| Resenha | Eu, Robô, de Isaac Asimov

— Se uma galinha e meia bota um ovo e meio em um dia e meio, quantos ovos vão botar nove galinhas em nove dias? Isaac Asimov, Eu, Robô, pág. 208.

Já comentei em outro post que conheci Asimov na adolescência, quando li Eu, Robô pela primeira vez. Ainda hoje tenho a edição publicada pela Ediouro em 2004. Esse título foi não só meu primeiro contato com o autor, mas também com o gênero ficção científica em si, uma nova paixão para um leitor novato que já havia se rendido à fantasia. Agora na vida adulta, depois de incursões na obra de outros mestres da sci-fi (Philip K. Dick, Aldous Huxley, Ray Bradbury, entre outros) voltei a ler Asimov, a começar pelo primeiro volume da tetralogia dos Robôs, iniciada com As Cavernas de Aço.

Asimov começou a escrever sobre robôs de forma despretensiosa, apenas para criar uma história que tentasse fugir da linha que vinha sendo produzida na literatura sobre eles. Até então, Asimov só tinha lido sobre robôs com síndrome de Frankenstein, que em geral se revoltavam contra seu criador e o destruía. Na visão dele, os robôs poderiam ser não apenas ferramentas de trabalho, mas companheiros e protetores dos humanos. Para manter isso de forma perene, Asimov idealizou as tão famosas Leis da Robótica, além de ser ele próprio o autor do termo robótica. Assim, muitas outras histórias foram surgindo, primeiro como pequenos contos e posteriormente como romances e até mesmo grandes sagas.

Isaac Asimov
Isaac Asimov

Sabendo disso, é válido dizer que Eu, Robô é não apenas o melhor livro para começar a ler Asimov (para aqueles que ainda não o fizeram), como também é a chave para entender muito do que é desenvolvido na série Robôs e até mesmo na saga Fundação, sua obra-prima. Após escrever a série dos robôs, que nos coloca em um futuro de crise mundial cuja única via de escape é a expansão e colonização interplanetária, e a série Fundação, que conta a saga dos mundos galácticos à beira da ruína e da busca pela sabedoria, o autor resolveu unir os universos num só, permitindo que tudo se tornasse um emaranhado de tramas que se complementam.

Nessa teia, Eu, Robô pode ser tomado como ponto inicial para essa unificação. Através das nove histórias, independentes e ao mesmo tempo interligadas, a psicóloga-roboticista Susan Calvin nos conta sobre o surgimento dos robôs, das grandes Máquinas pensantes e da expansão humana para mundos interplanetários. Tais aspectos do desenvolvimento e da decadência do planeta são abordados e usados como panos de fundo para as tramas da maioria das histórias de Asimov. Para facilitar, resolvi falar um pouco de cada história.

Robbie

A primeira narrativa conta a história de um robô-babá. A começar pela ideia de que os robôs poderiam ser auxiliares, companheiros e protetores dos humanos, nada melhor do que equipará-los à figura de uma babá. Assim, vemos o relacionamento entre Robbie, um dos primeiros modelos criados pela U.S. Robots and Mechanical Men, Inc., e Gloria, uma garotinha serelepe. Menina e robô constroem uma relação afetiva forte e de muito apego. Mas a presença do robô divide opiniões entre os pais da garota, enquanto o pai vê o robô como um símbolo de comodidade e eficiência, a mãe não aceita a ideia de ver sua filha ser criada por uma máquina. O pensamento da mãe reflete um medo compartilhado de que os robôs possam substituir literalmente os humanos, ainda que os mesmos sejam fabricados sob as leis robóticas, que preveem que um robô não pode ferir um humano, que deve obedecê-los e se proteger, desde que não infrinja as leis anteriores na ordem citada. Robbie é a história com mais apelo emotivo do volume, e assim começamos a nos familiarizar com a complexidade dos cérebros positrônicos idealizada por Asimov.

Robbie e Gloria (Fanart de Pansejra)
Robbie e Gloria (Fanart de Pansejra)

Durante a leitura não pude deixar de lembrar de um conto do Philip K. Dick intitulado Babá (publicado aqui no brasil no volume O Pagamento, Ed. Record). No conto philipkdickiano, os robôs-babás eram extremamente eficientes, mas avariavam muito rápido, quebravam fácil e precisavam de constante reparo técnico, que na maioria das vezes não era solucionado impelindo os donos a comprarem novos modelos. Enquanto o conto de Asimov aborda a aceitação do robô num ambiente familiar e traz questionamentos mais filosóficos, o conto de Dick faz uma crítica à obsolência dos equipamentos eletrônicos, que são fabricados com uma vida útil cada vez menor, obrigando os consumistas a adquirirem novos modelos, mais bem equipados e atualizados. É o que estamos vivendo hoje com o mercado de celulares, por exemplo.

Andando em círculos

Na segunda história, o protagonista é o robozinho Speedy, que está em uma missão em Mercúrio, que visa a implantação de uma unidade de mineração nesse planeta. Essa narrativa marca a exploração dos recursos naturais em outros planetas, que é seguida, posteriormente, pela colonização de outros mundos. É aqui também que entra em cena um ponto muito comum nas demais histórias do livro: os possíveis conflitos entres as três leis. Na trama, o robozinho está perdido em Mercúrio, andando em círculos, já que um conflito no cérebro positrônico impossibilitou que ele concluísse a missão e retornasse à base.

O conflito entre as várias regras é eliminado pelos diferentes potenciais positrônicos no cérebro. Digamos que um robô está caminhando em direção ao perigo e sabe disso. O potencial automático estabelecido pela Regra 3 o faz voltar. Mas suponha que você ordenou que ele fosse em direção àquele perigo. Nesse caso, a Regra 2 estabelece um potencial contrário maior do que o potencial anterior, e o robô segue as ordens, colocando em risco sua existência. (pág. 65)

Razão

Razão é sem dúvidas um dos contos mais interessantes do livro. Na narrativa, os funcionários da U.S. Robots, Mike Donovan e Gregory Powell (que aparecem em outros contos do livro), estão supervisionando uma estação espacial para captação de energia solar. Seu trabalho é supervisionar o robô Cutie, que deve assumir o trabalho de supervisão da estação. No entanto, o robô começa a gerar problemas ao ingressar em discussões filosóficas sobre sua criação. Cético sobre o fato de terem sido os humanos que o criaram, dado o fato de que os humanos são inferiores aos robôs na visão dele, Cutie parte em busca de explicações sobre sua origem. Quando ele acredita ter chegado à conclusão de ter sido criado por um robô de capacidade superior, Cutie passa a cultuá-lo religiosamente. A história, além de nos colocar a par de mais um aspecto do cérebro positrônico criado por Amisov, faz uma crítica à necessidade que temos de criar deuses que sejam responsáveis por aquilo que não conseguimos explicar apenas com a ciência.

É preciso pegar o coelho

Edição Ediouro, 2004
Edição Ediouro, 2004

Em É preciso pegar o coelho, Donovan e Powell se veem tendo que lidar com mais um robô problemático no ramo da mineração. Dave é um robô responsável por supervisionar e controlar outros seis robôs menores e dependentes dele. No entanto, a escavação dos robôs só apresenta resultados quando estão sendo supervisionados pelos humanos, quando estes dão as costas, os robôs param seus serviços e entram numa espécie de hipnose coreografada. Os roboticistas devem então encontrar o motivo do problema e resolvê-lo, antes que suas próprias vidas entrem em risco. Particularmente, é um dos contos que menos gostei, mas não chega a ser ruim. Como nos demais contos, este é carregado com boa dose de humor, principalmente quando há interação (entenda brigas) entre Donovan e Powell.

Mentiroso!

Nesse conto o protagonista é Herbie, um robô muito peculiar que possui a habilidade de ler a mente das pessoas. A Dra. Susan Calvin, psicóloga de robôs, logo é chamada para acompanhar o robô parapsicológico. Tendo convivido com vários modelos e robôs com as mais variadas personalidades (já que os cérebros positrônicos são peças únicas), essa é a primeira vez que a Dra. Calvin se vê realmente afetada por um robô. Acontece que o robozinho leva a primeira lei da robótica muito ao pé da letra, e para não ferir emocionalmente nenhum humano passa a dizer tudo o que eles querem ouvir, mesmo que a informação não seja toda ou parcialmente verdade. É um dos contos mais divertidos.

Um robozinho sumido

Pôster do filme
Pôster do filme

O sexto conto, Um robozinho sumido, é notadamente aquele que supostamente inspirou o filme Eu, Robô, de Alex Proyas, estrelado por Will Smith. Se ainda não viu o filme, não precisa se preocupar, continue sem assisti-lo. Mas é quase impossível falar desse conto/livro e não lembrar logo do fiasco que foi o filme. Bem, como dito, o filme foi supostamente inspirado no conto porque pega vagamente a ideia de que uma das leis foi alterada e que há um robô mentiroso no pedaço. Mas as semelhanças param por aí.

Enquanto no filme o descolado Will Smith investiga um assassinato supostamente cometido por um robô, cuja primeira lei foi suprimida, no conto, a Dra. Susan Calvin e seu colega matemático Peter Bogert precisam encontrar um robô mentiroso, que também teve sua primeira lei alterada e que está escondido em um lote de outros robôs semelhantes. Na versão fílmica, a primeira lei deve ter sido removida, já que o que se desenrola é uma conspiração de robôs contra humanos, algo inconcebível no universo asimoviano. No conto, a alteração da primeira lei não se deu com a remoção da mesma, mas com uma redução em sua intensidade.

O robô Nestor, assim como seus pares, levavam muito ao pé da letra a lei de proteção do humanos, isso atrapalhava as pesquisas e atividades de exploração em que os humanos se submetiam à radiação nociva, por exemplo. Tal fato fazia com que os robôs impedissem o serviço, pois a lei de proteção, sendo a primeira, sobrepujava a lei da obediência que é a segunda. Para resolver o impasse, técnicos da U.S. Robots resolveram criar robôs com um senso mais tolerante em relação à primeira lei. E a Dra. Calvin precisa descobrir através de testes qual robô está mentindo e se escondendo entre os demais. Essa parte remete à cena do filme em que Will Smith tenta encontrar seu robô assassino em meio a uma centena de outros robôs, mais uma vez as semelhanças cessam.

No filme, Will Smith procura um robô assassino
No filme, Will Smith procura um robô assassino

O conto traz à tona ainda uma questão bem polêmica no próprio universo asimoviano. E se a morte de um humano for necessária para evitar a morte de um número maior de humanos? Ainda assim um robô com a primeira lei em seu estado normal hesitaria em salvá-lo? Como seria resolvido um impasse deste tipo? Para saber sobre as questões levantadas não deixe de ler o conto. Em relação a esse mesmo dilema no cinema, a parte mais difícil de aceitar o filme é que foi anunciada uma sequência do mesmo, felizmente, ainda sem data de estreia.

Evasão!

Evasão é mais um conto que também traz discussões sobre a primeira lei da robótica. Aqui o grande impasse começa com uma corrida espacial entre a U.S. Robots e uma rival, Consolidated, na tentativa de criar um Propulsor Hiperatômico, que permita as viagens interplanetárias através de um motor de dobra espacial. Ao entrar em dobra é possível fazer viagens de longas distâncias e para os mais distantes sistemas do universo em poucos minutos, como vemos nos filmes das sagas Star Wars e Star Trek. O robô que protagoniza a narrativa é o Cérebro, uma super máquina capaz de solucionar os mais complexos problemas matemáticos. Ele é a única chance de fazer com que a U.S. Robots vença essa corrida espacial.

A nave Enterprise de Star Trek viaja em dobra espacial
A nave Enterprise de Star Trek viaja em dobra espacial

Evidência

A penúltima narrativa é também um dos melhores contos do volume. Aqui, o candidato a prefeito Stephen Byerley é acusado por seu rival de ser um robô disfarçado. Como as massas são avessas à ascendência do mercado robótico, não há nada mais ultrajante do que ser governado por uma máquina. Tal acusação poderia significar o fim da campanha de Stephen. Assim, a psicóloga roboticista Dra. Calvin é chamada para resolver o conflito. As evidências apontadas para acusar Byerley de ser um robô é que o mesmo nunca foi visto comendo. A psicóloga começa então a investigar se Byerley é realmente um robô ou se a acusação é apenas uma estratégia de um jogo de interesses políticos.

O tema abordado em Evidência é novamente explorado em As Cavernas de Aço, e dialoga também com os androides de Philip K. Dick, que vez por outra costumam se passar por humanos para levantar discussões sobre o que é real e o que é simulacro.

O conflito evitável

O último conto é o mais monótono, mas é aquele que mais introduz o cenário da Terra dos próximos romances asimovianos, em especial na tetralogia dos robôs. O mundo está dividido em quatro grandes regiões, cada uma delas controladas por uma das super máquinas. Quando todas elas começam a apresentar pequenos problemas, o Coordenador Mundial Byerley começa a investigar tais problemas, temendo que o que restou da Terra esteja à beira de um colapso, ou de um controle total por parte dos seres mecânicos. A narrativa é importante para compreender muito do que vem a seguir na obra de Asimov.

Por fim, basicamente o livro conta como os robôs surgiram e foram se aprimorando no universo fictício de Asimov. Mas o destaque maior é para a nova edição publicada pela Editora Aleph, casa editorial cativa das obras de Asimov. Além do belo projeto gráfico (que inclui capa, diagramação e tipografia), o livro traz ainda um posfácio intitulado A história por trás dos romances de robôs, onde o autor explica como começou sua paixão pelos seres mecânicos que tanto causam receio em seus personagens humanos, e sobre como os robôs podem ser mais passíveis de empatia do que nós mesmos, algo que Philip K. Dick adoraria discordar. O texto desse ensaio é o mesmo presente em As Cavernas de AçoO Sol Desvelado, romances da série Robôs que também já saíram pela Aleph. Vale muito a pena ler.

#LeiaSciFi2015 A exemplo de outros blogueiros (em especial a equipe do site Posfácio), aderi à ideia de ler mais Sci-Fi em 2015. Portanto, boa parte ou a maioria das minhas resenhas nesse ano serão sobre esse gênero. Se você gosta, não deixe de acompanhar, se não curte Sci-Fi, fique atento às dicas pois você pode se render completamente ao gênero.

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Ficha Técnica

Título: Eu, Robô
Título original: I, Robot
Autor(a): Isaac Asimov
Editora: Aleph
Tradução: Aline Storto Pereira
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1950
Páginas: 320
Skoob: Adicione
Sinopse: Sensíveis, divertidos e instigantes, os contos de Eu, robô são um marco na história da ficção científica, seja pela introdução das célebres Leis da Robótica, pelos personagens inesquecíveis ou por seu olhar completamente novo a respeito das máquinas. Vivam eles na Terra ou no espaço sideral; sejam domésticos ou especializados, submissos ou rebeldes, meramente mecânicos ou humanizados, os robôs de Asimov conquistaram a cabeça e a alma de gerações de escritores, cineastas e cientistas, sendo até hoje fonte de inspiração de tudo o que lemos e assistimos sobre essas criaturas mecânicas. Verdadeiro marco na história da ficção científica, Eu, robô reúne os primeiros textos de Isaac Asimov sobre robôs, publicados entre 1940 e 1950. São nove contos que relatam a evolução dos autômatos através do tempo, e que contêm em suas páginas, pela primeira vez, as célebres Três Leis da Robótica: os princípios que regem o comportamento dos robôs e que mudaram definitivamente a percepção que se tem sobre eles na literatura e na própria ciência.

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4 comments

  1. Legal!!! Bom, você sabe, também ando nessa pegada sci-fi há um tempinho e espero ler muito mais este ano. Mal posso esperar para ler Eu, Robô (sem falar que essa edição está lindona); também estou com a Trilogia da Fundação aqui me esperando. Muita coisa boa! =)

    Beijão, Livro Lab

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Aline,
      Obrigado pelo comentário. Sim, eu sou fã inveterado de sci-fi, mas esse ano quero ler bem mais coisa nesse gênero, e também quero aproveitar para ler alguns autores com os quais estou com pendências. Eu deixei um comentário no seu blog com sugestões de leitura do Asimov, espero que goste. Muita coisa boa mesmo.
      Beijos

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