Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie

Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie

O problema das questões de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Chimamanda Ngozi AdichieSejamos Todos Feministas.

Nos últimos anos, tenho me interessado bem mais pelas discussões de gênero e sexualidade, tanto que, no fim do ano passado ingressei na Pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça. Na aula inaugural, foi exibido o vídeo do discurso da Chimamanda como forma de apresentação do que seria o feminismo e de por que sermos “todos feministas”, além de problematizar as várias questões envolvendo gênero. A maioria das linhas de pensamento feminista acredita que “ser feminista” é exclusividade das mulheres, já que “são elas que sentiram/sentem a discriminação”. Mas, após várias leituras, eu gosto de pensar, assim como a Chimamanda e outros tantos estudiosos, que a discussão de gênero não é algo exclusivo das mulheres, como pretendo mostrar a partir do livro Sejamos Todos Feministas.

Chimamanda Ngozi Adichie
Autora/Feminista Chimamanda Ngozi Adichie

Este ensaio, nada mais é que o discurso feito pela Chimamanda no programa TEDxEuston, que funciona como um “talk show” onde estudiosos vão para compartilhar ideias das mais variadas [ciência, tecnologia, direitos humanos, entre outros]. Quando foi convidada a falar sobre feminismo e direitos humanos, a nigeriana se sentiu intimidada: “Como falar sobre feminismo para um público tão ‘machista’?” E ainda fazer com que eles entendam que o primeiro não é antagônico ao segundo, apesar de ser uma estratégia para que essa diferença de gênero acabe.

Chimamanda se apoia na sua história de vida para apresentar o tema, iniciando a fala dizendo que a primeira vez que foi chamada de feminista foi aos 14 anos, por seu amigo Okoloma. Como ela mesma conta, inicialmente achou a fala do amigo ofensiva, mas gostou do significado que encontrou no dicionário: “Feminista: pessoa que acredita na justiça social, política e econômica entre os sexos”. A partir de então, ela se reconheceu como feminista, e passou a militar (mesmo que indiretamente até chegar a academia) nesta causa.

Ao estudar o feminismo como ferramenta para combater a desigualdade de gênero, Chimamanda se deparou com uma infinidade de vertentes e pensamentos, alguns deles bem radicais. Assim, contrapondo algumas delas, ela passa a se aceitar como uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”. Isso porque, para ser feminista, não precisa necessariamente ser melhor que os homens ou ser triste por ser historicamente inferiorizada, ou ainda não ter vaidade para se “igualar” à eles. A luta pela equidade de gêneros está principalmente pautada no direito de decisão individual, onde mulheres e homens podem e devem conseguir realizar seus sonhos, sem que sejam boicotados apenas por pertencer a algum desses grupos.

Por que ensinamos as meninas a aspirar ao casamento, mas não fazemos o mesmo com os meninos? Elogiamos a virgindade delas, mas não a dos meninos (e me pergunto como isso pode funcionar, já que a perda da virgindade é um processo que normalmente envolve duas pessoas!).

Trazendo a reflexão das ideias da Chimamanda para minha realidade enquanto homem, eu também acredito que “A questão de gênero, como está definida hoje em dia, é uma grande injustiça”. Não quero ser o único responsável por manter as despesas da casa, só por que nasci homem. Não quero permanecer alheio à criação dos meus filhos, só porque nasci homem. Não quero que as pessoas esperem de mim força e virilidade, ou que acreditem que eu tenho mais direitos sexuais do que as mulheres. Não quero que minha “identidade” e meu futuro sejam moldados apenas por uma questão biológica.

Símbolo da Luta Feminista
Símbolo da Luta Feminista

Nós precisamos educar nossos filhos de uma forma que esse pensamento sexista seja extinto e que os direitos sejam exequíveis independente do gênero (ou cor, etnia, orientação sexual). Somos todos seres humanos! Assim, aproveito a oportunidade para dizer que sou Homem e sou Feminista, pois, a partir do momento que delimitamos o pensamento feminista apenas às mulheres, estamos fazendo distinção de gênero – onde fica a equidade?

Por fim, gostaria de convidar todos a serem feministas e a lutarem pela não diferenciação de gênero. Reforço o pedido utilizando um apelo feito pela Chimamanda:

A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.

Curiosidades

  • Cartaz  do filme
    Cartaz do filme “Meio Sol Amarelo”

    O discurso de Chimamanda foi traduzido para mais de 30 línguas, além da sua filosofia feminista permear toda sua obra;

  • Atualmente, Chimamanda vive entre os Estados Unidos e seu país natal, a Nigéria;
  • Conheça a página oficial do TED AQUI, e vejam outros discursos bem legais disponíveis por lá;
  • Seu livro Meio Sol Amarelo (2008) lhe rendeu o Orange Prize e um filme homônimo (2013), dirigido pelo nigeriano Biyi Bandele.

Vídeo de divulgação

  • Gostaria de sugerir que assistam ao discurso da Chimamanda, pois ela faz algumas brincadeiras com o tema que não fica tão evidente na leitura. Esse sarcasmo reforça a necessidade de pensarmos sobre o que é e porque ser feminista.

Títulos do autor publicados no Brasil

  • Americanah (Idem, 2014)
  • Hibisco Roxo (Purple Hibiscus, 2011)
  • Meio Sol Amarelo (Half of a Yellow Sun, 2008)

Postagens relacionadas

Ficha Técnica

Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi AdichieTítulo: Sejamos Todos Feministas
Título Original: We Should all be Feminists
Autor(a): Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Tradução: Christina Baum
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012/2014
Páginas: 36
Skoob: Adicione
Sinopse: Chimamanda Ngozi Adichie ainda se lembra exatamente da primeira vez em que a chamaram de feminista. Foi durante uma discussão com seu amigo de infância Okoloma. “Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele; era como se dissesse: ‘Você apoia o terrorismo!’”. Apesar do tom de desaprovação de Okoloma, Adichie abraçou o termo e – em resposta àqueles que lhe diziam que feministas são infelizes porque nunca se casaram, que são “anti-africanas”, que odeiam homens e maquiagem – começou a se intitular uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”. Neste ensaio agudo, sagaz e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para pensar o que ainda precisa ser feito de modo que as meninas não anulem mais sua personalidade para ser como esperam que sejam, e os meninos se sintam livres para crescer sem ter que se enquadrar nos estereótipos de masculinidade. Sejamos todos feministas é uma adaptação do discurso feito pela autora no TEDx Euston, que conta com mais de 1 milhão de visualizações e foi musicado por Beyoncé.

Download do E-book: Kobo | Saraiva | Amazon

6 comentários

  1. Oi Mailson,

    Vamos começar por: eu amei a sua resenha! Seguindo de: confesso que tinha visto o livro no Facebook rapidamente e, mais rápido ainda, o descartado. Agradeço por ter-me apresentado a Chimamanda e ter linkado o discurso dela também. Gente, que mulher incrível! O discurso era bem divertido, mas eu me emocionei muito.

    Eu tinha escrito um mega comentário fazendo uma analise sobre a criação diferenciada, sem a exigências impostas aos gêneros, que eu e meu irmão tivemos. Vamos resumir o choro para: meu irmão sabe cozinhar bolos perfeitamente, eu nem café de cafeteira sei fazer; meu irmão tem uma sensibilidade que não foi extinta pela masculinização na infância; a sexualidade foi extensamente discutida em casa porque uma DST é algo mais terrível que o silêncio, além de que a responsabilidade de uma gravidez prematura seria da competência igualmente dele. Minha mãe, como mãe solteira, sempre deixou bem claro as responsabilidades.

    A coisa é que dentro de casa, mesmo o infeliz sendo antissocial ao quadrado, sempre vivemos sobre uma igualdade. Tirando o fato de eu ser mais velha. O que foi um baque enorme quando passei a frequentar a faculdade, eu curso Biblioteconomia e 80% dos formandos são mulheres. Mas nas melhores vagas e os melhores salários estão com os homens. Eu nunca tinha pensado se era ou não feminista, estava tão alienada quanto Louis. Talvez seja bom repensar isso.

    Beijos, May.
    https://silenciocontagiante.wordpress.com

    Curtir

  2. Achei bem bacana e muito informativo seu texto. Parabéns!
    Vale lembrar a todos, como você mesmo citou no texto, que não precisa ser uma mulher para ser feminista, precisa apenas ter a consciência de que gênero não define inteligência e/ou faz um homem melhor do que uma mulher.
    Enfim, ótimas dicas!

    http://www.booksever.com.br

    Curtir

    • Felizmente o texto da Chimamanda é complexo demais para apenas duas ou três linhas. Se tivesse tentado mais um pouco teria percebido isso. É uma pena que não tenha gostado.
      😉

      Curtir

  3. Olá, José Mailson!
    Gostaria de agradecer pelas suas palavras. Sim, o verbo é agradecer. O agradecimento vai pela verdade que foi exposta em sua resenha, no ponto de vista masculino. Como podem os homens achar que só mulheres podem ser feministas? Pura alienação. Como bem foi dito, machismo não é oposto ao feminismo, e direitos iguais todos deveríamos ter, independente de uma definição cromossômica provenientes da biologia ou uma orientação seguida. Todos nós merecemos respeito, temos os mesmos direitos e também os mesmos deveres.
    Estou fazendo um seminário de sociologia sobre o Feminismo, e é gratificante ler – dentre tantos textos alienados ou opiniões extremistas – palavras que trazem por trás a verdadeira face feminista, palavras que confortam.
    Novamente, gostaria de parabenizá-lo! O desejo fica como um pedido que suas palavras fluam e impactam mais pessoas, há mesmo ou melhores, que defendam seus direitos e a igualdade que tanto queremos.

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s