Rio Negro, 50, de Nei Lopes

Rio Negro, 50

O Brasil, então, amanhece com gosto de sangue na boca. No que, os botequins do samba se enchem de poetas. Cada um com seu papel de maço de cigarros e o lápis na mão, tentando escrever um samba.
Nei Lopes, Rio Negro, 50, pág. 110.

As discussões relacionadas à raça/etnia nunca me chamaram atenção até eu iniciar minha pós-graduação. Desde então tenho começado a pesquisar um pouco mais sobre as histórias envolvendo nossas origens e, especialmente, as lutas vividas pelos nossos antepassados. Como estou num processo de (re)conhecimento da história do Brasil (onde a população negra foi calada, em sua grande maioria), adorei a possibilidade de conhecer fatos importantes da década de 1950, mesmo que num romance, onde os negros é quem os contam. Com um enredo lindíssimo e ousado, Rio Negro, 50 se passa como uma “grande conversa de bar”, onde muitas coisas (teoricamente aleatórias) acontecem e constroem mais uma história de lutas.

Até a leitura deste livro, não conhecia nada de Nei Lopes. Quando fui pesquisar mais sobre ele, descobri que ele é compositor, escritor, intérprete de samba e palestrante sobre temáticas relacionadas à negritude. Além disso, ele já ganhou alguns prêmios, entre eles o Prêmio Jabuti em 2009, com o livro História e Cultura Africana e Afro-brasileira (Barsa Planeta, 2009), na Categoria “Didático e Paradidático”. A consequência não seria outra, fiquei muito feliz ao perceber quanto material ele já produziu e que poderão me ajudar futuramente nas minhas pesquisas.

Carnaval de rua nos bondes no Rio da década de 50  (Foto: Leonard Mccombe)
Carnaval de rua nos bondes no Rio da década de 50 (Foto: Leonard Mccombe)

Mas falando sobre minha última leitura, Rio Negro, 50, ela se inicia com a fatídica derrota do Brasil na final Copa do Mundo, em meados de julho de 1950, onde o assassinato brutal de um homem é utilizado como forma de “vingar a perda no futebol”. Os assassinos acreditavam que o tal homem era um dos jogadores, no entanto, houve uma confusão e mataram o sujeito errado. Mas quem era ele? Influente ou não, o caso gera revolta entre negros e militantes das causas antirracistas.

Paralelo a isso, somos apresentados a outros personagens e suas histórias, que se ligam direta ou indiretamente. Entre eles está Paulo Cordeiro – jornalista e sociólogo, pesquisador das tradições afro-brasileiras; e Esdras do Nascimento, dramaturgo, ator e militante pelos direitos dos afro-brasileiros. Essas histórias também se ligam com personalidades reais, como Dolores Duran, Abdias Nascimento, e o próprio Getúlio Vargas e seu suicídio.

‑ Hein?
‑ Invadir o Catete pra matar o Getúlio.
‑ Que besteira é essa, menina?
‑ Ela foi que falou.
‑ Getúlio é o Presidente da República. Como é que eles vão matar o Presidente da República?
‑ Ela falou que é pra organizar o Brasil, que está uma bagunça, […] (p. 107)

Nei Lopes — Ilustrações do livro “Candeia, luz da inspiração”, de João Baptista M. Vargens. Martins FontesFunarte  1987
Ilustração “Candeia, luz da inspiração”, de João Baptista M. Vargens (1987).

O título do livro faz referência ao ponto central da narrativa, o Café e Bar Rio Negro, local fictício criado por Nei onde a maior parte da história acontece, onde militantes e boêmios se encontram para discutir política, criar seus sambas e trabalhos artísticos, se mobilizar enquanto militantes. Mas, o diferencial dessa obra é que tanto os locais, quanto os personagens, quanto os acontecimentos estão diretamente ligados aos negros e suas culturas, em geral subjugadas. Nestes momentos vividos no Rio Negro e no Abará (outro bar frequentado, na sua maioria por negros) podemos perceber como algumas falas reforçam quão real e prejudicial é o racismo. Observem isso nas principais citações, a seguir:

‑ Olha, vou lhe dar um conselho; de amigo. Eu, se fosse você. Se tivesse esse físico, esses músculos, eu ia era trabalhar no Cais do Porto, meu filho! O Brasil precisa é mais de braços assim como os seus. Bobagem, essa de querer ser diplomata. Você nunca vai conseguir entrar para o Itamaraty. (p. 19)

[…] Ser sadio não era só ter saúde; era também não ter nenhum defeito físico. Como o da cor, por exemplo. (p. 37)

‑ Antigamente, as pretas eram mais comportadas, mais obedientes…
‑ Sabiam onde era o seu lugar.
‑ Eram boas cozinheiras, boas lavadeiras, sabiam arrumar uma casa… (p. 47)

No final da leitura fiquei com alguns incômodos sobre o livro, mas o principal deles era saber qual o principal objetivo dele e, qual o personagem principal. Se tivesse feito essa leitura em outro momento não teria apreciado tanto, pois para que um romance seja bom não precisamos de pessoas, mas de fatos principais. E isto tem de sobra, tanto que em certos momentos fica complicado diferenciar o real do ficcional. Algumas surpresas na narrativa, as quais não serão mencionadas neste texto, fazem dela uma excelente obra crítica.

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Compositor, escritor, intérprete e palestrante Nei Lopes.

A leitura nos traz muitas reflexões e revoltas, em especial ao se pensar que algumas cenas descritas eram frequentes em 1950, mas infelizmente ainda são reproduzidas hoje, 65 anos depois. Como estudante de Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça, acabei fazendo um paralelo e pude perceber que as discussões políticas, econômicas e sociais ainda são as mesmas, o negro ainda é marginalizado e criminalizado pelo simples fato de possuir uma pele escura. Ai fica o questionamento: Quando o racismo da década de 1950 permanecerá por lá e, então, poderemos ter uma sociedade mais justa e equânime?

Espero que todos leiam essa belíssima obra de arte (e de luta) e que reflitam. Enquanto isso, eu aguardo ansioso seus comentários e mais sugestões de leitura semelhantes.

Curiosidade

  • O título do livro faz uma crítica à aristocrática Avenida Rio Branco.

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Ficha Técnica

Rio Negro 50.inddTítulo / Título Original: Rio Negro, 50
Autor(a): Nei Lopes
Editora: Record
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 288
Skoob: Adicione
Sinopse: Um romance passado no Rio nos anos 50, em plena afirmação do negro na sociedade. As histórias – pois são muitas as vidas que se cruzam neste romance – começam no dia 17 de julho de 1950, quando a derrota do escrete brasileiro na Copa do Mundo motiva um assassinato absurdo, de fortes conotações racistas. O crime é discutido na roda do Café e Bar Rio Negro, epicentro da vida intelectual dos “homens de cor” na Capital da República, e onde somos apresentados a fascinantes personagens. A partir desse microcosmo da então capital da República, em que personagens da história brasileira, como Dolores Duran e Abdias Nascimento, se cruzam nas deliciosas criações ficcionais de Nei Lopes, percorremos uma década decisiva da cidade do Rio de Janeiro e da afirmação da cultura afro-brasileira.

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