| Teatro | Histórias Compartilhadas: Ou dos Corpos que não se bastam

Histórias Compartilhadas

Depois que vim morar em Fortaleza-CE, meu contato com as várias manifestações culturais e artísticas só tem aumentado. E isto reflete diretamente na minha frequência ao Teatro. Queria poder compartilhar com vocês todas as apresentações que tenho assistido, mas por conta do tempo, acabei decidindo trazer apenas as que mais mexeram comigo, de forma positiva. Partindo desse delimitação, eis que decidi escrever um pouco sobre uma apresentação que assisti no início do mês, mas que até então não conseguia reunir palavras para descrevê-la. Mas prometo fazer isso da melhor forma.

Histórias Compartilhadas tem como foco a transexualidade masculina. Caracterizado como documentário cênico, a apresentação intercala monólogo, interpretado por Ari Areia, e projeções de transexuais masculinos falando sobre seus dramas, dores, medos e superações. Apesar das falas dessas pessoas serem extremamente fortes, por conta de suas realidades, algumas cenas *não faladas* me tocaram muito mais. Até porque, a maioria das dificuldades vividas por essas pessoas são passadas em silêncio.

Histórias compartilhadas (2)
Imagem de divulgação, disponibilizada na página oficial do grupo de teatro, no Facebook.

O monólogo é recheado de conceitos e informações científicas sobre o que vem a ser sexo, sexualidade, gênero, diversidade, homossexualidade, transexualidade, entre outras informações pertinentes a temática. Essa quantidade relativamente grande de conceitos “jogados” ao público causa constrangimento e incômodo muito fortes, não por que são muitos, mas por quê nos fazem refletir sobre a quantidade de “o que é?” e “porquês” que buscamos, ou não, para não aceitarmos determinadas circunstâncias. Isto nos faz perceber também que temos todas as respostas de que precisamos, desde que estejamos dispostos a buscá-las.

Como a montagem mexeu muito comigo, fui pesquisar um pouco mais sobre como (e “porquê”) ela foi feita. Assim, descobri que ela faz parte do trabalho de conclusão de curso (ou algo assim) de Ari Areia, com supervisão de encenação feita por Eduardo Bruno e orientação de pesquisa feita pelo Prof. Dr. Daniel Dantas Lemos. Conseguindo atingir seu objetivo, esta apresentação conseguiu contribuir para um debate *intenso* sobre as amarras e tabus que giram em torno da transexualidade masculina. E acreditem, estes preconceitos não só existem nas comunidades heterossexuais, como também (e de forma mais intensa) vindos do próprio grupo de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis (LGBTs) devido, entre outras coisas, à falta de informação ou utilização da mesma.

Buck Angel
Buck Angel

Uma das histórias compartilhadas, através das projeções, a qual somos apresentados é a de Buck Angel, produtor e ator de filmes pornôs. Ele fala um pouco de como é ser transexual (e seu processo de adequação do corpo) e de como se sentiu “usado” pelas produtoras, como se fosse uma aberração (o que me fez lembrar muito dos Freak Shows). Além disso, são exibidas imagens em vídeo do seu filme, Mr. Angel (Idem, 2013). Assim como muitos outros transexuais, Buck também tentou suicídio quando adolescente, mas ressignificou sua existência e as percepções sobre seu corpo se tornando um ativista.

Além dele, conforme informações coletadas na própria página do Outro Grupo de Teatro, a pesquisa de Ari (e sua montagem) contaram ainda com uma matéria jornalística sobre o caso do suicídio de Riley Moscatel, adolescente transexual da Pennsylvania (EUA), em agosto de 2014, e uma carta publicada em sua conta na rede social Instagram antes de tirar a própria vida; e uma entrevista em áudio com Otávio Queiroz, garoto transexual residente em Caucaia (Ceará).

Histórias Compartilhadas
Momento tiete, da esquerda para a direita: Maciel Ferreira, Douglas Carvalho, Ari Areia (ator), Aglailton Bezerra e José Mailson (eu).

Devo confessar que esta foi uma das peças que mais mexeu comigo. Apesar da sua curta duração, somos levados a refletir sobre o que assistimos durante semanas. Emocionei-me com algumas falas, incomodei-me com algumas cenas (como podem ver no vídeo de divulgação a seguir), mas todas elas foram bem pensadas e colocadas para que o espectador se incomode mesmo e pense em como ferimos algumas pessoas com a simples justificativa de que “queremos o melhor para elas”. Mas do que realmente cada um precisa? O que eu tenho de melhor para o outro é realmente o que ele necessita naquele momento? Aceitar sem compreender não irá funcionar por muito tempo. Então, se informe sobre seus preconceitos e porque eles existem. Como falei anteriormente, você terá as respostas, desde que procure.

Recomendado, sem mais!

Vídeo de Divulgação:

Mais informações:

A apresentação de estreia foi gratuita, aberta ao público, a qual fazia parte da Semana de Artes Integradas do Teatro SESC Emiliano Queiroz, sob a produção do Outro Grupo de Teatro e direção de Eduardo Bruno, e as apresentações acontecerão sempre aos fins de semana. Local: Teatro Sesc Emiliano Queiroz (Av. Duque de Caxias, 1701 – Centro) – Fortaleza/CE Data: Sábados e Domingos de Julho Horário: 20h Entrada: R$ 6,00 (inteira); R$ 3,00 (meia) Informações: (85) 3452.9090

Ficha Técnica:

Histórias Compartilhadas  - Foto Sol CoelhoMonólogo: Ari Areia Supervisão de Encenação: Eduardo Bruno Orientação de Pesquisa: Daniel Dantas Grupo de Teatro: Outro Grupo de Teatro Apoio: Grupo EmFoco Resumo: Corpo, Mídia, Gênero, Pênis, Mulher, Vagina, Homem, “Disforia”. Fragmentos do Cotidiano e vozes misturadas. O eu como uma construção. O Gênero não como meritocracia das genitálias. Corpos que, na tentativa de coexistir, rompem os limites da resistência e fazem da presença um símbolo de luta. Para não se afogar em silêncio todos os dias e cada dia mais um pouco, a gente tem que gritar: Todos os corpos são certos.

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