| Resenha | A Fascinação das Palavras, de Julio Cortázar e Omar Prego Gadea

Devo ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas.
Julio Cortázar e Omar Prego Gadea, A Fascinação das Palavras, pág. 31.

Meu primeiro contato com Julio Cortázar se deu através do livro de contos As Armas Secretas. Lembro que fiquei encantado com a escrita do autor, especialmente pelo desconforto e incerteza que me causava. Nas narrativas cortazarianas, a realidade não é estanque, tampouco é apenas o conjunto daquilo que vemos. Na ocasião em que concluí a leitura, fiquei com o desejo de consumir mais do autor e o fiz. Mas para além de sua obra, não tardou para que após a leitura de algumas entrevistas com o autor eu me encantasse também por ele e sua personalidade. Nada modesto, diga-se de passagem.

Não obstante, fiquei deveras animado quando o Grupo Editoral Record relançou agora, no ano do centenário do autor, uma nova edição de A Fascinação das Palavras. O livro é uma longa (mas não enfadonha) conversa entre o jornalista uruguaio Omar Prego Gadea e o argentino Julio Cortázar. A ideia para o livro surgiu em 1982, após a morte de Carol Dunlop, companheira de Cortázar. Ambos combinaram uma série de entrevistas sem pudores, nas quais Cortázar falaria abertamente sobre tudo. E assim o fizeram, até que as conversas foram interrompidas com a morte do argentino em 1984.

Júlio Cortázar
Julio Cortázar

A obra é dividida em oito partes, de acordo com o tema de que trata a conversa entre o escritor e o jornalista. Na primeira, A fascinação das palavras, Cortázar discorre um pouco sobre sua infância e as lembranças que tinha na vida adulta sobre essa fase de sua vida. Segundo ele, sua infância foi típica do garoto com tendências cultas em meio a um bando de ignorantes, salvo exceções, poucas das pessoas que passaram por sua infância e adolescência o inspiraram. Sua mãe foi uma dessas exceções, ela fez surgir nele uma paixão pela música que o acompanhou por toda sua vida; outras inspirações foram um ou dois de seus professores, os poucos a lhe incentivarem o desenvolvimento de um senso crítico. Sobre os garotos da sua idade, ele conta:

Quando éramos muito amigos, eu me atrevia a me abrir com eles, contar, um pouco, essas minhas reações diante das coisas e diante do idioma, das palavras. Mas logo percebi que à medida que passavam os meses […] não só não me seguiam, mas rejeitavam esse caminho como prova de tolice ou de afeminação, veadagem. Em vez de jogar futebol, eu perdia meu tempo virando as palavras e fazendo “coisas de garotas. (pág. 31)

Essa primeira conversa é bastante introdutória. Nela, vamos percebendo o caminho percorrido até que Cortázar se tornasse o escritor que foi, com personalidade forte e única. A partir daí, as conversas entram na sua obra propriamente dita, na segunda parte temos Os contos: um jogo mágico. Aqui, Cortázar não só explica o seu processo criativo, como conta detalhes sobre as tramas de seus contos, além de discutir diversas interpretações por vezes polêmicas ou errôneas que alguns críticos atribuíam aos seus escritos. Nesse ponto, o leitor que não seja conhecedor da obra cortazariana pode se sentir um pouco perdido ou ainda receber vários spoilers do próprio autor. Mas se por um lado isso pode ser negativo, por outro pode ser também positivo, pois, como eu disse antes, a obra do autor não é estanque, mesmo sabendo do que se trata, o incômodo e a retirada da zona de conforto é inevitável durante a leitura.

Julio Cortázar adorava gatos
Julio Cortázar adorava gatos

Em seguida, a conversa vai para O território do romance, que se inicia com uma discussão sobre o primeiro romance de Cortázar a ser publicado, Os Prêmios. Nesse romance, acompanhamos um grupo de personagens que ganharam na loteria uma viagem em uma espécie de cruzeiro. Segundo Gadea, o romance permite três leituras possíveis: uma trama policial que necessita de uma resolução para um mistério, uma busca interior por parte dos personagens e, por fim, como um prelúdio de obras futuras, como O Jogo da Amarelinha, considerada sua obra-prima. Esta última ganha então, logo a seguir, um capítulo especial e exclusivo, intitulado O jogo da amarelinha: a invenção desenfreada.

Na segunda metade do livro, os capítulos tratam de temas mais variados sobre a vida de Cortázar, e como estes influenciaram suas obras. Em Jogo e compromisso político, ele conta como passou de uma pessoa totalmente avessa à política para alguém com poder para discuti-la e influenciá-la através da literatura. Ele conta que essa mudança se deu após ele perceber os efeitos da revolução cubana e presenciar uma situação de injustiça, sobre a qual ele afirma: “eu me senti obrigado a não ficar calado, a fazer a única coisa que podia fazer” (pág. 173), que era escrever. Em Nostalgia da poesia, vemos a relação de Cortázar com esse gênero, assim como seu posicionamento em relação à rejeição da crítica para suas poesias, já que a maioria tentava limitar sua literatura à prosa. Já em A música: o jazz e o tango, como o título já diz, ele fala de sua paixão pela música e de como esta influenciou sua obra, em especial o jazz, que é tema central de um de seus contos mais famosos, O Perseguidor, presente em As Armas Secretas.

Julio Cortázar 03

Por fim, Fobias, manias, vampirismo encerra a conversa tratando de assuntos mais aleatórios, mas ainda assim se relacionam aos temas e processos de escrita de Cortázar. É um dos capítulos mais curiosos. Nele, Cortázar fala sobre suas manias, entre elas o fato de só conseguir escrever quando estava em completo silêncio, sem música, com boa luz e de preferência à noite, quando o telefone não tocava e ninguém aparecia. Sabemos também, aqui, que uma das coisas que ele mais detestava era futebol, no entanto, era fascinado por boxe. Não é difícil se apaixonar por Cortázar, assim como por sua obra, seu senso crítico e seu sarcasmo. Além das entrevistas, o livro traz uma introdução e um capítulo final intitulado Palavras do silêncio, ambos assinados por Gadea, uma cronologia da vida de Cortázar, notas explicativas e muitas fotos da vida do escritor argentino, nas quais é possível ver seu crescimento físico e mudanças de visual.

Esse é o segundo livro de entrevistas com Cortázar que eu leio. O primeiro foi Conversas com Cortázar, do jornalista uruguaio Ernesto González Bermejo, publicado aqui no Brasil pela Editora Jorge Zahar. Ambos são leituras interessantes para quem gosta de Cortázar ou para quem deseja conhecê-lo. Recomendo amplamente, caso você não conheça ou não lhe tenha despertado interesse, devo dizer: leia Cortázar mesmo assim, se não gostar, pelo menos terá lido um dos autores mais importantes da literatura argentina e latino-americana.

Drops

  • Em 2014, as comemorações do centenário de Cortázar geraram diversas matérias na imprensa e uma exposição no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro.
  • Cortázar é um autor cult, que inspirou vários filmes, entre eles, Blow-Up – Depois daquele beijo, de Michelangelo Antonioni, e Week End, de Jean-Luc Godard.
  • É uma leitura imprescindível para os fãs do autor de O jogo da amarelinha, e para aqueles que estão começando a leitura.
  • Esta edição traz fotografias dos arquivos pessoais de Omar Prego Gadea, de Aurora Bernárdez, viúva de Cortázar, e do pintor e escultor Julio Silva, além de cronologia do escritor e texto crítico sobre suas obras póstumas.

Ficha Técnica

Clique para ampliar

Título: A Fascinação das Palavras
Título Original: La Fascinación de las Palabras
Autor(a): Julio Cortázar; Omar Prego Gadea
Editora: Civilização Brasileira
Tradução: Ari Roitman; Paulina Wacht
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1984
Páginas: 296
Skoob: Adicione
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4 comentários

  1. Eu estou até com vergonha da minha resenha depois de ler a tua, Ademar. Falou da sua experiência com o Cortázar e ainda falou super bem do que o livro trata.
    Amei!
    E agora quero ler o outro livro de entrevista com o autor que você leu.
    Bjs

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    • Oi Carissa,
      Nada de vergonha. Eu também adoro suas resenhas e em especial o seu gosto literário.
      Fico feliz que tenha gostado da minha resenha. Gosto muito só Cortázar.
      O outro livro de entrevistas tem os mesmo temas e algumas das falas desses, mas é igualmente interessante e vale a pena ler.

      Beijos 😘

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  2. Olá, Ademar. Tudo bem?

    Poxa, que resenha bem escrita. Fiquei “fascinado” pela construção dela e a qualidade do texto em si. Sobre o livro, não o solicitei pela record justamente por não ter lido nada completo do Cortazar, só contos soltos e fiquei um tanto quanto intimidado. Depois de sua resenha, minha vontade de lê-lo cresceu, os excelentes temas abordados nas partes do livro me cativaram. Acho que todo aspirante a escritor gostaria de conhecer um pouco mais sobre o processo de escrita do Cortazar e sobre sua vida também. Ah, não sabia que o Omar Prego Gadea era jornalista… já quero mais ainda o livro. Parabéns pela resenha.

    Att,
    Pedro Silva

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    • Oi, Pedro.
      Primeiramente, muito obrigado. Fico feliz que tenha gostado da resenha. 😊
      Como eu disse, é interessante que você já tenha lido algo do Cortázar para poder aproveitar melhor a leitura, mas não necessariamente.
      As entrevistas são ótimas (note que indiquei outro livro também interessante), vale muito a pena para quem quer escrever literatura. Uma baita lição!
      Sim, ele era jornalista e escritor.
      Obrigado mais uma vez.
      Abraços.

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