanças culturais japonesas do final do século XIX. E conforme a cultura ocidental invade o país, os Shin precisam encontrar um caminho para perpetuar a tradição do chá.

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Um comentário

  1. Poxa, que legal encontrar a resenha desse livro aqui. Faz um tempão, anos até, que quero lê-lo; o que me atrai nele é que parece ser tão leve e fluido em termos de escrita, ao passo que a temática difere um pouco do que estamos acostumados a ver por aí. Com certeza é um livro que eu ainda quero ler, futuramente.

    Beijos, Livro Lab

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