| Resenha | Pipe Dreams: Sair de Golconda, de CD Vallada

Pipe Dreams Sair de Golconda

– Pipe Dreams. É uma expressão com o sentido de sonhos, planos e esperanças tão grandes, tão distantes, que poderiam ser consideradas impossíveis de serem alcançadas.
CD Vallada, Pipe Dreams: Sair de Golconda, pág. 12.

Fantasias nunca foram meu ponto forte, mas convenhamos que esse título e esta capa são no mínimo curiosos. E foram esses dois elementos, juntamente com alguns comentários do Filipe Laia, do BooksEver, que me fizeram buscar Pipe Dreams: Sair de Golconda. Como este é um livro independente, acabei entrando em contato com o autor para saber onde/como conseguiria um exemplar e acabamos firmando uma parceria. E foi essa junção entre parceria, curiosidade e Maratona Literária de Inverno que me fizeram devorar esse livro que é, no mínimo, peculiar.

Golnconda, 1953 - by Rene Magritte
Golnconda, 1953, by René Magritte

Pipe Dreams conta a história de Edward, um garoto que acorda inconsciente na beira de um lago. Numa idade de aparentemente 14 anos, o garoto é encontrado por Patrick Borgan, um médico que aparentemente sabe mais coisas sobre o garoto do que ele mesmo. Isto é, Patrick sabe que Edward está sem memória antes mesmo dele mencionar e, a partir daí, sabe exatamente o que fazer: Levar o garoto para conhecer Sir Argot (ou Anthony). Confuso e sem muitas alternativas, o menino segue o médico com o objetivo de descobrir o que realmente aconteceu e porque foi parar naquele lugar “diferente”.

Not to Be Reproduced, 1937, by René Magritte. Um dos quadros do seu amigo Edward James.
Not to Be Reproduced, 1937, by René Magritte. Um dos quadros do seu amigo Edward James.

Para começar sua jornada em busca do passado, Edward conta apenas com um caderno de anotações encontrado no seu bolso, num idioma que ninguém conhece, e um amuleto com a imagem de uma garota. Mas o que isso significa? Quem seria essa garota? A única pessoa que talvez possa responder a isto é Anthony, o criador de Golconda, um universo onde “você pode ver as coisas mais incríveis que jamais poderia imaginar” (p. 03). No entanto, quando os dois personagens estão em frente um do outro, a única coisa que parece importar para Anthony é que Edward conheça e se apaixone por Golconda. Este excesso de informações, para quem até poucos minutos não possuía nenhuma, parece confundir Edward, no entanto, são elas que introduzem o leitor neste ambiente fantástico e onírico, na medida.

Como Anthony explica, e posteriormente descobrimos que algumas são explicações (inspirações) do próprio autor para a narrativa, Golconda é toda inspirada nos quadros surrealistas do impressionista belga René Magritte (o qual também ilustra este texto, rs). Assim, somos apresentados a objetos e cenários até então inimaginados. Alguns exemplos, que mais me impressionaram, são: o Castelo de Arnheim ‑ localizado em cima de uma rocha flutuante, no qual só se pode chegar através de um guarda-chuva voador; Georgette – estátuas que choram sangue quando alguma coisa ruim está prestes a acontecer; Lago Negro – lago escuro que faz com que as pessoas percam suas memórias quando o atravessam; Floresta Branca – onde todas as árvores são iguais e o tempo passa completamente diferente, o que impede a saída das pessoas que nela adentram; entre outras tantas imaginações interessantes, ou nem tanto.

Como Edward não tem para onde ir, acaba sendo mandado para morar com sua nova família, os Borgans – Patrick (que o encontrou), Eleanor e os filhos, Rob e Aimee. Os momentos passados com esta família, em especial os irmãos, são os mais divertidos. Assim, o trio, junto com Lucas (melhor amigo dos irmãos Borgan), acabam decidindo descobrir algumas coisas sobre o passado de Edward e, consequentemente, enveredam por alguns segredos ocultos sobre a criação de Golconda e a relação de Anthony e os golcondenses.

The Castle of the Pyrenees, 1959, by René Magritte.
The Castle of the Pyrenees, 1959, by René Magritte.

Acredito que este seja o livro de estreia do autor, mas, apesar de alguns erros básicos na edição e revisão (consequência da publicação independente, acredito), a história é completamente crível e rápida de ler. O leitor é realmente sugado para dentro dos “muros” de Golconda e a saída é um pouco triste. Inicialmente, fiquei um pouco confuso quanto a algumas imaginações descritas, mas como decidi conhecer um pouco da obra de Magritte, acabei absorvendo a essência surrealista dos artistas (pintor e escritor) e consegui me envolver completamente.

Apesar das controvérsias, adorei a capa. Li/assisti algumas críticas a respeito deste livro e percebi que algumas pessoas não compreenderam o “borrão preto” ao lado do título, mas ele é completamente compreensível, assim como a imagem do garoto, quando você finaliza a leitura. As crianças são personagens bem construídos e maduros, o que poderia atrapalhar quando imaginamos que suas faixas etárias são cerca de 13-14 anos, mas como em Golconda tudo é possível…

Não sei como as editoras encaram isto, mas consigo perceber em CD Vallada um autor extremamente “imaginativo”, ou criativo, como queiram. Assim, gostaria de pedir, (in)diretamente, que dessem uma chance ao seu trabalho, pois bastariam algumas horas a mais de revisão e pronto! Teríamos um livro completo. Mas, até que isto aconteça, fica a indicação de uma boa fantasia com uma ótima dose de humor e drama. Deixem de ser “lagões” e venham conhecer (e tentar sair ileso) de Golconda.

Curiosidades

  • Pipe Dreams é bastante inspirado nas obras do pintor surrealista belga René Magritte. Seus quadros com imagens fantásticas e metáforas reflexivas foram essenciais para a realização do livro;
  • Entre suas pinturas mais famosas estão A Traição das Imagens O Filho do Homem, apesar de outras serem muito importantes e merecerem ser conhecidas, principalmente para conhecer um pouco mais sobre os personagens (e suas formas) deste livro.
The Treachery of Images, 1929 by Rene Magritte
The Treachery of Images, 1929, by René Magritte

Ficha Técnica

Pipe Dreams Sair de Golconda
Clique para ampliar

Título / Título Original: Pipe Dreams: Sair de Golconda
Autor(a): CD Vallada
Editora: Independente
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 260
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