O Salmão da Dúvida, de Douglas Adams

Adoro ter essas pequenas conversas com o leitor no início dos livros. Para ser franco, isso é a mais completa mentira. O que realmente acontece é que você está arrancando os cabelos para terminar, ou pelo menos começar, um livro que prometeu entregar sete meses atrás, quando começa a receber faxes lhe perguntando se não poderia escrever mais uma introdução curtinha para um livro em que você se lembra muito bem de ter escrito “Fim” por volta de 1981.
Douglas Adams, O Salmão da Dúvida, pág. 48.

Douglas Noël Adams, ou DNA, como ele próprio gostava de ser chamado, foi um dos precursores a moldar uma nova visão da cultura nerd before it was cool. Ele foi um escritor entusiasmado com a ficção científica, a biologia e a tecnologia, que aliou seus interesses por essas áreas de conhecimento à sua rapidez de pensamento e ao seu talento cômico para criar uma obra fruto de suas inquietações sobre as questões fundamentais da existência: a vida, o universo e tudo mais. O resultado dessa junção foi a saga O Guia do Mochileiro das Galáxias, que se tornou um marco na ficção científica e influenciou toda uma geração de leitores desse gênero.

Infelizmente, Douglas Adams partiu desta vida cedo demais, uma vez que faleceu aos 49 anos de idade, deixando muitas ideias e projetos inacabados, além de uma legião de fãs órfãos de suas histórias por todo o mundo. No entanto, um ano após a sua morte, The Salmon of Doubt (O Salmão da Dúvida, 2002) foi publicado no Reino Unido, como uma homenagem póstuma ao autor, trazendo uma coletânea de textos salvos nos computadores Macintosh de uso pessoal e inseparável de Douglas.

douglas adams scifiDessa forma, a obra O Salmão da Dúvida, publicada em 2014 no Brasil pela Editora Arqueiro, é uma miscelânea de artigos, comentários, textos derivados de palestras, entrevistas, introduções a obras de outros escritores, cartas, e-mails, crônicas, contos e capítulos avulsos do que poderiam tornar-se futuros romances de Douglas Adams. Assim, esse livro representa, sobretudo, um último adeus à obra de Douglas Adams e a este autor que fazia graça do universo, da humanidade e de si mesmo, encarando a vida com verdadeira paixão pela ciência, pela arte e pela natureza.

Do mesmo modo que Douglas afirmou na introdução a Sunset at Blandings, o livro póstumo de P. G. Wodehouse, um de seus autores favoritos, que aquela “era uma obra em desenvolvimento”, portanto inacabada, e “muitos dos trechos seriam apenas tapa-buracos para o que viria em revisões posteriores”, O Salmão da Dúvida também é uma obra composta por projetos inacabados, visto que é composta de textos e capítulos para livros que ele ainda iria desenvolver, por isso talvez ele próprio não pensasse em publicá-los dessa forma.

Apesar disso, para os admiradores da obra de Douglas Adams, esse livro póstumo apresenta uma importância inestimável, pois traz um apanhado de momentos significativos da vida do autor, desde a carta enviada à revista britânica The Eagle, que é o primeiro texto publicado de Douglas, quando ele tinha apenas 12 anos, até os últimos contos com as aventuras incompletas dos personagens Zaphod Beeblebrox, alienígena do Guia do Mochileiro, e o detetive holístico Dirk Gently, cujo possível título acabou sendo adotado para essa obra.

Muitos momentos antológicos da carreira do autor foram incluídos no livro, como suas diversas introduções às adaptações do Guia do Mochileiro para diferentes mídias, suas expedições à natureza selvagem, em que ele tentou “montar” arraias-jamanta, ou vestiu-se de rinoceronte numa escalada ao Monte Kilimanjaro pela campanha de preservação Save the Rhino. Além dessas aventuras, o livro revela textos com pensamentos íntimos do autor sobre o seu chamativo nariz, a sua descomunal estatura, sua descoberta do poder dos palmtops, as suas reflexões sobre a religião e a cultura humana, até a sua relação de amor e ódio com a tecnologia.

Essa foto é um achado na internet. À esquerda, Douglas Adams na escalada do rinoceronte.
Esta foto é um achado na internet. À esquerda, Douglas Adams na escalada do rinoceronte.

Douglas era um defensor árduo das inovações tecnológicas, tanto pelas facilidades imediatas que tais aparatos oferecem ao ser humano, quanto por ser o motivo desencadeador da sua criação literária. Além disso, DNA considerava a tecnologia como um exemplo prático da evolução humana, como ele mesmo nomeou as quatro Idades da Areia; telescópios, microscópios, chips de silício, e a comunicação via internet, por meio de fibras óticas, que revolucionou a forma de como os seres humanos se comunicam uns com os outros, assim como nossa forma de pensar e reagir ao mundo.

A ideia desta revolução serviu para reforçar a sua própria interpretação da teoria evolutiva de Darwin e o seu ateísmo radical. Por isso a obra de Douglas é permeada de invenções e especulações científicas, nas quais ele não apenas vê o lado positivo, mas também o lado negativo desses avanços, como o prejuízo ambiental, a ameaça a outros seres vivos e os perigos da rápida defasagem tecnológica ou obsolescência programada. O fato é que Douglas Adams realmente amava a ciência e a tecnologia, mas não tinha problemas em criticá-las e fazer humor inteligente por meio delas.

Eu criei um conjunto de regras que descrevem nossas reações às novas tecnologias:
1. Tudo o que já está no mundo quando você nasce é normal, corriqueiro e nada mais do que parte natural da maneira como o mundo funciona.
2. Tudo o que é inventado entre os seus 15 e 35 anos é novo, empolgante e revolucionário, e pode, inclusive, se tornar sua carreira profissional.
3. Tudo o que é inventado depois dos seus 35 anos vai contra a ordem natural das coisas. (pág. 112)

Além disso, a capacidade de rir de si mesmo e das suas vulnerabilidades, como o fato de nunca cumprir os prazos e ser atormentado por eles; “Adoro prazos. Adoro o barulho de vento que eles fazem quando os dias vão passando”, permite ao leitor conhecer o lado mais íntimo e humano de Douglas, como se ele e o leitor fossem velhos amigos.

Para encerrar o livro, há um capítulo com mais uma aventura radical de Zaphod Beeblebrox numa viagem às profundezas oceânicas de um planeta remoto na Borda Ocidental da Galáxia, e mais alguns capítulos com uma nova aventura mirabolante do detetive Dirk Gently, na qual ele curiosamente começa a receber boas quantias de dinheiro para fazer um trabalho que desconhece e passa a seguir um sujeito qualquer na rua, afinal, é isso o que detetives realmente fazem. Infelizmente, o final de ambas as histórias deve ficar por conta da imaginação do leitor, uma vez que o escritor faleceu antes de terminá-las.

O livro conta ainda com dois epílogos, um deles sendo um texto do cientista Richard Dawkings, amigo de Douglas, publicado no jornal inglês The Guardian, na ocasião da morte do escritor. Assim, O Salmão da Dúvida é mais um capítulo dessa herança deixada por Douglas Adams, o qual permanece inspirando seus seguidores, como a comemoração mundial do Dia da Toalha (25 de maio), e escritores dispostos a darem continuidade a seu legado, como Eoin Colfer, com o livro E Tem Outra Coisa… (Arqueiro/ Galera Record, 2009), que deu sequência à serie do Mochileiro.

Essa obra, portanto, traduz-se como uma sessão de pura nostalgia para os admiradores de Douglas Adams e sua obra, trazendo de volta um pouco daquilo que os seus leitores tanto apreciavam, como seu humor elegante e sua curiosidade em desvendar os segredos do mundo e do universo, que tornaram as viagens espaciais muito mais divertidas.

Soma-se a isso detalhes da sua vida e do seu pensamento, como seu amor pelos Beatles, Bach e Monty Phyton, sua frustração por não conseguir finalizar o projeto cinematográfico de O Guia do Mochileiro das Galáxias, concluído somente após a sua morte, e tantas outras particularidades que levaram Douglas a conquistar um posto na cabeceira, na mente e no coração de milhares de leitores e entusiastas da ficção científica neste nosso pequeno e pálido ponto azul na imensidão do universo. É uma obra que deve ser encarada e apreciada como uma viagem às origens e ao processo de criação de um artista visionário e um ser humano que tentava enxergar o mundo além das limitadas lentes do nosso tempo e espaço.

#LeiaSciFi2015 É uma campanha literária proposta pelo site Posfácio, em prol da divulgação da leitura de ficção científica em 2015. Para quem gosta de Sci-fi ou quer conhecer um pouco mais sobre esse gênero tão instigante, não deixe de acompanhar as postagens com essa hashtag aqui no blog!

Cronologia da série O Guia do Mochileiro das Galáxias:

  • O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, 1979)
  • O Restaurante no Fim do Universo (The Restaurant at the End of the Universe, 1980)
  • A Vida, o Universo e Tudo Mais (Life, the Universe and Everything, 1982)
  • Até mais, e Obrigado pelos Peixes! (So Long, and Thanks for All the Fish, 1984)
  • Praticamente inofensiva (Mostly Harmless, 1992)
  • E Tem Outra Coisa… (And Another Thing…, de Eoin Colfer, 2009)

guia do mochileiro das galaxias serie livros

Outras obras do autor:

  • The Meaning of Liff (com John Lloyd, 1983)
  • Dirk Gently’s Holistic Detective Agency (1987)
  • The Long Dark Tea-Time of the Soul (1988)
  • Last Chance to See, (com Mark Carwardine, 1990)
  • The Deeper Meaning of Liff (com John Lloyd, 1990)

Ficha Técnica

Título: O Salmão da Dúvida
Título original: The Salmon of Doubt
Autor(a): Douglas Adams
Editora: Arqueiro
Tradução: Fabiano Morais
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2002
Páginas: 304
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Sinopse: Douglas Adams mudou a cara da ficção científica com a série interplanetária O Mochileiro das Galáxias. Infelizmente, ele fez sua própria viagem para além da Terra cedo demais, deixando milhares de fãs órfãos. Agora mais uma vez os leitores vão poder se deleitar com a sagacidade desse grande autor. Reunindo textos encontrados no computador de Adams após sua morte, este livro traz uma coletânea de histórias, resenhas, artigos e ensaios inéditos, além de oferecer um retrato raro da personalidade do homem por trás da obra: a devoção aos Beatles, o ateísmo radical, o entusiasmo pela tecnologia, a luta obstinada pelos animais em vias de extinção. Mistura de homenagem póstuma ao autor com último presente a seus fãs, O salmão da dúvida é profundo, excêntrico, provocante e divertido.

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