| Resenha | Mitos Clássicos, de Jenny March

Nos tempos de Homero ainda era possível aos deuses andar entre os homens.
Jenny March, Mitos Clássicos, pág. 21.

Estamos acostumados a ver diversas representações da mitologia clássica no cinema, nos livros e nas artes em geral, capazes de nos deixar fascinados, mas muitas vezes não temos a noção do verdadeiro significado que esse conjunto de mitos possuía na antiguidade nem da sua influência em toda a cultura da civilização ocidental. Por esse motivo, é tão vantajosa a leitura de uma obra que tenta, com sucesso, revelar um panorama da mitologia clássica, com uma análise profunda da vivência dessa mitologia pelo homem antigo.

Mitos Clássicos, de Jenny March, é uma antologia dos principais mitos e histórias de personagens heroicos e memoráveis da mitologia greco-latina. É uma obra dotada de lirismo e refinamento literário, que vai muito além de ser uma enciclopédia academicista, pelo contrário, procura desvendar a mitologia com uma simplicidade e leveza, que se torna acessível a qualquer leitor.

Em Mitos Clássicos, o leitor ingressa nesse universo da mitologia grega e romana, correspondente à Antiguidade Clássica, como ficou conhecido o período áureo das civilizações da Grécia e Roma antigas. Tal universo mítico é permeado de deuses e entidades cósmicas que deram origem ao mundo e aos seres existentes, manipulando e interferindo em nossa realidade.

Pintura em vaso: Atena e Héracles
Pintura: Atena e Héracles

Segundo Jenny March, a mitologia greco-romana expressa um significado que revela a essência de toda a cultura da Grécia e da Roma antiga, uma vez que as relações sociais, o pensamento e as artes eram regidos com base nas histórias dos mitos tradicionais que incorporavam as explicações míticas das origens do nosso mundo, da humanidade e de tudo o que existe no cosmos.

O conhecimento disso é muito importante ao leitor contemporâneo, pois, só assim, é possível compreender o impacto que essas histórias apaixonantes e brutais tiveram na história da humanidade. Mesmo os cidadãos gregos que afirmavam não venerar as divindades gregas, como o geógrafo e viajante Pausânias, autor da Descrição da Grécia, reconheciam a importância dessas histórias míticas. Além disso, segundo a autora, eles acreditavam que seus personagens míticos, como Héracles (Hércules), haviam sido pessoas de verdade, que viveram num passado remoto.

A autora evitou teorizar sobre o conceito de mito e de mitologia, visto que o objetivo da obra é simplesmente apresentar uma síntese dos mitos mais conhecidos e reproduzidos, ao longo dos séculos, em manifestações artísticas além da literatura, como a pintura, a cerâmica e a escultura. Essas são as principais fontes de registro dos mitos que se conservaram até os dias atuais. A definição apontada no livro, portanto, é a de Richard Buxton, a qual afirma que mito é “uma história tradicional socialmente poderosa”, ou seja, as histórias de caráter universal que resistiram ao tempo e foram passadas de geração a geração, influenciando os valores sociais, culturais e artísticos até a atualidade.

A obra atém-se principalmente a contar a história dos mitos de forma cronológica, desde a criação do universo e o nascimento dos deuses, abrangendo as guerras entre deuses e titãs pelo domínio do universo, a Titanomaquia, a batalha dos deuses contra os gigantes, a Gigantomaquia, igualmente motivada por uma disputa pelo poder sobre todo o cosmos, até às grandes guerras entre os povos humanos (e deuses), como a Guerra de Tróia, e por último, a fundação de Roma e sua ascensão.

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Ilustração do templo de Zeus

Todas as histórias citadas no livro são fundamentadas com trechos dos grandes poemas épicos, como a Ilíada e a Odisseia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio. Ao lado destas, situam-se as duas principais obras de Hesíodo, a Teogonia e Os trabalhos e os dias, como fontes dos mitos mais antigos registrados. Outros poetas gregos também são mencionados como ricas fontes para as histórias contadas, dentre eles, Safo, Alceu e Píndaro; os grandes dramaturgos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides; além do grande poeta romano Ovídio (Metamorfoses), e outros escritores latinos que contribuíram para o registro da mitologia romana, como Sêneca e Apuleio.

Por fim, para aumentar o deleite estético do leitor, a autora conferiu irresistíveis doses de lirismo ao texto, ao inserir poemas modernos que refletem essa influência dos mitos antigos em épocas posteriores, de autores, como Shakespeare, Yeats, Tennyson, Wordsworth e Milton, só para citar alguns.

Dessa forma, Mitos Clássicos, além de ser uma enciclopédia fundamental a qualquer amante dos mitos antigos, já que serve como uma obra de referência, é a tradução das raízes culturais das sociedades grega e romana, das histórias clássicas mais notáveis e suas diversas versões, ressaltando a importância e a atemporalidade da mitologia clássica para a literatura e toda forma de arte.

Histórias de Deuses

Quando pensamos em mitologia clássica, a visão de um conjunto de deuses imponentes já nos vem à mente, em especial a imagem do panteão dos doze principais deuses da mitologia grega (e romana); Zeus (Júpiter), Hera (Juno), Poseidon (Netuno), Deméter (Ceres), Afrodite (Vênus), Apolo (idem), Ártemis (Diana), Atena (Minerva), Ares (Marte), Hefesto (Vulcano), Hermes (Mercúrio) e Dioniso (Baco).

Esses doze deuses compõem o cânone das mais célebres divindades que habitavam o monte Olimpo, sob a liderança de Zeus, considerado o mais justo de todos os deuses. Além destes, há ainda duas divindades que também se destacam entre as mais conhecidas; são elas Hades (Plutão), que habita o reino inferior, senhor do Tártaro, e Héstia (Vesta), que era a deusa do lar, do fogo e da castidade.

LAL337139 Greek gods and goddesses  by Payne, Roger (b.1934); colour lithograph; Private Collection; (add. info.: Greek gods and goddesses. From left to right: Athene (Athena), Hermes, Ares, Apollo, Aphrodite, Hera, Zeus); © Look and Learn; NO ADDITIONAL COPYRIGHT FEE REQUIRED; British, copyright unknown
Deuses gregos na ordem: Atena, Hermes, Ares, Apolo, Afrodite, Hera e Zeus. Ilustração de Roger Payne ©

Um detalhe curioso sobre a participação de Héstia na mitologia é que ela estava presente na antiga ordem dos deuses, e foi substituída pelo último deus a juntar-se ao Panteão; Dioniso, o deus do vinho, da embriaguez, da loucura ritual e da liberação dos desejos e prazeres ocultos. Torna-se um fato muito curioso se analisarmos a mudança de comportamento sexual e a evolução da libertinagem ao longo dos tempos sob tal aspecto.

Antes de chegar a essa ordem divina, o domínio do universo passou pelas mãos de outras divindades muito poderosas, como Urano (Céu) e seu filho, Crono. Um dos primeiros a ser o detentor do poder sobre todas as coisas foi Urano, filho de Gaia, que a fecundou e dessa união originaram-se os titãs (entidades elementais de força descomunal): Oceano, Ceos, Crio, Hipérion, Jápeto, Teia, Reia, Têmis, Mnemósine, Febe, Tétis e Crono.

Temendo que seus filhos pudessem destroná-lo, Urano empurrava-os de volta para o ventre de Gaia, impedindo assim que qualquer um deles o confrontasse. Até que, revoltada, Gaia incitou seus filhos a desafiarem a tirania do pai. Foi então Crono, o mais perspicaz, que agiu a favor de sua mãe e irmãos, decepando os genitais de Urano. Assim, todos os titãs foram libertos. Das espumas que circundaram os genitais de Urano originou-se Afrodite, a deusa do Amor.

o nascimento de venus sandro botticelli
O nascimento de Vênus, pintura de Sandro Botticelli (1483)

Após a destituição do poder de Urano, Crono passou a ser o soberano do universo. No entanto, alertado por uma profecia de que também seria derrotado por um de seus filhos, Crono devorava todos os seus filhos cada vez que nasciam. Apenas Zeus foi salvo por sua mãe, Reia, que deu a Crono uma pedra enrolada em faixas no lugar do bebê. Assim que Zeus tornou-se adulto, ele enfrentou seu pai e o fez libertar seus irmãos (Poseidon, Hades, Hera, Deméter e Héstia).

A partir daí aconteceu uma guerra pela soberania total que durou dez anos, de um lado, Zeus, apoiado pelos seus irmãos, os deuses do Olimpo, além dos ciclopes e dos hecatônquiros (centimanos); e do outro, os titãs, ao lado de Crono. Essa grande guerra ficou conhecida como Titanomaquia, ou a Guerra dos Titãs, cujo fim restaurou a definitiva ordem no universo.

Desse modo, Zeus passou a ser o deus supremo e a ele coube determinar o papel de todos os seres e atribuir a função e o domínio justo a cada deus e entidade cósmica. Essa atitude comprova o porquê de Zeus ocupar o mais alto posto entre as divindidades, pois ele conseguiu estabelecer o equilíbrio no universo, sabendo reconhecer com equidade o valor de cada ser no cosmos, tanto os seres da luz quanto os seres da escuridão.

E a todos eles, os cidadãos da Grécia e da Roma antiga prestavam rituais em sua homenagem para garantir suas bênçãos e boa vontade. Assim, grandes templos foram erguidos para honrar a adoração a tais deuses, e festivos rituais foram realizados por séculos para aplacar a fúria e a vaidade divina.

Veja a seguir um vídeo muito interessante que ilustra um pouco do que foi a Guerra dos titãs. Esta é uma cena retirada do jogo God of War II (2007), que retrata a grandeza e a violência da Titanomaquia:

Leia também um trecho da Teogonia, de Hesíodo, referente a essa grande guerra entre deuses e titãs:

O mar infindo rugia terrivelmente, a terra emitia grandes estrondos e o amplo céu rosnava e tremia. O alto do Olimpo foi sacudido até a base pelo assalto furioso dos imortais, e fortes tremores se espalharam até o sombrio Tártaro, causados pelo violento pisar dos beligerantes e pelos mísseis que lançavam uns contra os outros. Os gritos de ambos os lados alcançavam o céu estrelado e ecoavam juntos como terríveis brados de guerra.
A certa altura, Zeus passou a usar toda a sua força. Seu coração se encheu de fúria e então exibiu todo o seu poder. Desceu diretamente do céu e do Olimpo lançando de suas poderosas mãos raios incessantes, a faiscar com explosões e chamas prodigiosas. […]
Uma tremenda explosão engolfou os titãs e chamas indescritíveis chegaram ao divino céu. […] O equilíbrio da batalha começava a mudar…  (p. 56)

Os Grandes Heróis Clássicos

Ao tratar de mitologia, outro tema frequentemente evocado é a participação do herói clássico e seus grandes feitos nas narrativas mitológicas. Um grande herói clássico é aquele dotado de força e coragem, além das virtudes morais e das habilidades extraordinárias com que enfrentavam os desafios e as adversidades designadas pelos deuses.

Ao obter êxito nas tarefas propostas pelos deuses, os heróis alcançavam a fama e a glória no mundo antigo, tornando-se personagens lendários, e seus feitos seriam contados para muitas gerações seguintes.

Dentre os heróis mais lembrados desse período clássico, estão incluídos; Jasão, que venceu touros cuspidores de fogo e lutou contra dragões para conquistar o tosão de ouro; Perseu, que decapitou a Medusa Górgona; e Héracles (Hércules, para os romanos), que foi o maior de todos os heróis da mitologia clássica, filho de Zeus com a mortal Alcmena. Por ser fruto de uma das inúmeras infidelidades de Zeus, Héracles era alvo do ódio da deusa Hera, que provocou nele um surto de loucura e o fez matar os próprios filhos. Para redimir-se do crime, ele teve que cumprir diversas tarefas impostas pelo rei, pai de sua esposa, que ficaram conhecidas como os doze trabalhos de Héracles (matar o leão de Nemeia, exterminar a Hidra, capturar feras vivas, etc.).

Além destes, outros dois heróis tiveram um grande prestígio na mitologia clássica, são eles; Aquiles, o principal herói da Ilíada, e Ulisses, o protagonista da Odisseia.

A Ilíada, que narra a fúria de Aquiles durante a Guerra de Tróia, inicia-se com a apresentação deste herói, que foi o maior guerreiro grego:

Canta, musa, a ira do filho de Peleu, Aquiles,
a amaldiçoada ira que tantas penas trouxe
aos gregos, que lançou ao Hades as almas
de tantos bravos heróis, e deixou seus cadáveres como repasto
para os cães e para todas as aves… (p. 316)

Inicialmente, Aquiles foi tomado pela ira contra Agamêmnon, por uma ofensa à sua honra, ao tomar um dos seus espólios de guerra, a escrava Briseida, e depois seu ódio voltou-se para Heitor, príncipe troiano, por ter assassinado seu primo Pátroclo durante uma batalha. Devemos lembrar que para o grego antigo, a vingança era uma forma de justiça naquela época, ou seja, pagar o mal com o mal e o bem com o bem.

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Aquiles (Brad Pitt) no filme Tróia, 2004.

Dessa forma, Aquiles retorna à guerra para vingar a morte de Pátroclo e desafia Heitor a um combate entre os dois. Só a visão de Aquiles brandindo sua terrível lança e usando uma armadura tão imponente quanto o sol, já aterrorizava Heitor, o maior dos guerreiros troianos. Não demorou muito para que a lança de Aquiles perfurasse o pescoço de Heitor, e assim o fim da guerra foi antecipado. Logo depois, o príncipe troiano, Páris, atira uma flecha no ponto vulnerável de Aquiles, o calcanhar, e vinga a morte do irmão.

O outro herói grego que deve ser mencionado é Ulisses, que pôs um fim à Guerra de Tróia utilizando sua sagacidade e inteligência. Ele foi quem elaborou o estratagema do cavalo de madeira para enganar os troianos e inserir os soldados gregos escondidos em Tróia. A Odisseia narra toda a saga de Ulisses na volta à sua terra natal, Ítaca, após o término da Guerra de Tróia. Como punição por sua esperteza e por ter despertado a ira divina, Ulisses passa dez anos viajando, enfrentando as provações dos deuses, que retardam a sua chegada a Ítaca.

Até o próximo post, pessoal! Faz um tempo desde que postei minha última resenha, e já estava com saudades de escrever aqui para o blog. Por isso escrevi sobre um de meus assuntos favoritos, que é a mitologia clássica, para a minha volta. Esse texto foi um devaneio meu sobre a mitologia, espero que tenham gostado. Essa é uma obra a ser lida e revisitada muitas vezes na vida, pois, nas palavras da própria idealizadora; Mitos Clássicos “é uma espécie de celebração do mito na literatura”. E vamos celebrá-lo muitas outras vezes por aqui!😛

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: Mitos Clássicos
Título original: The Penguin Book of Classical Myths
Autor(a): Jenny March
Editora: Civilização Brasileira
Tradução: Maria Alice Máximo
Edição: 2015 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2008
Páginas: 560
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