O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle

Quando ela falava dos homens, eu sabia que se tratava de criaturas bestiais, dotadas de uma certa faculdade de imitação, […].
Pierre Boulle, O Planeta dos Macacos, pág. 88.

Conheci O Planeta dos Macacos de forma às avessas. Apesar de eu já conhecer toda a história que era baseada no livro do francês Pierre Boulle, foi através do filme dirigido por Tim Burton e da nova franquia cinematográfica que tive contato direto com a história. Mas, tanto uma adaptação como a outra já haviam se distanciado demais da obra original para serem consideradas adaptações, dizemos então que foram inspiradas. Ainda bem! Isso porque só agora, que a Editora Aleph lançou no mercado uma edição primorosa da obra de Boulle, eu pude ler e me surpreender com a geniosidade que o autor imprimiu nesse livro.

Em entrevista, esta presente nessa edição, Boulle não categoriza seu livro como ficção científica, para ele é apenas “uma fantasia agradável”. Sabidamente, a ficção científica não era o gênero de escolha do autor para a maioria dos seus trabalhos, ainda que tivesse lido grandes nomes do gênero como Bradbury (que também não se considerava autor de ficção científica, rs), Lovecraft e Asimov. No entanto, mesmo diante dessa negação, O Planeta dos Macacos é ficção científica pura, daquelas que ficam registradas como marco pela engenhosidade. No livro, estão presentes muitos dos elementos que excitam qualquer fã do gênero: viagens espaciais, futurismo, viagens no tempo, exploração de outros planetas, disputas entre espécies, etc.

Bem vindo a Soror: Taylor, Zira, Cornelius e Nova.
Bem vindo a Soror: Taylor, Zira, Cornelius e Nova.

Na trama, que tem início em 2500, o trio formado pelo jornalista Ulysse Mérou, o professor Antelle e seu discípulo Arthur Levain, está viajando em uma nave espacial rumo ao sistema solar que gira em torno da supergigante estrela Betelgeuse. A viagem se dá através de uma superaceleração e frenagem, todo o percurso se passa em 02 anos para os viajantes, mas para a Terra esse período equivaleria a mais ou menos 300 anos. Chegando lá, eles iniciam a exploração pelo planeta Soror, mas logo de cara, eis a surpresa: o planeta é governado por macacos e os seres humanos são meros selvagens sem sequer uma língua para comunicação verbal, que vivem nus pelas florestas e são objetos de estudo para os macacos.

O protagonista Ulysse Mérou corre perigo por ser confundido com um selvagem, é então que começa sua perigosa aventura pela sociedade símia. Preso em um laboratório, ele começa a aprender sobre esse planeta esquisito no qual a evolução favoreceu com a racionalidade os símios e não os humanos. Aos poucos, ele descobre que a sociedade símia é mais parecida com a nossa do que ele imagina e que possui até mesmo uma hierarquia de raça: gorilas com aptidões para liderança e para força bruta; orangotangos com boa memória para repetição, bem útil em serviços burocráticos; e os chimpanzés, com mais facilidade de assimilação e aprendizagem, com aptidão para a ciência e invencionice.

Assembléia dos macacos, decidindo sobre a vida do humano.
Assembleia dos macacos, decidindo sobre a vida do humano.

Sem ser compreendido pelos macacos, que veem a capacidade de fala e pensamento de Ulysse apenas como um mecanismo de repetição, o protagonista corre o risco de se tornar uma cobaia para experimentos científicos. Contudo, Ulysse se torna amigo da médica macaca Zira e seu noivo, um chimpanzé chamado Cornelius. O casal, percebendo a verdade na história de Ulysse, tenta ajudá-lo. Em meio a isso, Ulysse está se envolvendo com uma humana selvagem, a quem ele chama de Nova, na tentativa de despertar nela a humanidade com a qual ele estava tão bem familiarizado na Terra. Ela também entra no time da aventura, ainda que a contragosto de Zira no primeiro momento.

Isso é tudo que posso falar sobre a trama, e acreditem, eu não disse muito. Apesar do livro ser curto, com uma narrativa ágil, mas que se arrasta em alguns momentos explicativos, há muito a ser dito e pensado sobre ele. Ao longo da trama, Boulle lança algumas perguntas que nos levam a pensar sobre como vemos o ser humano com sua faculdade de ser racional em meio à natureza. Tudo pode ser visto como uma crítica e ironia a nós mesmos. Boulle nos tira da zona de conforto e nos faz olhar para um outro lado possível e nos coloca a pensar sobre como usamos certos animais para benefício da nossa própria espécie, mas não só, as discussões são muitas e o final é surpreendente.

Os macacos dominam o cinema…

O livro foi muito bem recebido pelo público e foi um sucesso. Como o romance anterior de Boulle, A Ponte do Rio Kwai, já havia sido adaptado para o cinema, lhe rendendo um Oscar, não demorou também para surgir um projeto de adaptação para O Planeta dos Macacos. O maior receio do autor nesse projeto era de que sua obra soasse ridícula, afinal macacos vestidos como humanos e dominando um mundo poderia não ser algo interessante de ser visto no cinema, tampouco algo fácil de fazer. No entanto, a primeira adaptação para o cinema estreou em 1968, com Franklin J. Schaffner na direção e Charlton Heston no papel principal. O personagem na versão fílmica se chama George Taylor.

Filmes - O Planeta dos Macacos
Adaptações para o cinema

Com o sucesso do filme, não demorou para surgir a proposta de produção de algumas sequências. Boulle, que havia colaborado com o roteiro do primeiro filme, até começou a escrever um esboço de roteiro para a continuação, mas achou que a coisa estava se distanciando demais daquilo que ele havia idealizado. Ainda assim, a franquia resultou em uma pentalogia:

  • O Planeta dos Macacos (Planet of Apes, 1968)
  • De Volta ao Planeta dos Macacos (Beneath the Planet of the Apes, 1970)
  • Fuga do Planeta dos Macacos (Escape from the Planet of the Apes, 1971)
  • A Conquista do Planeta dos Macacos (Conquest of the Planet of the Apes, 1972)
  • Batalha pelo Planeta dos Macacos (Battle for the Planet of the Apes, 1973)

Em 2001, o visionário e popularmente conhecido diretor Tim Burton lançou um remake homônimo da história dos macacos. Apesar de contar a história de um jeito um pouco diferente e com mais cara de blockbuster, a versão de Burton ainda se aproxima mais da essência do romance de Boulle do que a franquia da década de 1960/70. Em 2011, os macacos invadem mais uma vez o cinema com Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes), dirigido por Rupert Wyatt que deu início um reboot com ar mais contemporâneo para a história. Idealizado como uma trilogia, essa nova versão já conta com um segundo capítulo Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes). O último filme da trilogia deve se chamar War of the Planet of the Apes e tem previsão de estreia para Julho de 2017.

…e aparecem também na TV!

Return to the Planet of the Apes (Cartoon Screenshot)
Série animada

A dominação dos macacos era geral e não tardou para que eles também fossem parar na televisão, de duas maneiras. A primeira foi em 1974, quando estreou no canal CBS a série em live action Planet of the Apes. A ideia era continuar a trama dos filmes, embora o projeto tenha se concretizado de forma distinta. Após 14 episódios, a série foi cancelada. Anos depois, a Fox reeditou 10 episódios da série e transformou em 05 filmes para televisão, cada um combinado dois episódios da série. A segunda vez que a franquia apareceu na televisão foi em 1975 com a série animada De Volta ao Planeta dos Macacos (Return to the Planet of the Apes), exibida pelo canal NBC em 13 episódios.

Além do cinema e da TV, O Planeta dos Macacos também resultou em inúmeras revistas com histórias em quadrinho. No entanto, independente de como você conheceu a história dos macacos racionais, você precisa voltar à fonte e ler a trama original escrita por Pierre Boulle. Mesmo que você suponha já saber o final por tê-lo visto tantas vezes nas adaptações, acredito que ainda assim você se surpreenderá. Vale muito a pena ler.

PS: a edição da editora Aleph é uma das coisas mais lindas que já vi em se tratando de livro.❤

#LeiaSciFi2015 O Cooltual aderiu à proposta do site Posfácio, de ler mais Sci-Fi em 2015. Com isso, boa parte ou a maioria das minhas resenhas nesse ano estão sendo/serão nesse gênero. Se você gosta, não deixe de acompanhar, se não curte Sci-Fi, fique atento às dicas pois você pode se render completamente ao gênero.

Detalhes desta edição:

Veja os detalhes da edição no nosso instagram:

🐒 #SomosTodosMacacos 🐵

A photo posted by Cooltural (@cooltural) on

Vídeos:

Trailer da primeira adaptação para o cinema em 1968:

Ficha Técnica

Título: O Planeta dos Macacos
Título original: La Planète des Singes
Autor(a): Pierre Boulle
Editora: Aleph
Tradução: André Telles
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1963
Páginas: 216
Skoob: Adicione
Sinopse: Em pouco tempo, os desbravadores do espaço descobrem a terrível verdade: nesse mundo, seus pares humanos não passam de bestas selvagens a serviço da espécie dominante… os macacos. Desde as primeiras páginas até o surpreendente final – ainda mais impactante que a famosa cena final do filme de 1968 –, O planeta dos macacos é um romance de tirar o fôlego, temperado com boa dose de sátira. Nele, Boulle revisita algumas das questões mais antigas da humanidade: O que define o homem? O que nos diferencia dos animais? Quem são os verdadeiros inimigos de nossa espécie? Publicado pela primeira vez em 1963, O planeta dos macacos, de Pierre Boulle, inspirou uma das mais bem-sucedidas franquias da história do cinema, tendo início no clássico de 1968, estrelado por Charlton Heston, passando por diversas sequências e chegando às adaptações cinematográficas mais recentes. Com milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo, O planeta dos macacos é um dos maiores clássicos da ficção científica, imprescindível aos fãs de cultura pop.

Compare e compre: Buscapé | Amazon | Buscapé (filmes)

3 comments

  1. Show de bola sua resenha e o post todo, de maneira geral! Olha, apesar de conhecer, surpreendentemente eu nunca vi nenhum dos filmes inteirinho, e também não sei de tantos detalhes sobre a história. Então digamos que chegarei pura ao livro. Achei essa edição muito linda e fiquei mega feliz quando abri o pacotinho da Aleph e dei de cara com ela. Agora estou só na ansiedade para começar a ler em breve! E aí, quem sabe me animo para ver os filmes de uma vez por todas hehehe.

    Beijão, Livro Lab

    Curtir

    • Oi Aline,
      Sempre fico feliz com seus comentários por aqui.
      Feliz que tenha gostado do post. Como disse, eu conheci a história através dos novos filmes. Mas o livro é muito especial e ímpar. Uma das melhores leituras desse ano com certeza. Vai ficar muito tempo comigo.
      Espero que goste, quero ver sua opinião.
      Beijão 😘😘

      Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s