O Leopardo, de Jo Nesbø

O que é, onde está, aquilo que transforma alguém num assassino? É nato, está em algum gene, uma herança que algumas pessoas têm e outras não? Ou se desenvolve por necessidade, como forma de enfrentar o mundo, uma estratégia de sobrevivência, uma doença salvadora, loucura racional? Pois, assim como a doença é um bombardeio febril do corpo, a loucura é um retiro necessário a um lugar onde se pode retomar as forças.
Jo Nesbø , O Leopardo, pág. 11

Eu sempre bato na mesma tecla ao afirmar que a literatura policial escandinava é uma das mais prolíficas do gênero, se não a mais. E não é a toa, basta ler pelo menos cinco autores dos países que formam a Escandinávia (Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia) para entender o que estou dizendo. Depois de várias incursões por esse segmento literário agrupado geograficamente no norte europeu e me apaixonar completamente pelo jeito de fazer romance policial que eles têm, finalmente pude ler o autor que é tido como o mestre do gênero por lá atualmente, Jo Nesbø. E só posso confirmar as razões do seu sucesso.

Jo Nesbø estreou na literatura em 1997 com seu romance de estreia Flaggermusmannen (O Morcego, em português), ainda inédito por aqui. Essa seria a primeira trama criminal a ser desvendada pelo detetive Harry Hole. Como acontece com a maioria dos autores do gênero, seu personagem bem sucedido resultou numa série que já conta com dez volumes. Desses apenas seis foram publicados aqui no Brasil pela editora Record, e como acontece com muitas séries do gênero, não saiu bonitinho na ordem cronológica original. O primeiro volume lançado por aqui foi Garganta Vermelha (Rødstrupe, 2000), que na verdade é o terceiro da série, antes deste vemos os dois primeiros casos de Harry Hole nos inéditos Flaggermusmannen e Kakerlakkene (As Baratas, em português).

Jo Nesbø
Jo Nesbø

Muitos leitores têm problema em ler séries fora de ordem, o que de certo modo pode ser uma perda para editora, mas como se trata de thrillers cada caso é um caso, ou melhor, cada livro é um caso. E cada volume pode ser lido separadamente, ainda que ao longo da série detalhes sobre a vida dos personagens sejam desenvolvidos de forma contínua. E eis que o sétimo livro, Boneco de Neve (Snømannen, 2007), é um dos mais importantes da série, o caso mais difícil de Harry e aquele que o acompanhará por toda sua carreira. Assim, é interessante lê-lo, antes de partir para a leitura de O Leopardo. Isso porque muito do que acontece em Boneco de Neve é relembrado em O Leopardo e a solução do caso anterior contribui muito para a elucidação do novo caso. Se não tiver problema em saber dos detalhes da trama, pode começar direto com O Leopardo, como eu fiz. Caso contrário leia Boneco de Neve primeiro, nele começa uma nova fase da vida do personagem, a partir dele não há muitas menções aos seis casos anteriores.

É sempre difícil falar de um romance policial sem mencionar detalhes importantes, mas não revelarei spoilers por aqui, para isso não falarei muito sobre a trama, vou me ater às minhas impressões em relação ao autor e os personagens. Mas, para contextualizar é preciso saber que Harry Hole se mudou para Hong Kong após o caso do boneco de neve, o mais difícil de sua carreira por ter envolvido pessoas muito queridas do inspetor. Mas eis que surge um novo caso de duplo homicídio e Harry é chamado de volta para investigar, pois a polícia suspeita de um novo serial killer e Harry é o mais capacitado e com formação para o caso. Aos poucos vão surgindo novas vítimas e a única coisa em comum entre elas é o fato de que todas elas passaram uma noite em uma cabana isolada nas montanhas.

Mapa da Oslo de Harry Hole, onde a maioria dos casos se desenrola.
Mapa da Oslo de Harry Hole, onde a maioria dos casos se desenrola.

As mortes não obedecem a um modus operandi, como é comum nesses casos. No entanto, pelo menos duas das vítimas foram mortas com um instrumento chamado Maçã de Leopoldo. Tal objeto é descrito como uma bola metálica da qual sai uma corrente com uma argola. O objeto é inserido na boca e, se puxada, a corrente aciona 24 agulhas afiadas que podem perfurar até o cérebro das vítimas, que se veem na apreensão de puxar ou não a corrente para se livrar do objeto de tortura. Mas esse é só um detalhe e que não revela quase nada sobre o desenvolver da trama. Fiz questão de mencionar o objeto pois é uma das coisas mais criativas do caso.

O caso se desenvolve ao longo de pouco mais de 600 páginas, mas a leitura voa pela fluidez da narrativa do autor e diversas reviravoltas. Eu tenho um ritmo de leitura lento, mas me vi preso na trama e devorei a leitura em pouco menos de três dias. O ponto mais alto do livro são os personagens, não surpreende o fato de o autor ter escrito 10 volumes até agora em torno deles. Mas nesse merecem destaque, Harry Hole, um dos melhores personagens centrais de séries policiais que já li, me cativou tanto quando o David Gurney de John Verdon; Kaja Solness, uma novata no departamento de polícia e nova parceira investigativa de Harry; e Katrine Bratt, uma antiga colega profissional de Harry, a quem ele recorre sempre que precisa de pesquisas na rede, Katrine rouba todas as cenas em que aparece, pelos diálogos sarcásticos e bem humorados.

Pouquíssimas coisas me incomodaram em O Leopardo, a primeira delas foi a escolha do título, que pouco tem a ver com a trama, embora seja menos pomposo O Cavalheiro seria mais adequado seguindo a linha de escolha do volume anterior. Mas isso é apenas um detalhe, o que realmente me incomodou foi uma pequena falha na trama que não foi elucidada corretamente ao final do caso (se você já leu, precisamos conversar sobre isso, preciso saber se só eu percebi, rsrs). No mais, e para retirar qualquer má impressão sobre o que acabei de dizer, devo confessar sinceramente que Jo Nesbø é um dos melhores autores policiais que li até hoje, se não o melhor.

É difícil ler O Leopardo e não querer ler tudo do autor imediatamente. Recapitulando o que eu já disse, os personagens são bem construídos e cativantes, assim como as relações pessoais entre eles e os dramas sociais pelo quais suas vidas perpassam, o caso em si é muito bem desenvolvido, Nesbø não se perde em nenhum momento com a grande quantidade de personagens que manipula, além do tom da narrativa que vicia o leitor e o segura até a última página. Nos dois últimos volumes lançados por aqui a série ganhou uma identidade visual de capa muito bacana, além de que a editora manteve o mesmo tradutor em todos os volumes da série, o que mantém certa coerência nas narrativas. É leitura obrigatória para qualquer fã de literatura policial. Com certeza um dos dez melhores livros que eu li esse ano.

Curiosidades:

  • O Leopardo foi considerado o melhor thriller do ano de 2009 pela Danish Academy of Crime Writers.
  • Os autores favoritos de Jo Nesbø são Jim Thompson, Vladimir Nabokov, Knut Hamsun, Henrik Ibsen, Ernest Hemingway, Charles Bukowski e Frank Miller.
  • Em relação a futebol, Jo Nesbø afirma que um de seus times favoritos com certeza é a seleção brasileira.
  • Jo Nesbø afirma que divide algumas características em comum com seu personagem Harry Hole, entre elas o fato de ambos serem românticos, melancólicos e de possuírem um misto de caos e disciplina.
  • Além de escritor de ficção, Jo Nesbø também é compositor e leva uma carreira musical paralela à de romancista.
  • O autor já recebeu mais de 20 prêmios pelas suas obras.
  • Além dos romances policiais, Jo Nesbø também escreve uma série de livros infantis intitulada Doctor Proktor (lançada aqui no Brasil pela editora Martins Fontes), que já conta com quatro volumes e já foi adaptada para o cinema.
  • O primeiro volume da série Harry Hole que ganhará as telas do cinema será Boneco de Neve, cuja adaptação já foi anunciada, mas sem nenhuma data prevista.

Jo Nesbø fala sobre Harry Hole (em inglês)

Sequência de publicação/Cronologia da série:

  • Flaggermusmannen (1997)
  • Kakerlakkene (1998)
  • Garganta Vermelha, 2009 (Rødstrupe, 2000)
  • A Casa da Dor, 2009 (Sorgenfri, 2002)
  • A Estrela do Diabo, 2011 (Marekors, 2003)
  • O Redentor, 2012 (Frelseren, 2005)
  • Boneco de Neve, 2013 (Snømannen, 2007)
  • O Leopardo, 2014 (Panserhjerte, 2009)
  • Gjenferd (2011)
  • Politi (2013)

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Ficha Técnica

Título: O Leopardo
Título original: Panserhjerte
Autor(a): Jo Nesbø
Editora: Record
Tradução: Grete Skevik
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2009
Páginas: 602
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Sinopse: Ao trocar a fria Oslo por Hong Kong, Harry Hole encontra refúgio no ópio, no álcool e nos jogos de azar para fugir de sua antiga vida. Porém, por mais que ele tente se manter afastado, um sórdido assassino consegue trazê-lo de volta à realidade. Duas mulheres são encontradas afogadas no próprio sangue, e uma terceira é morta por enforcamento. A cobertura da imprensa provoca grande comoção na cidade. Não há pistas do assassino, a única conexão entre as mortes é o fato de que todas as vítimas passaram a noite em uma cabana isolada nas montanhas. Conforme a investigação avança, Harry tem certeza de que está lidando com um perigoso e implacável assassino, que escolhe suas vítimas a dedo. Porém, ele não imagina que, ao assumir o caso, coloca-se também na mira desse perigoso psicopata.

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5 comentários

    • Oi Cláudio,
      Eu li primeiro O Leopardo, como deve ter notado, eu adorei. Pretendo ler o Boneco de Neve em breve, tenho certeza que vou adorar também.
      Abraços e obrigado pelo comentário.

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  1. Ademar, eu li todos também, mas já faz um tempo. E vi acima que você cita uma falha na trama de O leopardo. Que falha seria essa? Não me lembro ou não percebi, e agora estou curiosa rsrsrsr…

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