| Resenha | O Doador de Memórias (Doador #01), de Lois Lowry

O Doador de Memórias, de Lois Lowry

— Não é seguro? — Sugeriu o Doador.
— Decididamente, não é — afirmou Jonas, cheio de convicção. — Imagine se pudessem escolher seu cônjuge? E escolhessem errado? — E prosseguiu, quase rindo da ideia absurda: — Ou se pudessem escolher o próprio cargo?
— Seria assustador, não é? — Disse o Doador.
Lois Lowry, O Doador de Memórias, pág. 102

Quem nunca sonhou com um mundo onde não haverá mais nenhum tipo de desigualdade ou que todos terão certeza de que suas/nossas  escolhas estarão corretas? Mas de que precisaríamos abrir mão para que isso se tornasse realidade? É basicamente pautada nessas questões que a premiada Lois Lowry criou a sociedade de O Doador de Memórias, ou apenas O Doador, dependendo da edição. Em geral, eu não gosto de livros com capas de filme, e não gostei dessa capa também, nem da mudança do nome. Mas infelizmente a outra edição já estava esgotada.

No livro, os personagens vivem (n)a Mesmice, todos os seus passos são planejados e cronometrados, como forma de evitar que façam escolhas erradas. Não existem famílias e sim unidades familiares, isto é, cada indivíduo solicita um cônjuge que é escolhido pelos membros superiores de acordo com seu perfil. Dependendo da compatibilidade do casal, esses membros ainda podem enviar até dois filhos por unidade familiar, como forma de manter o controle de natalidade. Só para contextualizar, cada indivíduo recebe sua atribuição [cargo] na sociedade e, assim como existem funções como médicos, jardineiros, também existe o cargo de mãe biológica, que são mulheres “treinadas” para gestar até três crianças.

Mas apresentando os personagens, a história tem como protagonista Jonas, um jovem que está prestes a participar da cerimônia dos Doze, onde será escolhida sua atribuição. Este evento equivale a um aniversário coletivo, ou seja, as crianças nascidas durante tal ano, se apresentam para a sociedade [todas juntas] para uma mudança de ciclo. Assim, cada criança faz parte de um grupo direcionado a seu ano. Ou seja, Jonas era um Onze [assim como seus amigos] até a cerimônia dos Doze, onde se tornará adulto e passará a não contar mais a “idade” e receberá seu cargo.

Lois Lowry
Lois Lowry

A autora nos apresenta, inicialmente, a unidade familiar de Jonas: o Pai, que trabalha na Unidade de Criação de Bebês; a Mãe, que trabalha na Unidade de Justiça; e Lily, que é uma garotinha tagarela que está ansiosa para se tornar uma Sete. Uma curiosidade: após assumirem uma unidade familiar, os cônjuges abandonam seus nomes e se tornam apenas “Pai e Mãe”. Mas voltando a Jonas, tudo parece estar indo bem até sua cerimônia, quando ele recebe a atribuição de Recebedor de Memórias — atribuição mais importante da comunidade.

As atribuições de Jonas parecem óbvias para o leitor, mas para ele não foi, considerando que ele vive na Mesmice e não reconhece o conceito de Memória. Quando começa seu treinamento, junto ao Doador [ex-recebedor/guardião das memórias], um mundo de possibilidades se abre pra ele: cores, objetos, sensações, sentimentos, entre outras coisas até então desconhecidas, mas que ele percebe que são importantes e que ele não pretende mais viver sem [além de querer compartilhar com o restante da comunidade]. Como a função do Recebedor é guardar as memórias seguras, para continuidade do sistema, a Mesmice se vê ameaçada quando Jonas começa a agir diferente do normal.

Cena do filme: O Doador (Jeff Bridges) e Jonas (Brenton Thwaites).
Cena do filme: O Doador (Jeff Bridges) e Jonas (Brenton Thwaites).

A leitura é super envolvente e emocionante, foi uma grande surpresa, visto que li apenas com o intuito de conhecer a história antes de ver o filme. Muitas questões sociais são levantadas e problematizadas, principalmente durante as falas de Jonas e explicações do Doador. Infelizmente o livro é muito curto e muitas outras possibilidades de discussão poderiam ter sido levantadas, mas em momento algum a autora se perde no desenvolvimento da trama. A ideia central é muito bem construída, bem como os personagens.

Já até havia lido outras distopias, mas poucas me emocionaram tanto e/ou me fizeram refletir a respeito das mazelas sociais. De imediato, só consigo lembrar de Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Então só espero que leiam e reflitam!

Sequência de publicação/Cronologia da série:

  • O Doador de Memórias [O Doador] (The Giver, 2014)
  • A Escolhida (Gathering Blue, 2014)
  • Messenger (2004)
  • Son (2012)

Trailer do filme

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Ficha Técnica

O Doador de Memórias, de Lois LowryTítulo: O Doador de Memórias
Título Original: The Giver
Autor(a): Lois Lowry
Série: O Doador de Memórias
Editora: Arqueiro
Tradução: Maria Luiza Newlands
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1993
Páginas: 224
Sinopse: Em O doador de memórias, a premiada autora Lois Lowry constrói um mundo aparentemente ideal onde não existem dor, desigualdade, guerra nem qualquer tipo de conflito. Por outro lado, também não há amor, desejo ou alegria genuína. Os habitantes de uma pequena comunidade, satisfeitos com a vida ordenada, pacata e estável que levam, conhecem apenas o presente o passado e todas as lembranças do antigo mundo lhes foram apagados da mente. Um único indivíduo é encarregado de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz ideia de que seu mundo nunca mais será o mesmo. Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar.

Onde comprar:
Cultura | Saraiva | Estante Virtual | Submarino

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