| Resenha | Dois Garotos se Beijando, de David Levithan

Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais.
David Levithan, Dois Garotos se Beijando, pág. 73.

É possível falar sobre uma literatura LGBT? Enquanto alguns se preocupam em tachar esse livro ou aquele como sendo um livro gay ou não, outros não concordam com essa necessidade de rotular tudo e dividir aquilo que é gay ou não. Bom, a verdade é que o rótulo é o que menos pesa no fim das contas. Não precisamos de mais livros gays, precisamos de mais gays nos livros, e preferencialmente mais gays nos livros ditos não gays.

Recentemente o anúncio de uma personagem LGBT no universo expandido de Star Wars dividiu opiniões, enquanto uns acharam válido ter uma representação, outros alegam que se trata apenas de uma estratégia comercial e desnecessária. Mas, o que muita gente precisa entender é que dificilmente alguém acordará qualquer dia e não se deparará com um gay, eles estão em todos os lugares e não é que agora tenha mais que antes, é que agora eles tem mais oportunidade de serem quem são. Assim, o estranho não deveria ser você ler um livro em que há personagens gays, o estranho deveria ser você ler um livro e não encontrar nenhum, porque eles existem, e não vivem isoladamente, mas convivem com todo mundo, distinguindo-se em cor, tamanho, ideias, sonhos e em tudo mais, não apenas em sexualidade.

David Levithan
David Levithan

Toda esta introdução é para que eu possa finalmente falar de um livro e de um cara que possui uma visão ampla do que é a homossexualidade, não apenas reduzida ao seu rótulo, ainda que os rótulos sejam elementos presentes em seus livros. David Levithan é um dos autores que mais escrevem sobre e para o público jovem, seja gay ou não. Acontece que ele possui sensibilidade e discernimento para perceber que não existem apenas gays no “mundo gay” e que não existem apenas héteros no “mundo hétero”, embora muitos queiram edificar um muro invisível separando uns dos outros, no mundo real esse muro não existe. Um gay provavelmente crescerá num “lar hétero”, e agora, felizmente, um hétero poderá crescer num “lar gay”.

O mais recente livro do autor publicado aqui no Brasil, Dois Garotos se Beijando, pela Galera Record, é não apenas um livro gay, mas uma homenagem aos gays que algum dia já saíram da sua zona de conforto em prol daqueles que viriam a seguir. O livro também chama atenção para a questão dos rótulos, como eles estão cada vez mais rompendo essa linha tênue, o que de fato é o que eles são. Além de outras questões e dramas pessoais, que embora sejam ditos problemas de pessoas gays, muitos deles são pela falta de aceitação de pessoas héteros. Mas como eu disse, o propósito não é separar, é juntar. Em Dois Garotos se Beijando o propósito não é separar cada vez mais pessoas com orientações sexuais diferentes em duas classes, mas reaproximá-las, mostrar que o amor entre as pessoas independe disso.

Não há nada mais doloroso do que ver alguém desistir de você. Principalmente se for sua mãe. (pág. 35)

O mundo está cheio de pessoas que pensam que diferente é sinônimo de errado. (pág. 157)

O enrendo do livro é sustentando pela proposta dos personagens Harry e Craig, ex-namorados, em quebrarem o recorde mundial com o maior beijo da história (pouco mais de 32 horas). Mas o livro não se resume a isso, a propósito esse é apenas o fio condutor que liga a vida de várias personagens como sendo parte de um mundo só. Enquanto Harry e Craig tentam entrar para o livro dos recordes mostrando a normalidade de um beijo, independente de quem beija; Neil e Peter, aos 15 anos, vivem um relacionamento lindo, sólido e com os problemas típicos de qualquer relacionamento, além de outros adicionais por serem quem são; Cooper, aos 17 anos, vive uma homossexualidade reprimida e enclausurada em um mundo virtual, longe da sua própria realidade. Tariq sofre por mostrar quem realmente é, mas encontra o amor e a solidariedade em estranhos que lhe fazem acreditar que o mundo pode ser melhor.

Além destes, há ainda as personagens mais intrigantes ou interessantes do livro. A começar pelo relacionamento entre Ryan e Avery. Além do temor de assumir um relacionamento homoafetivo em uma cidade pequena, Avery tem um segredo que pode mudar até mesmo a visão da pessoa que ele ama sobre ele mesmo. Eu poderia falar aqui, mas prefiro que você mesmo vivencie o drama da personagem ao assumir quem realmente é. Por fim, menção especial aos narradores do livro, que para mim são as cerejas do bolo. Quem nos apresenta essas histórias paralelas são gays que já morreram por um motivo ou por outro em gerações anteriores, mas especialmente aqueles que morreram durante a epidemia de AIDS e não tiveram os cuidados, apoio e medidas preventivas que temos hoje. (Aqui peço que, por favor, assistam a minissérie sueca Don’t Ever Wipe Tears Without Gloves, assim vocês terão ideia de quem Levithan está falando).

Capa original
Capa original

Como esse é um assunto que dá muito “pano pra manga”, devo me conter e ir aos finalmentes do texto. Não leia Dois Garotos se Beijando esperando um aprofundamento sobre o tema, leia sem expectativas. O livro é claramente direcionado para o público adolescente/jovem, e se você tiver isso em mente independente da sua idade você verá como ele é importante. Cheio de frases de efeito e muitas verdades, Levithan dialoga com os jovens sobre as diversidades que existem, sobre o peso do rótulo, sobre os dramas e esperanças de ser gay em um mundo onde há pessoas que não entendem isso da forma que esperamos. Ah, como seria bom que algumas dessas pessoas lessem esse livro. Ah, como seria bom se todos os públicos lessem esse livro. Se você leu o livro e tem um amigo hétero, empreste pra ele; Se você leu e tem um amigo gay que sofre por causa disso, empreste pra ele; Se você leu e conhece pais que não conseguem aceitar seus filhos, empreste pra eles; e por fim, se você e leu e conhece alguém, quem quer que seja, empreste pra ele/ela.

Curiosidades

  • A história de Harry e Craig é inspirada na história real dos universitários Matty Daley e Bobby Canciello que se beijaram por 32 horas, 30 minutos e 47 segundos (mais que os personagens do livro) para quebrar o recorde do Guinness World Records de beijo mais longo do mundo.
  • A ideia para os narradores do livro surgiu quando Levithan foi convidado para escrever em uma antologia sobre a vida LGBT atual. Ele diz que havia decidido escrever uma história sobre a geração de homens gays que existiu antes dele olhando para a geração de homens gays que veio depois dele.

Vídeo de divulgação

Títulos do autor publicados no Brasil

  • Garoto Encontra Garoto (Boy Meets Boy, 2003)
  • Nick & Norah: Uma noite de amor e música (Nick & Nrah’s Infinite Playlist, 2006)
  • Will & Will (Will Grayson, Will Grayson, co-autoria de John Green, 2010)
  • Todo Dia (Every Day, 2012)
  • Invisível (Invisibility, co-autoria de Andrea Cremer, 2013)
  • Dois Garotos se Beijando (Two Boys Kissing, 2013)

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Ficha Técnica

Título: Dois Garotos se Beijando
Título Original: Two Boys Kissing
Autor(a): David Levithan
Editora: Galera Record
Tradução: Regiane Winarski
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2013
Páginas: 224
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Sinopse: Do lado de fora da escola, ao ar livre, rodeados por câmeras e por uma multidão que, em parte apoia e em parte repudia o que estão fazendo, Craig e Harry estão tentando quebrar o recorde mundial do beijo mais longo. Craig e Harry não são mais um casal, mas já foram um dia. Peter e Neil são um casal. Seus beijos são diferentes. Avery acaba de conhecer Ryan e precisa decidir sobre como contar para ele que é transexual, mas está com medo de não ser aceito depois disso. Cooper está sozinho. Passa suas noites em claro, no computador, criando vidas falsas online e seduzindo homens que jamais conhecerá na vida real. Mas quando seus pais descobrem seu passatempo proibido, o mundo dele desaba. Cada um desses meninos tem uma situação diferente. Alguns contam com o apoio incondicional da família, outros não. Alguns sofrem com o bullying na escola, outros, com o coração partido. Mas bem no centro de todas essas histórias paralelas está o amor. E, através dele, a coragem para lutar por um mundo onde esse sentimento nunca seja sinônimo de tabu.

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