Ressurreição, de Jason Mott

Provaremos que guerras se fazem com pessoas, e que as pessoas quando não estão guerreando, podem ser razoáveis. Podem viver juntas.
Jason Mott, Ressurreição, pág. 106

Antes de mais nada, devo dizer como cheguei à leitura deste livro. Há algum tempo conheci uma série de TV francesa, intitulada Les Revenants, que era baseada em um filme homônimo de Robin Campillo. Na série (e no filme) os mortos voltavam à vida, mas não como zumbis como deve imaginar a maioria, e sim como pessoas, como se não tivessem morrido. Suas últimas lembranças são aquelas que antecedem suas mortes e nenhum deles consegue lembrar de nada que se passou entre a morte e a ressurreição. A proposta era interessante e a série francesa vale muito a pena ser vista.

Acontece que pouco depois foi anunciada uma série americana com o mesmo plot, Resurrection. Segundo os produtores em nada tinha a ver com a série francesa, tampouco era um remake americano como muitos achavam. Se você trocar a sinopse de uma pela outra terá a mesma história com nomes e lugares diferentes. Logo descobri que a série americana era baseada em um livro, este, de Jason Mott. Resolvi assistir Resurrection com a pulga atrás da orelha por ter uma trama muito parecida à de Les Revenants que já havia assistido e gostado. Mas devo dizer que ambas são boas em aspectos distintos, enquanto a francesa é mais visceral e angustiante, a americana mostra de forma mais verossímil como reagiríamos e como ficariam nossas emoções caso isso acontecesse de fato, assim como põe em xeque tabus religiosos em relação à ressurreição, milagres, entre outros aspectos, coisa que a francesa não se atém, propositalmente talvez.

Assisti apenas alguns episódios da primeira temporada de Resurrection, quatro deles para ser mais preciso, então não sei como a história se desenrola na TV. Não vi o restante porque decidi ler antes o livro, já que talvez se eu continuasse com a série já não tivesse tanto interesse no livro depois. Agora, que findei a leitura, posso retornar ao seriado de onde parei. Mas e o que eu achei do livro? A princípio comparando os quatros primeiros episódios da série com as primeiras 100 páginas do livro (fazendo um equivalente) devo dizer que a série é infinitamente melhor por conseguir retratar de forma mais ampla e crível. Mas a comparação que posso fazer é só até aí. Mas continuei a leitura.

Aquilo ao seu lado era outra coisa. A morte imitando a vida. Andava, falava, sorria, brincava e ria como Jacob, mas não era Jacob. Não podia ser. Segundo as leis do universo, era impossível. (pág. 103)

E bom, devo dizer que é preciso vencer essas primeiras 100 páginas para conseguir se envolver com o livro. No início o autor se utiliza de um humor sem graça que pouco casa com a proposta do livro. Vencido isso, Jason Mott começa a de fato desenvolver o drama dos personagens, seja daqueles que continuam vivos (os Vivos Autênticos), seja dos que retornaram (os Ressurgidos). E é então que o livro passa a ser envolvente, dramático, forte e emocionante, porque é depois da metade do livro que o autor nos coloca para pensar sobre nós mesmos e sobre coisas que evitamos pensar na maioria das vezes.

Na trama, acompanhamos principalmente a família de Lucille e Harold Hargrave. Ambos perderam um filho de oito anos há 50 anos atrás, e agora eles estando com mais de 70 anos veem seu filho, Jacob, ser um dos primeiros a retornar exatamente igual ao que era antes de morrer. Se por um lado o retorno permite um reencontro com pessoas cuja falta havia sucumbido a uma saudade eterna, por outro gera dúvidas sobre o que os Ressurgidos realmente representavam. No caso da família de Jacob, sua mãe se emociona por ter seu filho de volta, já seu pai não consegue vê-lo como seu próprio filho, mas como uma coisa, uma sombra do que Jacob havia sido um dia.

Elenco da série Resurrection, baseada no livro de Jason Mott
Elenco da série Resurrection, baseada no livro de Jason Mott

Em paralelo, acompanhamos também o personagem Bellamy, um negro, agente do governo que trabalha na tal Agência para os ressurgidos. Ele havia perdido sua mãe, e ao se ver na situação de poder passar pelo mesmo que os demais estão passando se deixa mover por uma espécie de empatia por essas famílias. O mesmo faz o papel de uma figura boa em meio ao caos. Além disso, segundo Jason Mott, Bellamy é o alter ego dele próprio. Foi uma forma que ele encontrou de se retratar sobre o que ele mesmo já havia experimentado, a perda da mãe.

As mães estão sempre bem, porque o mundo não pode se virar bem sem elas. (pág. 133)

Logo mais e mais pessoas ressurgem e o governo cria uma entidade denominada de a Agência para cuidar, cadastrar e destinar as pessoas às suas devidas famílias. Mas pouco depois tudo começa a sair do controle e surge um atrito entre Ressurgidos e Vivos Autênticos, isso com base na revolta ideológica de parte desses últimos. Enquanto algo maior se desenrola, vemos o drama de várias famílias, cada uma sobre uma perspectiva distinta. Entre crianças, idosos, marginais, artistas e até mesmo famílias inteiras que haviam sido assassinadas, todos retornam. Imagine se por exemplo o cantor Elvis Presley voltasse a viver? (se é que ele morreu mesmo, rs) Ou ainda se você voltasse a viver e descobrisse que seu assassino também voltou? O livro todo funciona como um grande “e se?”. É isso que difere, por exemplo, este livro de outros que tratam de zumbis como já os conhecemos na literatura, nesse somos incitados a entrar numa situação nada verossímil, mas completamente crível.

Além disso, o livro trata de uma forma muito interessante a aceitação. É além de tudo sobre aceitar os outros como eles são, e de outro lado, da luta pela aceitação social. Enquanto as famílias daqueles que retornaram precisam aceitar o retorno, os Ressurgidos precisam lutar pela não segregação a que estão sendo submetidos. Em outras palavras, esse tópico faz analogia a lutas de classes raciais, igualdade de direito e aceitação social. Em acréscimo, o autor diz que escreveu o livro para de certa forma se despedir de sua mãe, para que através do seu “e se” ele pudesse se redimir, ou nos redimir, de acordo com a identificação. É por tratar de redenção que Jason Mott insere como protagonistas uma família que perdeu um filho ainda criança, uma inversão da ordem natural das coisas, por isso Jason dá a chance àquela família de o filho se despedir da mãe e não o contrário.

Jason Mott
Jason Mott

Por fim, é um livro que nos leva a olhar a morte sob um novo ângulo. Embora o autor peque em determinados momentos, como por exemplo no início e no final muito repentino e sem muitas explicações, mas o todo faz com que a avaliação seja de certo modo positiva. No mais, pretendo assistir o restante do seriado para ver como as coisas se desenvolvem por lá. Se não leram ainda, leiam, se já leram deixem aqui suas impressões. Há muito pano pra manga a respeito desse livro.

Ficha Técnica

Título: Ressurreição
Título original: The Returned
Autor(a): Jason Mott
Editora: Verus
Tradução: Luiz Augusto da Silveira
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 336
Skoob: Adicione
Sinopse: Harold e Lucille Hargrave perderam o único filho, Jacob, morto tragicamente no dia em que completava oito anos, em 1966. Já na velhice, eles se acomodaram à vida sem o filho, a dor amenizada pela ação do tempo. Até que um dia Jacob reaparece misteriosamente na porta de casa, em carne e osso, a criança meiga e alegre que sempre fora, ainda com oito anos. O fenômeno é mundial — nos quatro cantos do globo, pessoas estão inexplicavelmente voltando do além para suas famílias. Vistos por alguns como coisa do diabo e por outros como um milagre, a realidade perturbadora é que o planeta, já sobrecarregado, agora precisa suportar um fluxo descomunal de seres que têm necessidades humanas: comida, água, abrigo, saneamento. Individualmente, muitos precisam decidir se estão dispostos a receber de volta os entes queridos que já não fazem mais parte de sua vida. Conforme o caos irrompe ao redor do mundo, a família Hargrave se vê no centro de uma comunidade prestes a ruir, forçada a encarar essa misteriosa nova realidade e um conflito de proporções épicas. Com sua prosa contida, elegante e intensa profundidade emocional, Jason Mott explora o melhor e o pior da natureza humana numa história inesquecível sobre amor, moral e fé.

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Um comentário

  1. Por gentileza, gostaria que voçê, se possível, me mandasse por e-mail, qual o final do livro acima mencionado, Ressurreição de Jason Mott, porque aqui onde moro não consigo achar esse livro e pode acreditar já procurei muito rs. Aguardo seu retorno e desde já agradeço.

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