Morte Invisível, de Lene Kaaberbøl e Agnete Friis

Morte Invisível

– Um diploma em direito é uma arma. A lei é uma arma. – Vendo que Sándor não havia entendido, Lőrincz arrematou: – O que faz você pensar que interessa à Hungria armar alguém como você?
Lene Kaaberbøl e Agnete Friis, Morte Invisível, pág. 82.

Após a leitura de O Menino da Mala, a curiosidade pelo segundo volume da série protagonizada por Nina Borg era imensa. Mas, contrariando as expectativas, Lene e Agnete vêm com uma nova proposta de enredo e desenvolvimento do mesmo, o que para mim funcionou apenas em partes. Apesar disso, as autoras trouxeram muita coisa bacana e que merece ser compartilhada, o que me proponho a fazer.

Vale ressaltar que, diferente da maioria dos thrillers, neste temos uma sequência direta do primeiro volume, mas não necessariamente uma continuação, exceto pela questão cronológica. Isto é, as autoras encerraram o “caso” que fica inacabado, mas o foco não é ele. Outro ponto que merece destaque é que, nessa nova aventura, pudemos conhecer um pouco (mais do que o esperado) da relação familiar da Nina – algo que até acho bacana, quando não tira a atenção do que realmente importa na história: o “crime”/ação. Mas antes de entrar nesse ponto, vou tentar apresentar a trama e seus (muitos) personagens.

Lene Kaaberbøl, Agnete Friis
Da esquerda para a direita, as autoras, Lene Kaaberbøl e Agnete Friis

No prólogo, somos apresentados a dois adolescentes Galenos (socialmente chamados de ciganos) – Pitkin e Tamás – vasculhando os escombros de um antigo hospital, atrás de algo que possam vender e conseguir alguma grana. E eles encontram! Este tal objeto, que só será revelado quase no finalzinho do livro, será o ponto central da trama e o catalizador dos grandes problemas gerados aos outros personagens não diretamente relacionados. Como é o caso de Nina, na Dinamarca, que no mesmo momento está no julgamento de Natasha (personagem de O Menino da Mala), que terá sua história “fechada” e só então retomada no final.

Considerando as localizações, ainda na Dinamarca, somos apresentados a Skou-Larsen e sua esposa Helle, dois idosos bem de vida (ele é bem mais velho que ela), mas que só terão uma real relevância para a história quase no final também. E, por fim, na Hungria, o irmão de Tamás – Sándor ‑, um rapaz dedicado e inteligente, que tenta se camuflar e conseguir seu diploma de direito. Em determinado momento, Tamás visita Sándor e acaba por envolvê-lo nas investigações comandadas por Søren – inspetor do departamento de Contraterrorismo.

Além desses personagens, importantes para o thriller, ainda temos: Anton e Ida (filhos de Nina) e Morten (esposo). Personagens como Peter e Magnus, colegas de Nina também reaparecem. O primeiro é o responsável por envolver Nina nesse novo caso, ao convidá-la para cuidar de alguns imigrantes numa oficina mecânica abandonada em Valby (um dos distritos de Copenhague). Como podem perceber, são muitos personagens e a introdução deles na trama não ajuda muito. Isto é, Nina só chega a Valby quase na metade do livro, após todos eles serem (re)apresentados. Essa quantidade de “personagens importantes” (isso porque não mencionei os muitos secundários que também “contribuem”) acaba tornando todos muito superficiais e, consequentemente, sua tal importância ficando infundada.

Aproveitando que já mencionei, Morte Invisível não possui uma leitura rápida e instigante – o que se espera de um thriller. Mas, após superar os primeiros 50%, as autoras acabam dando uma boa acelerada e conquistando bastante. Assim, a segunda metade do livro vem cheia de acontecimentos chocantes e reviravoltas, prendendo o leitor até o final. Devo confessar que levei semanas para chegar na metade do livro – até pensei em desistir dele, mas então todos os personagens criam uma “ligação” e os 50% restantes foi questão de horas.

Considerando os dois livros lançados, temos O Menino da Mala com uma proposta mais universal e cuja dinamicidade acaba sendo fácil, enquanto Morte Invisível traz questões mais pontuais, como imigração e ameaças terroristas (não é spoiller!) e, como não é nossa realidade, acabei não me identificando, apesar do final ter sido bastante convincente.

A protagonista acabou sendo esquecida um pouco neste livro. Para mim, ela apenas recebeu a fama de outros heróis – como geralmente acontece na vida real. Em relação à apresentação da narrativa, uma coisa que achei bacana é a questão cronológica ser utilizada como forma de reafirmar que as histórias se seguem de fato. Por exemplo, em O Menino da Mala os acontecimentos (e subdivisão do livro) estão nos meses de Agosto e Setembro; já Morte Invisível se passa no final de Abril, Maio e início de Junho.

Drengen i kufferten-horz
Capas dos três volumes da série. A primeira na edição original e as demais na edição americana.

Quanto à edição, apenas elogios. A arte da capa está linda e representa a história. Em geral eu reclamaria da diagramação, mas acabei acostumando com a fonte pequena e espaçamento simples [Mas se estiverem pensando em aumentá-la futuramente, façam!].

Quem leu O Menino da Mala, acredito que sentirá a grande diferença, mas desejo que supere a primeira metade e se deleite com o gran finale!

Sequência de publicação/Cronologia da série:

  • O Menino da Mala (Drengen I Kufferten, 2013);
  • Morte Invisível (Et stille umærkeligt drab, 2015);
  • Death of a Nightingale (em inglês, 2013).

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Ficha Técnica

Morte InvisívelTítulo: Morte Invisível
Título Original: Et stille umærkeligt drab
Autor(a): Lene Kaaberbøl e Agnete Friis
Editora: Arqueiro
Tradução: Marcelo Mendes
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2010
Páginas: 320
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
Sinopse: Em meio às ruínas de um hospital militar soviético no norte da Hungria, Pitkin e Tamás procuram antigos suprimentos e armas que possam vender no mercado negro, até que acabam encontrando algo mais valioso do que poderiam imaginar. Ali está a esperança dos meninos ciganos de deixar a pobreza, de quitar as dívidas da família, quem sabe de se livrar um pouco do preconceito que sofre o seu povo. Porém, suas boas intenções podem provocar a morte de um número alarmante de pessoas. Na Dinamarca, a enfermeira Nina Borg também se preocupa com o bem-estar dos desfavorecidos, e por isso colocará sua vida em risco mais uma vez. Chamada às pressas para cuidar de um grupo de ciganos húngaros, ela descobre uma doença misteriosa que se espalha de forma implacável. Ao investigar o caso, percebe que há algo de podre em toda aquela história, um segredo perigoso, guardado a sete chaves pelos imigrantes, que pode envolver terrorismo e fanatismo.

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2 comentários

  1. Eu vejo que a resenha é sua, já me interesso mais que o normal, porque você tem um gosto parecido com o meu rs
    Eu não sabia que O Menino da Mala tinha “continuação”, e não sei se você sabe, mas comprei esse livro depois que vi você postando uma foto quando estava lendo, séculos atrás hahaha
    Me interessei demais por Morte Invisível, apesar das ressalvas, sua resenha colocou em pauta alguns elementos essenciais num bom livro.
    Mais um pra aumentar a listinha rsrs
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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    • Que legal que conheceu O Menino da Mala por minha causa!!!!
      E sim, apesar das ressalvas, este é um bom livro.
      Quando ler, me conta o que achou.
      Beijos!

      Curtir

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