Homem Invisível, de Ralph Ellison

Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu.
Ralph Ellison, Homem Invisível, pág. 25

A invisibilidade social consiste no apagamento ou não reconhecimento de uma pessoa enquanto ser humano distinguível dos demais, com características individuais próprias e significantes. Tal noção pode adequar-se a qualquer minoria ou grupo marginalizado socialmente devido a uma “cegueira coletiva”, provocando, assim, a invisibilidade, seja por critérios econômicos, raciais, etários, religiosos, de gênero ou de orientação afetivo-sexual.

Esse conceito de invisibilidade é fruto de uma reflexão contemporânea, desenvolvida no século XX, sobre as desigualdades sociais realçadas no sistema capitalista. É um tema que suscita uma relevante discussão sobre o papel do indivíduo na sociedade e o reconhecimento da sua individualidade e da sua identidade no meio social.

Em Homem Invisível, de Ralph Ellison, a questão da invisibilidade negra nos Estados Unidos é apresentada como o tema central da história, sendo este um dos primeiros livros a tratar do assunto. A obra narra a trajetória de um jovem negro que nasceu no Sul dos EUA e experimenta esse sentimento de invisibilidade, ou melhor, descobre-se invisível perante a sociedade norte-americana no início do século XX.

Esse jovem, cujo nome não é mencionado na obra, fato que o relega ainda mais ao anonimato, é o narrador do livro e nos conta a sua vida desde os seus primeiros anos como estudante universitário, em que frequentou uma universidade para negros, até os acontecimentos que o levaram a morar numa toca clandestina, iluminada por 1.369 lâmpadas, um porão subterrâneo em Nova York, local em que vive e de onde ele agora narra a própria história.

Teagle F. Bougere homem invisível court theatre
O ator Teagle F. Bougere em cena na adaptação teatral de Homem Invisível

A obra é marcada pela tensão racial predominante nos EUA nas décadas iniciais do século passado, em que o Sul ainda estampava as marcas visíveis da herança escravista e, por conseguinte, da segregação racial; e o Norte despontava como o símbolo da liberdade e do progresso para todos, uma promessa de prosperidade e melhores condições sociais para os negros estadunidenses.

Tendo crescido no Sul, o narrador procurou adaptar-se àquela sociedade, aprendendo a ser uma pessoa decente e passiva, a servir os brancos, e saber seu lugar na sociedade. No entanto, uma inesperada mensagem do seu avô, pouco antes de morrer, começou a provocar-lhe uma inquietação crescente, que explodiria numa súbita clareza e compreensão do seu real significado anos mais tarde.

Apesar de fazer tudo o que podia para encaixar-se naquele mundo, o narrador, embora fosse um excelente aluno, acaba sendo expulso da faculdade em que estudava, por ter levado o Sr. Norton, um dos antigos fundadores da universidade, a um local inapropriado e este ter sofrido um pequeno ferimento na cabeça enquanto estava aos seus cuidados como motorista. Como punição, o jovem foi enviado a Nova York para trabalhar e acumular alguma quantia para bancar seus estudos quando voltasse.

A ida para Nova York, entretanto, não seria temporária, pois conforme descobriu, numa das cartas de referência que lhe foi revelada, as orientações do reitor, Dr. Bledsoe, ao seu futuro empregador não eram para um emprego temporário, mas para uma permanência alimentada com a falsa esperança da volta para a universidade. Quando na verdade ele havia sido expulso de forma definitiva.

Assim, por sugestão do filho desse empresário, o narrador procura emprego numa fábrica de tintas e logo é contratado. Uma série de acontecimentos imprevistos, humilhações e mal-entendidos sucedem nesse primeiro dia de trabalho; como o fato de ele ter entrado acidentalmente numa sala de reunião do sindicato dos operários grevistas e acusarem-no de ser um delator, e a briga com seu chefe local que acreditara que ele fosse mesmo um membro do sindicato; até culminar com a explosão de uma máquina de pressão.

Ralph Ellison homem invisível
Ralph Ellison

Depois da explosão, o protagonista dessa história perde temporariamente a memória e fica internado no hospital da fábrica. Lá ele é usado como cobaia em experiências médicas, nas quais lhe aplicam eletrochoques. Após tal experiência, o jovem sulista é ajudado por uma matriarca generosa do Harlem que o ajuda a se recuperar do choque emocional e da fraqueza. Ele recebe uma indenização por conta do acidente de trabalho e tenta se reerguer e retomar a vida.

Durante sua estada em Nova York, o narrador vai se encontrando com personagens inusitados e vivenciando situações de revolta e indiferença, que gradualmente vão abrindo-lhe os olhos e a realidade aos poucos vai se tornando mais visível.

Homem Invisível, portanto, é uma obra que se mantém bastante atual, passível de diferentes leituras e releituras, pois o drama da invisibilidade ainda hoje é parte da nossa realidade. Assim como o narrador do livro descobriu a si próprio como um ser invisível, uma pessoa que não é notada, ou enxergada na sociedade além dos arquétipos que a acompanham, há incontáveis pessoas invisíveis que circulam pelos meios sociais ao redor do mundo, sem serem enxergadas como indivíduos que possuem uma identidade desvinculada de sua imagem funcional na sociedade, mas são vistas apenas como meras peças componentes do quebra-cabeça urbano.

Por fim, esse clássico da Literatura norte-americana é uma leitura fundamental para a formação de um pensamento social crítico e para a reflexão sobre o racismo e a invisibilidade racial, mostrando que o modo de solucionar a questão das diferenças sociais não é negá-las ou ignorá-las, mas por meio do reconhecimento dessas diferenças e da necessidade de se repensar a estrutura social vigente. Desse modo, se compreendermos melhor como funciona tal estrutura, poderemos lutar por mais igualdade e por condições mais justas para todos.

Ser invisível e sem substância, uma voz desincorporada, como foi, o que podia fazer? O que mais, senão tentar dizer a você o que efetivamente acontecia quando seus olhos não me enxergavam? E é isso que me aterroriza.
Quem sabe se, nas frequências mais baixas, eu falo também por você?  (p. 572)

Curiosidades:

  • O romance Homem Invisível é aclamado como uma obra-prima da Literatura estadunidense, inclusive é adotado como obra literária no currículo de diversas escolas dos Estados Unidos.
  • Em 1953, esse livro foi vencedor do National Book Award (em português, Prêmio Nacional do Livro), um dos mais importantes prêmios literários dos Estados Unidos da América, dado anualmente aos melhores livros escritos por cidadãos norte-americanos vivos.
  • Uma adaptação teatral da obra Homem Invisível foi produzida em 2012, no Court Theatre, em Chicago, com o ator  Teagle F. Bougere representando o papel do narrador e protagonista da história.

Vídeo:

Prólogo da peça de teatro Invisible Man (2012)

Ficha Técnica

Título: Homem Invisível
Título original: Invisible Man
Autor(a): Ralph Ellison
Editora: José Olympio
Tradução: Mauro Gama
Edição: 2013 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1947
Páginas: 574
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Sinopse: O homem invisível é a história de um jovem negro que sai do sul racista dos Estados Unidos e vai para o Harlem, em Nova York, nos primeiros anos do século XX. Com o passar do tempo, entre experiências frequentemente contraditórias, o protagonista conhece um mundo muito diferente daquele que idealizara. Invisível para brancos racistas, e também para negros radicais, ele deseja apenas ser como é, e não um “homem invisível”, onde todos veem o que o rodeia e não a ele próprio. Por causa deste livro, a expressão “homem invisível” tornou-se uma metáfora da situação do negro na sociedade americana.

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