O Amor é Estranho (Love is Strange, 2014)

O Amor é Estranho (Love is Strange, 2014)

Um tempo desses, eu estava assistindo à cerimônia de colação de grau de um grande amigo acompanhado do seu ex-namorado ioiô. Lá de cima do Noé Mendes, vi um casal de velhinhos se esforçando para percorrer o trajeto determinado pelo cerimonial para os padrinhos. A partir daquele instante, comecei a refletir sobre todas as etapas nas quais passamos ao longo da vida e como a última pode ser tão limitadora. Daí me virei e soltei essa pergunta para o ioiô: “você se imagina velho?”

Lógico, ninguém gosta de pensar que um dia vai ter tantas rugas quanto um maracujá que passou do ponto, mesmo que seja safadinho como a Susana Vieira e pegue garotinhos cheirando a leite. “Deus me perdoe, mas por vezes penso que é melhor morrer antes de chegar à velhice”. O ex-namorado punheta do meu amigo respondeu minha pergunta seguindo valores que excluem a possibilidade de ser feliz na velhice, como se nela a única coisa que pudéssemos produzir é lixo de fralda geriátrica e caixa de remédio. Para pessoas que pensam assim, a capacidade de amar acaba à medida que as células morrem.

Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina)
Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina)

Foi lembrando dessa história que resolvi assistir O Amor é Estranho, o segundo longa da trilogia iniciada por Mantenha a Luz Acesa, do diretor Ira Sachs e também escrito pelo brasileiro Mauricio Zacharias. Pensei: “vou perder meu tempo com um filme de velhos”? Ainda bem que perdi, pois fui contemplando com um filme delicado e tocante. Há, claro, os clichês típicos dessa idade, mas o filme se ocupa na maior parte do tempo em derrubar o pensamento cruel de que velho não vive, sobrevive, principalmente de ruim, só para dar trabalho para os outros.

Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) vivem juntos há quase 40 anos, mas depois que finalmente decidem se casar veem-se obrigados a se separar. Tudo porque Ben é demitido do emprego de professor em uma escola religiosa quando a cúpula católica descobre o “pecado” que cometeram. O que eles mais queriam e que demorou tanto para virar direito civil acabou se transformando no fator desencadeador de muitos problemas.

O Amor é Estranho (Screenshot 03)

Sem o dinheiro do trabalho, Ben e George precisam se desfazer do apartamento em que vivem e passam a morar separados, cada um na casa de um parente. Aí começa o imbróglio, uma vez que os dois sofrem ao tirar o conforto e a privacidade dos familiares. George, um pintor que nunca conseguiu vender um quadro, precisa conviver com o sobrinho adolescente que não faz questão de esconder o quanto a sua presença o incomoda. Já Ben não consegue dormir com as sucessivas festinhas do sobrinho que o abrigou. O filme expõe a situação chata de ter que incomodar a família depois de décadas de independência. E quando George quebra o braço depois de cair da escada o desconforto da dependência só aumenta, até chegar ao ponto do caldo engrossar de vez.

A relação de companheirismo e lealdade de quatro décadas entre Ben e George inspira os outros personagens e extrapola a ficção. Não que eles sejam um exemplo de perfeição. George, a porra loca do casal, sempre deixou claro que às vezes cantava em outras freguesias. Mas o que sustenta o relacionamento dos dois, principalmente com tantas dificuldades enfrentadas ao longo dos anos e acentuadas na velhice, é o amor e, sobretudo, o respeito. Valores que não enrugam, nunca.

O Amor é Estranho (Screenshot 02)

Depois de assistir ao filme, me recordei de uma fotografia que tirei há uns dois anos atrás. Um senhor bem velhinho sendo empurrado em uma cadeira de rodas por uma cuidadora na orla do Arpoador. Lembro que vendo a cena, pensei: “aquele homem mesmo com as limitações da idade não deve abrir mão de viver, de aproveitar belas paisagens, de amar. Tudo o que eu jovem também procuro”. É como diz o ditado, o corpo é quem envelhece, a cabeça não. Com o passar do tempo, quero ser igual ao Ben e ao George, com a mesma determinação de seguir em frente, continuar amando, mesmo que o corpo já não responda como antes. Não quero morrer antes de experimentar Corega Tabs, pfvr!

Idoso no Arpoador (Fotografia: Kaio Oliveira)
Idoso no Arpoador (Fotografia: Kaio Oliveira)

Ficha Técnica

Título: O Amor é Estranho
Título Original: Love is Strange
Direção: Ira Sachs
Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias
Gênero: Drama
País: Estados Unidos, França, Brasil e Grécia
Ano: 2014
Duração: 94 min.
Elenco:  John Lithgow, Alfred Molina e Marisa Tomei
Sinopse: Um casal que após uma relação de 28 anos decide se casar. Mal regressam da lua de mel, Ben é despedido da escola católica onde trabalhava, o que fará que ambos fiquem sem meios para continuar a viver na cidade. Assim, o casal é forçado a seguir – separadamente – a sua vida, permanecendo em casa de familiares.

Trailer

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2 comentários

  1. Sem dúvida é um filme bonito, mas sabe que achei bem morninho. Esperava mais, acho que todo o conflito, a situação dos dois protagonistas, não teve a profundidade que eu esperei que teria. Foi interessante de assistir, mas não mexeu muito comigo, não.

    Beijos, Livro Lab

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  2. Eu vi comentários bem bacanas desse filme, e pretendo assistir.
    Aliás, eu AMEI a resenha, mais especificamente o começo, quando você cita a resposta infeliz do ioiô hahaha
    Eu sempre pensei que a velhice será muito bem vinda em minha vida. Acho que as pessoas que procuram viver mais pelo ser do que pelo ter sentem-se realizadas.

    Beijos

    http://www.meumeiodevaneio.com.br

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