O Príncipe dos Canalhas, de Loretta Chase

Esposa ou amante, são todas iguais”, ele costumava dizer aos amigos. “Quando uma dama – virtuosa ou não – se prende a você, você se torna o dono de uma propriedade problemática, onde os arrendatários estão sempre em pé de guerra e pela qual você precisa despender muito trabalho e dinheiro. Tudo pelo privilégio ocasional – que depende dos desejos dela – de conseguir o que você poderia ter com qualquer meretriz em troca de alguns xelins.”
Dain a queria, com toda a certeza, mas não era a primeira vez que esse tipo inaceitável de mulher havia mexido com seus desejos. Ele sentia uma forte atração sexual, mas tinha consciência da cilada que tais mulheres pregavam – porque nasceram e foram criadas com esse propósito – para fisgá-lo..
Loretta Chase, O Príncipe dos Canalhas, pág. 73.

Desde Jane Austen até às escritoras contemporâneas de romances de época, o casamento é o mote principal que desencadeia o surgimento de uma obra desse gênero. Quase todos os conflitos das personagens estão vinculados à importância dessa instituição social na vida de uma pessoa, em especial da mulher, seja como um fim almejado ou uma causa de repúdio, o matrimônio dita as regras de sobrevivência das relações sociais típicas da civilização ocidental dos séculos XVIII e XIX.

Em O Príncipe dos Canalhas, de Loretta Chase, é apresentada uma trama que centraliza justamente a tensão entre os protagonistas, que têm, por uma questão de princípios, aversão ao casamento. Uma aliança bastante improvável, que parecia ser fruto de uma peça pregada pelo destino, ou pela pura ironia de uma ficcionista, na verdade, reuniu dois seres opostos movidos pela força de uma paixão; uma dama respeitável e um incorrigível canalha, o pior de todos.

loretta chase escritora
Loretta Chase

Essa obra, uma das mais representativas do gênero, é um dos recentes lançamentos da Editora Arqueiro, que vem investindo cada vez mais na publicação e divulgação de romances de época no mercado editorial brasileiro. Devido à popularidade internacional da autora, Loretta Chase acabou tornando-se a nova aposta da editora, tendo seu primeiro livro publicado em português aqui no Brasil.

Assim, O Príncipe dos Canalhas conta a história de uma jovem inglesa que viaja a Paris para salvar seu irmão apalermado da influência negativa de um marquês degenerado e rico, conhecido como lorde Belzebu. A personagem que representa a heroína do romance, Jessica Trent, é caracterizada como uma inglesa frágil, delicada, intelectual e com aspiração profissional vanguardista para a época, e tem a vida transformada a partir do momento em que cruza o caminho do marquês de Dain, definido como um homem forte, poderoso e devasso, um verdadeiro libertino, avesso à moral e às convenções artificiais da sociedade europeia do século XIX.

Inicialmente, a jovem tenta propor um acordo ao temível marquês; ela daria a ele um valioso e raro ícone russo da escola Stroganov que havia comprado pela bagatela de 10 sous na loja de antiguidades de Champtois, em troca da liberdade do seu irmão, Bertie, que vivia sob a influência prejudicial do lorde Belzebu. Este deveria convencer o desajuizado irmão de Jessica a voltar para a Inglaterra e não acumular mais dívidas e aventuras boêmias naquela Paris erradia.

O que Jessica não podia imaginar era que, apesar de não suportar Bertie, lorde Belzebu acabara de encontrar uma fonte de diversão ao ser desafiado a corromper ainda mais o modo de viver do jovem irmão de Jessica, afundando-o cada vez mais num vida desregrada.

Ela colocou o leque diante do rosto dele para exibir a caligrafia masculina em uma das hastes. (…)
O marquês se virou. Um francês se aproximava cautelosamente, as feições pálidas. Dain usou o leque para se abanar. O homem parou. Sorrindo, lorde Dain quebrou a haste onde o nome “Rouvier” estava escrito.
Rouvier foi embora.
Dain virou-se para a Srta. Trent e, ainda sorrindo, quebrou as hastes, uma por uma. Em seguida, jogou o leque destruído no vaso da samambaia. Ele estendeu a mão.
– Esta dança é minha, creio eu. (pág. 87)

Mas eis que os dois adversários acabam por perder forças para um oponente ainda mais poderoso que ambos; o amor. Jessica Trent, que havia perdido os pais muito cedo, vítimas de um acidente, sempre se dedicara aos estudos e esportes com afinco para poder estar à altura do irmão e dos seus primos, não almejava casar-se por resistência ao casamento por interesse, típico da era vitoriana do século XIX. A bela de olhos cinzentos tinha como meta abrir e gerenciar uma loja de antiguidades em Londres, contando com o apoio da avó, Genevieve, uma senhora irreverente e ousada que já havia se casado várias vezes.

lor of scoundrelsO marquês de Dain, por outro lado, havia sido abandonado pela mãe, uma italiana de modos desinibidos que fugira com um amante para as Índias Ocidentais, deixando a criança aos cuidados do pai, um puritano que rejeitava o próprio filho por sua aparência distinta dos padrões de beleza da época, pois ele era moreno e tinha um nariz chamativo. Desse modo, Dain foi criado com uma rigidez e moral extremas, e cresceu num internato sofrendo todo o tipo de violência física e psicológica por sua aparência incomum e sua tragédia maternal.

Isso foi o bastante para torná-lo um homem de índole perversa, o lorde Belzebu, como ficou conhecido, capaz de praticar crueldades e avesso àquela burguesia moralista e hipócrita, por isso ele nutria uma verdadeira repulsa à qualquer mulher respeitável e aos espaços em que frequentavam.

Apesar de ser alertada pela avó Genevieve e pelos amigos, Jessica não se afasta do Príncipe das trevas e insiste em confrontá-lo. Assim, ela acaba por ser seduzida pelo lorde Belzebu num baile oferecido por Lady Wallingdon, que maquinou o encontro dos rivais justamente para torná-los a diversão da noite. Nesse baile, Jessica é levada pelo marquês de Dain a um canto escondido da festa e os dois perdem a compostura e cedem ao desejo incontrolável que sentiam um pelo outro. Tal comportamento foi o suficiente para arruinar a reputação da srta. Trent em toda a Paris, e por consequência, as chances de conseguir o emprego com o qual sonhara ou até mesmo um matrimônio que garantisse sua sobrevivência naquela época.

– Eu não sou seu relógio de bolso – interrompeu ela, por entre os dentes. Não devia sentir-se nem um pouco surpresa caso aquele paspalho arrogante decidisse acertar o acordo fazendo de Jessica a amante dele. – Sou um ser humano, e você nunca será meu dono, não importa quanto pague. Você pode ter destruído a minha honra aos olhos do mundo, mas não conseguirá destruí-la de fato. (p. 108)

Desesperada, Jessica atira em Dain, e depois de uma disputa legal e muitos conflitos, finalmente ambos se casam. Após o casamento, mais fatos inesperados e obstáculos para a felicidade plena do casal surgem, no entanto, a reconciliação e um final feliz já são previstos para um livro desse gênero, cabendo ao leitor apenas deleitar-se com as agruras do caminho que leva até a concretização do amor romântico.

O Príncipe dos Canalhas é uma obra que condensa a essência do romance de época, pois apesar de introduzir elementos que parecem trazer uma nova abordagem da estrutura básica desse tipo de história, como um anti-herói no papel de protagonista, e uma heroína valente que não se contentava em corresponder aos padrões restritivos daquela sociedade, o envolvimento amoroso e a realização conjugal adornam o desenlace da ação narrativa.

Dessa forma, o enredo do livro que inicialmente parecia conduzir os personagens e seus conflitos para uma trama diferente do mais encontradiço, arrasta-os de volta para o lugar comum da idealização romântica, provando mais uma vez que, não importa o quanto certo personagem seja transviado, o amor acabará por redimi-lo e este será regalado com um “felizes para sempre”. Ou seja, por mais que Dain e Jessica tenham lutado para fugir dos padrões impostos pela moral e intolerância de sua época, ambos terminam sendo tragados pela instituição marital por necessidade e convenção.

Dreamcast

Aderi à brincadeira, e resolvi sugerir quais seriam, na minha opinião, os atores que poderiam compor o cast de O Príncipe dos Canalhas num filme ou seriado. Penso que o Javier Bardem seria o ator perfeito para representar o Lorde Belzebu numa adaptação da obra para o cinema. Ele já provou ser bastante ameaçador em Onde Os fracos não tem vez, portanto, depois desse papel, o marquês de Dain seria fichinha. E qual atriz tem os olhos mais enigmáticos do que Eva Green? Ela certamente seria uma excelente escolha para interpretar a bela de olhos cinzentos e madeixas escuras que protagoniza o romance de Loretta Chase. E então, o que vocês acharam das minhas sugestões? Concordam? Discordam? Que outras sugestões de atores vocês indicariam? Comentem 🙂

Javier Bardem Dain lorde Belzebu
Javier Bardem
eva green vanessa ives Jessica Trent
Eva Green

Curiosidades

  • O Príncipe dos Canalhas integra o rol de releituras do conto de fadas da Bela e a Fera.
  • Para saber mais informações sobre a autora e seus livros, visite seu site oficial > AQUI.

Cronologia da série Scoundrels (canalhas):

  1. The Lion’s Daughter (1992)
  2. Captives of the Night (1994)
  3. O Príncipe dos Canalhas (2015), Lord of Scoundrels (1995)
  4. “The Mad Earl’s Bride” – Three Weddings and a Kiss (1995)
  5. The Last Hellion (1998)

Evento: Encontro com fãs de Romances de Época

Aproveitamos para convidar a todos para o Encontro com Fãs da Editora Arqueiro, que acontecerá dia 30/05, às 15 horas, na Livraria Anchieta, onde abordaremos este e outros livros do gênero. Confirme sua presença no nosso evento no Facebook:

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Ficha Técnica

Título: O Príncipe dos Canalhas
Título original: Lord of Scoundrels
Autor(a): Loretta Chase
Editora: Arqueiro
Tradução: Ivar Panazzolo Junior
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1995
Páginas: 287
Skoob: Adicione
Sinopse: O Príncipe dos Canalhas – Sebastian Ballister é o grande e perigoso marquês de Dain, conhecido como lorde Belzebu: um homem com quem nenhuma dama respeitável deseja qualquer tipo de compromisso. Rejeitado pelo pai e humilhado pelos colegas de escola, ele nunca fez sucesso com as mulheres. E, a bem da verdade, está determinado a continuar desfrutando de sua vida depravada e pecadora, livre dos olhares traiçoeiros da conservadora sociedade parisiense. Até que um dia ele conhece Jessica Trent…  Acostumado à repulsa das pessoas, Dain fica confuso ao deparar com aquela mulher tão independente e segura de si. Recém-chegada a Paris, sua única intenção é resgatar o irmão Bertie da má influência do arrogante lorde Belzebu. Liberal para sua época, Jessica não se deixa abater por escândalos e pelos tabus impostos pela sociedade – muito menos pela ameaça do diabo em pessoa. O que nenhum dos dois poderia imaginar é que esse encontro seria capaz de despertar em Dain sentimentos há muito esquecidos. Tampouco que a inteligência e a virilidade dele pudessem desviar Jessica de seu caminho. Agora, com ambas as reputações na boca dos fofoqueiros e nas mãos dos apostadores, os dois começam um jogo de gato e rato recheado de intrigas, equívocos, armadilhas, paixões e desejos ardentes.

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2 comentários

  1. Oi oi estou terminando de ler o livro, e vejo o Lorde Dain como Jason Momoa, o Conan da versão de 2011! Um cara enorme, largo e alto, moreno cabelos enrolados com uma cara completamente demoniaca! Para Jessica, fiquei entre Eva Green e Natalie Portman, por ser pequena e com um olhar intrigante.

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